janeiro 11, 2010

Missa do Galo + Comunicado

Um minuto de vossa atenção, por obséquio, para um comunicado importante:

Tenho compartilhado imagens e outros quetais em buchoterra.tumblr.com, donde se encontram peças não menos valiosas que o galo viciado em crack acima; estão convidados, pois, para uma visita. Quanto a este estimado buraco, incrustado a sete palmos de areia quente em solo tropical, saibam vocês que o calor nos tem impedido de manter a costumeira frequência de outrora nos informes, já que é de atração quase magnética o espichar-se numa cadeira de plástico com uma caipirinha nos braços –  pensando, claro, em como sair dessa enrascada na qual nos metemos todos no verão. Estamos, contudo, seguindo a tendência global no twitter – sob a carapuça de @queridobunker com as besteiras da internet de sempre, que vez por outra resvalam por lá.

Noutra ocasião gostaria de falar sobre o verão e suas consequências. Não sai da minha cabeça esse calor, sobretudo porque o sol está acima dela sempre a se fazer lembrado, e a derreter o sélebro. Mas fica pra depois. Té mais ver.

Abraço fraterno,
Márcio N.

janeiro 4, 2010

bye-bye blue-blue

Bateu as botas esses dias, Vic Chesnutt, numa lambança medicamentosa:

• A notícia pelo g1, aqui. • A família criou esse site para arrecadar doações que vão ajudar a cobrir as dívidas de V.C. com o sistema de saúde dos Estados Unidos. • Deste modo, você teletransporta um disco sem assumir dívidas de consciência – mas isso, só se possuir uma moral firme.

Abraço fraterno,
Márcio N.

dezembro 22, 2009

Postes #1

Série infantil, para crianças tristes.

Abraço fraterno,
Márcio N.

dezembro 22, 2009

s.y.09

Sonic Youth – The Eternal (2009). Faixazona última do disco, conhecido recente.

Abraço fraterno,
Márcio N.

dezembro 9, 2009

Bruno Aleixo _entrevista

Bate papo com respeitável amigo, direto de Coimbra.



Os autores – somente uma equipe de técnicos a constar nos créditos, como explica Aleixo –, são um grupo de humor dos bons, GANA – Guionistas e/ou Argumentistas Não-Alinhados. Um zilhão de coisas deles, aqui.

Bruno Aleixo na Escola – novos quadros

Mais memórias em VHS dos tempos da escola encontradas; dessa vez, fora da sala de aula.

Num deles é difamado pelo diretor, em que sobressai a costumeira sabedoria evasiva; nos outros quatro, menino Bruno emana habilidade social no recreio, coisa linda de se ver >> aqui >> os novos, em entrada crescida.

Abraço fraterno,
Márcio N.

dezembro 7, 2009

Molly’s Lips _jovencita

Deixando a manhã de segunda-feira com jeito de tardinha de quinta.

1. The Vaselines; 1986-1990.
2. Apresentação por Krist Novoselic, cabôco do Nirvana, aqui.
2.1. Por sinal, esse virou colunista de um jornal em Seattle, gravadora situada na costa do Pacífico.
3. Para download dos discos, o Sr. Google se prontifica a ajudar: nesse link, “Enter the Vaselines”, duplo de 2009. Nesse outro, “all the stuff and more…”, coletânea.
4. De agora em diante daremos preferência a faixas captadas dessa maneira, filmadas de um vinil rodando, ou ao vivo – na pureza dela, sem truques de videoclipe; este, além de diminuir a música à categoria trilha sonora, não deixa espaço para imaginação. Salvo, claro, quando não for nada disso.

Boa sorte, e fiquem com Deus.

Abraço fraterno,
Márcio N.

dezembro 2, 2009

Corpúsculo num plano _daniel liberalino

Daniel é o cara. Este conto dele, corpúsculo, reli algumas vezes; assombrado.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Corpúsculo num plano

Daniel Liberalino

I

Vejo o relógio; sem particular interesse, percebo que me atrasei cerca de duas horas. Provavelmente vou ser julgado como me cabe, talvez despedido, dentro de um mês ou dois.
Trabalho numa copiadora, com outras duas pessoas; fica num prédio comercial, num quarto pequeno do primeiro andar, subindo a escadaria. Também fazemos 3×4. Meu serviço é primário: eu tiro as fotos, passo para o computador e faço alterações básicas – mudança de resolução e tamanho. Isso é enviado para a impressora, que imprime. Também posso ajudar com a xerox. No caixa fica Goreti, hiperglandular e menopáusica; Luciene, a gerente, faz cópias. O lugar não tem janelas e o ar-condicionado é fraco – serve essencialmente para fazer circular os micróbios. De todo modo, com o tempo os empregados se habituam ao ar reaproveitado; talvez alguma alteração ocorra no organismo, que se adapta às concentrações maiores de gás carbônico.
Às 12 horas saio para almoçar. O meio-dia está cinza; peço um prato-feito, com feijão, arroz, frango e uma salada de batata.

Três anos atrás eu chegava na cidade; aluguei um quarto de fundo. Ficava – ainda fica – no terraço da casa de uma mulher idosa, num centro de prédios comerciais. O acesso é feito pelo corredor lateral, separado da casa propriamente. Abre-se um portão, depois outro, tem o terraço escuro de barro, pontuado com a folhagem de mato que conseguiu brotar, e enfim a varanda, que dá para o quarto, um cuzinho. continuar lendo

dezembro 1, 2009

Assobio

Esteve tocando em minha cabeça, nesta terça-feira, no repeat:

Abraço fraterno,
Márcio N.

dezembro 1, 2009

Pixies

Passearam no carro, ontem:

Abraço fraterno,
Márcio N.

dezembro 1, 2009

Lucky

Esteve no Posto Escola nesta segunda-feira, em Natal, Gabriel, o incendiário.

Abraço fraterno,
Márcio N.

novembro 30, 2009

Shiko

Esteve em Natal, neste sábado, Shiko, o paraibano.

Abraço fraterno,
Márcio N.

novembro 29, 2009

Símio

Continho escrito em 2005, quando perdi um dente. Na época eu pensava que tinha feito um texto de humor; revendo agora, acho um pouco triste. Boa notícia: de lá pra cá, o molar foi restaurado com muita competência pelo meu dentista.

Abraço fraterno,
Márcio N.

27 Dentes

por m.n.f.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS:

1. Como os sisos do autor jamais nasceram, ele deveria possuir em sua arcada o número exato de 28 dentes. Mas essa é justamente a história de como ele perdeu um deles, ficando com 27.

2. Não sendo esta, necessariamente, uma espécie de autobiografia do cálcio.

3. Em todo caso, se um dia o autor sentir o ímpeto de escrever uma autobiografia ele teria que ser um sujeito sobrenaturalmente imaginativo, uma vez que em sua vida nada aconteceu de extraordinário, tendo consistido a mesma até o presente momento em tais fatos: a) comer doces na infância até desenvolver diabetes, quiçá tratamentos dentários de canal; b) passar pela puberdade rodeado por garotas que trucidaram a sua auto-estima, geralmente escolhendo um orangotango a ele nas matinês de domingo; c) na idade adulta manejar o controle remoto da televisão como uma forma de reduzir a dor; d) e, por último, ser agredido fisicamente por um orangotango – um fim ridículo para uma existência não menos bizarra.

4. Essas são algumas boas justificativas para que até então o autor limitasse sua produção literária ao estudo intitulado de: “A Vida das Samambaias”, ensaio no qual é retratado venturoso ciclo de toda uma geração de pteridófitas, da densa e tenra mata a um vaso de cerâmica. Contudo, isso não chega a ser uma consideração, nem mesmo uma justificativa, mas muito provavelmente um comentário, o que ainda assim possui a mesma irrelevância e completo desrespeito ao tempo do leitor. Perdão pelo deslize.

5. O autor sugere que o texto seja lido da esquerda para a direita, descendo uma linha ao final de cada bloco de palavras, que devem ser associadas de maneira a compor sentenças gramaticalmente corretas. Isso não impede a leitura do texto de trás pra frente, o que pode ser bem divertido, principalmente se o leitor estiver sob efeito de um cogumelo que não lhe desceu bem.

6. Em determinado momento do texto autor gostaria de soltar a seguinte epígrafe: “Somos todos irmãos de sangue ou de miséria, mas invariavelmente irmãos.”, e vocês iriam dizer, ei, isso é profundo, ou então ei, isso não é profundo, e como isso aqui pretende ser bem rasteiro o autor preferiu deixar a frase de fora.

7. Preciso fugir, a polícia chegou.

Meu nome é Márcio, tenho 27 dentes. E, ainda que irmãos, primos, ou pelo menos compartilhantes de um código genético que tenha lá suas afinidades, sou incapaz de ver um orangotango com bons olhos. Nasci em 1982 e, imagino, esse é o meu ano atual ainda que quase trinta já tenham se passado, se é que de fato passaram por esses tempos parados cada vez mais parecidos com um homem que acorda no meio da noite pra beber água e simplesmente esquece o caminho de volta ao quarto, sendo obrigado a passar o resto de sua vida perambulando por uma casa vazia. (Hum, agora imaginem vocês a situação desse mesmo homem ao encontrar um fantasma a arrastar correntes pelo chão e que não tem mais nada a fazer do que assustar as pessoas, e como se não bastasse o pavor que lhe arrebatara a alma, este homem resolve puxar assunto com o espectro para quebrar o gelo que lhe congela estômago: “Com licença… O senhor poderia me informar o caminho de volta para o meu quarto?” – e o espectro responde: “Procuro por esse quarto desde os tempos em que eu era vivo.”). Em todo caso, como todo bom cidadão de classe média eu costumava ter as minhas ambições, ser dançarino profissional e poder sapatear Mendelson em um teatro lotado, só para citar minha vertente mais erudita. Ainda me recordo nitidamente daquele agradável jantar com A., em que pedimos uma pizza de alcachofras e rimos ao ver as baratas que comiam as migalhas que deixávamos cair no chão disfarçadamente (ela sempre adorou animais) e, com entusiasmo quase infantil interpretei o número em que salto pelas mesas da lanchonete e sou expulso como um ingrato sem ao menos cumprimentar a platéia, que parecia gostar do espetáculo não fosse o constrangimento generalizado. Desde aquela noite não mais vi A., ela foi embora aos prantos sem nem mesmo me dizer as outras letras do seu nome. A. nunca me entendeu de fato, em parte pela minha dicção precária, essa desvairada que insiste em me pegar naquelas horas onde tudo o que preciso é de um pouco de fluência, ou de um saco de pipocas que me serviriam de bom uso para distrair dessa vida louca, porque perder A. foi só mais um golpe do destino, a digna e confortável masmorra onde posso me dar ao luxo de ficar entediado, onde posso, inclusive, tomar isto como a minha melhor distração. Não há muito, tem uns anos, eu trabalhava na contabilidade de um Motel, uma modalidade mais lucrativa de restaurante onde é o cliente quem leva a comida, e no geral eu me ocupava com um jogo que consiste no participante mergulhar em si mesmo o mais fundo que conseguir, só para testar o fôlego. As mãos repousadas na mesa de homem sério, clipes e papéis, a vida passando entre as orelhas e eu imerso no meu jogo – e era o que eu fazia quando o orangotango invadiu o escritório. Eu tinha 28 dentes e não usava nem metade deles quando o macaco arrancou-me o molar, mas não sem antes fazer um discurso sobre alguma coisa da qual não lembro bem, mas que parecia muito importante ou ele não estaria com os olhos inflamados e as mãos cerradas, prontas para me acertar. Eu tentava inutilmente desviar a sua atenção, por isso apontava para as suas costas e dizia “Veja, atrás de você!”, ao mesmo que tentava me esquivar dos seus golpes; o animal era rápido e proferia socos violentos, de técnica invejável para um humano. As coisas ficaram, por assim dizer, bastante confusas. Retomando a consciência, o doce do sangue na boca, contentei-me ao ouvir os urros da besta a se distanciar, dando fim ao triste incidente envolvendo um orangotango e eu.

***

Algumas coisas não precisam fazer sentido, mesmo – são como são.

novembro 28, 2009

Twitter _homem esponja

Algumas pessoas têm o hábito de querer absorver toda a internet.

Abraço fraterno,
Márcio N.

novembro 27, 2009

Influenza A

Mais informações, aquiaqui.

Abraço fraterno,
Márcio N.

novembro 26, 2009

Diga “trinta e três”…

Hoje, sem prerrogativa real, fui ao hospital fazer um check-up. Uma bateria de exames afim de identificar qualquer bomba acionada por dispositivos padrão, como: cigarro, bebida, insônia, tensão etc. Do primeiro ao último exame leva em média uma semana – inetivável, nesse período, não se pegar considerando menos o “melhor” e mais o “pior”. Isso porque (conclusão recente) ir ao médico não é exatamente uma atividade otimista. Você supõe, do fundo do seu coração (ou dos pulmões, ou do pâncreas, ou do que for), que alguma coisa em você pode ter saído dos eixos; que em determinado momento o médico pode vir a assumir uma expressão grave e, ajeitando os óculos no nariz, desenvolva um discurso que começa em “bom… de acordo com esses exames…”, desencadeando para palavras como “predisposição genética”, “caso raro”, “existe uma chance”, para fechar com um tapinha amigável nas costas, daquele que diz sem dizer: “vai com Deus, irmão”. Nesse caso, o do pior possível, sua visita ao médico foi um sucesso: não só deixou de ser uma perda de tempo descomunal, como mostrou que nesse momento onde a vida lhe mostra um atalho repentino, mais curta e impaciente que o costume, perder tempo seria uma decisão das menos inteligentes – uma nova perspectiva para a completa falta de perspectivas. Existe, contudo, uma outra hipótese, que é a de você estar cem por cento. O médico, ligeiramente entediado por não ter achado nenhuma desgraça suficientemente excitante, dirá que está tudo bem com você, e que a sua ideia de fazer um check-up foi só uma paranoia senil. Assim é que é. Acontece que o problema atual não está nem em uma coisa, nem em outra; mas no ponto exato entre elas, a dúvida.

Abraço fraterno,
Márcio N.

ps: nenhum crocodilo se feriu na foto acima, extraída daqui.

novembro 25, 2009

Direto do Bunker _natalinas

Excerto das principais manchetes do caderno “decorações” de jornal de bairro.

• Decoração do Natal em Natal seria pegadinha do Malandro.
• “Brincadeira tem limite”, esclarece Sérgio Malandro.
• Assustada, estrela de Belém volta para o Pará.
• Situação e oposição se reúnem por obra pilantrópica neste Natal.
• Menino Jesus: “Essa é a festa de aniversário mais estranha que já tive”.
• No Pará, Estrela de Belém monta banda de technobrega.
• Três Reis Magos desaparecem do viaduto de Ponta Negra.
• “A decoração é linda”, afirma bom observador de rabo bem preso.
• “O pior cego é aquele que tem o rabo preso” (provérbio chinês)
• Pisca alerta de fusca quebrado eleito o pisca-pisca mais bonito de Natal.
• Decoração teria sido inspirada nos brincos da socialite Hilneth Correia.
• Turistas norte-americanos elogiam decoração de halloween da cidade.
• Advertidos de ser uma decoração de Natal, turistas caem na gargalhada.
• Hilneth: “aquilo mais parece com as minhas ciroulas que com meus brincos.”
• Bêbado é preso ao tentar fazer sexo com árvore de Natal.
• Operação Reis Magos: Belchior encontrado em cabana no Uruguai.
• Baltazar e Gaspar ainda desaparecidos.
• Bêbado da árvore: ”ela era alta, bonita e piscou para mim”.
• “Vocês, natalenses, não foram bons meninos nesse ano”, anuncia Papai Noel.
• “Papai Noel não existe”, rebate Câmara dos Vereadores de Natal.
• “Antes acreditar em mim do que na Câmara”, esclarece Papai Noel.

Gostaria de agradecer o empenho de todos os envolvidos na ornamentação da cidade, sem a qual essa coletânea não teria sido realizada.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Aqui, outras notícias Direto do Bunker sobre Natal – a sub-sede, não a data.

novembro 24, 2009

Animando os ânimos

Clipe do mesmo diretor que acabou com o Guia do Mochileiro.

Download do pirata de 2007, aqui.

Abraço fraterno,
 Márcio N.

novembro 5, 2009

the charque side of the moon

 Evolução de um álbum que ainda não havia sido realmente finalizado, sendo só agora (2 anos atrás) destacado seu verdadeiro espírito do Norte, o techonobrega. Se antes era um disco bom para dar sono, agora tem ao menos serventia para dançar agarradinho com a pequena.

O charque em questão é uma gíria muito popular no Pará, onde não se pode dizer a uma cozinheira que gostaria de comer a charque dela sem que isso a ofenda seriamente – conforme explicou amigo que por lá se esbaldou.

O link para download, aqui.

Abraço fraterno,
Márcio N.

novembro 2, 2009

Bú!

Constatação da última semana: parece que o halloween foi mesmo incorporado ao ciclo de fuleiragens do brasileiro. Porém, mais assustador que o dos americanos é o nosso, uma vez que confundido com Carnaval, vira pretexto para tirar a fantasia mofada do armário. Ou então para sair do armário por completo, como foi o caso do grupo de oito ou nove rapazotes que achou uma boa ideia usar de traje fraldas geriátricas – o que, refletindo assim por alto, é nada mal se você considerar a fila do banheiro (ou péssimo, se você considerar o desespero do seu avô diante do furto). Outra fantasia, essa em cima da hora, foi a do amigo que comprou o uniforme de um frentista por trinta reais direto com o fornecedor – no posto de gasolina e a caminho do evento. O frentista, na ocasião de vender as próprias roupas, fosse talvez um dos que usavam fraldas, mas aí beirando o digno: por razões de necessidade. O halloween é um carnaval pobre. Um carnaval de terceiro mundo, eu diria. Mas, com apelo interessante, tornou-se boa propaganda para bares. Um deles em específico, freqüentado por cocainômanos em momento de profundo desespero pessoal, e com um atendimento tão deplorável quanto merecem os clientes, ao que parece organiza o halloween mais movimentado de Natal – o do Gringo’s. O segredo do sucesso é ser esse o lugar mais apropriado para uma festa que tem por tema a cultura do pânico – sentimento recorrente em mim sempre que ponho os pés no estabelecimento, vide regra em momentos de profundo desespero pessoal. Pelo que eu pude precisar, havia entre uma dúzia e três mil pessoas aglomeradas em uma praça, todas sem saber absolutamente o que fazer senão reproduzir um espírito carnavalesco forjado. Exemplo: uma enfermeira forjada rebola fogosa pela rua e autêntico Don Juan, devidamente calibrado, solta gracejo de dar inveja a Camões: “enfermeira, cuida deste coração sofrido”; ou talvez, chamego mais incisivo: “estou de pau duro, ma cherie”; o que provavelmente surtiria efeito melhor com a dama. Ano que vem, se tudo der muito errado e a moda vingar, repito a minha fantasia, que é de Deus, imagem e semelhança do homem – raridade nesses tempos de fraldões à mostra. A bem da justiça, hei de fincar, portanto, minha bandeira nas firmes tradições do Nordeste (quiçá desse brasilzão todo): nada como uma seresta da boa, o halloween da vida real, onde o que dá mais medo é a banguela da mesa ao lado sorrindo para você. Isso sim, é autêntico.

Abraço fraterno,
Márcio N.

outubro 15, 2009

Retiro

A propriedade da minha família ficava perto de um açude que quase nunca estava cheio. De modo que, na maior parte do tempo, a propriedade da minha familia ficava perto de um buraco. Quando o buraco enchia de água, eu gostava de nadar nele. Eu, os meus irmãos e as minhas irmãs. O meu pai e a minha mãe gostavam de ficar sentados em uma pedra na beira do açude. O meu pai às vezes nadava com a gente. A minha mãe nunca nadou, porque ela nunca aprendeu a nadar. Então ela ficava séria, olhando. Ela sempre estava séria e sempre estava olhando. A minha mãe era muito velha para ser a minha mãe. Era magra, e séria. Tinha a pele rachada feito as rugas que tem na terra. Quando a minha mãe ficava triste, ela chorava. Eu gostava de olhar para as rugas se enchendo de água e imaginar que eram rios, era bonito. Os primeiros rios que eu vi de perto foram os rios que eu vi de longe do alto das rugas da minha mãe. Onde a gente morava, quase não tinha água. Quando chovia, tinha. Mas a água ia toda para o açude e depois o açude secava. Um dia o rio da minha mãe também secou. Ela ficou triste e não chorou, e nunca mais chorou. A minha mãe só riu uma vez na vida dela. Eu vi quando foi. Ela gostava de olhar pra gente quando a gente brincava. Eu gostava de brincar com meus irmãos, minhas irmãs, meu carrinho e com o cachorro. O cachorro gostava de brincar comigo, meus irmão e minhas irmãs; mas gostava mais de brincar com as coisas que ele achava, como: galhos secos, lagartixas, caroços, galinhas e ossos. Um dia, olhando pra gente, a minha mãe riu. Ela riu, eu vi, ninguém mais viu. Ela tem poucos dentes, eu vi. No quintal da terra da gente, embaixo de uma árvore, é o lugar para onde vai todo mundo que morre. Um dia o cachorro fez um buraco embaixo da árvore e achou um osso. Depois, o cachorro também morreu foi enterrado embaixo da árvore com o dono do osso que ele pegou. O mundo é engraçado, às vezes. O padre disse que o cachorro, meu tio e Dona Fátima estão no céu. Eu sei que não, porque eu sei que eles estão embaixo da árvore igual a todo mundo. Quando eu morrer eu não quero ir para o céu. Quero ir morar embaixo da árvore pra brincar com o cachorro e ouvir Dona Fátima falar. Dona Fátima falava o tempo todo. Ela contava histórias que eu sempre prestava atenção no começo e depois não. Ela ficava mexendo a boca e eu ficava pensando em outra coisa. Um dia pensei que Dona Fátima era muito vermelha, igual ao galo que a gente tinha. Ela tinha pelancas embaixo do pescoço, igual ao galo que a gente tinha. Dona Fátima parecia muito com o galo que a gente tinha. Mas o galo só falava de manhã cedo, e Dona Fátima falava o dia inteiro. Um dia o meu tio disse que não gostava de Dona Fátima porque ela falava muito. O meu tio não gosta dela, mas agora está com ela. Eu gosto dela mais do que gosto dele e menos do que eu gosto de Maria, a minha irmã pequena. Maria tinha a barriga grande e redonda e ficava sempre em pé do lado da minha mãe. Ela não gostava de ficar do lado do meu pai por causa do cachimbo que o meu pai fumava. Uma vez eu fumei o cachimbo do meu pai. O cachimbo tinha o mesmo gosto do cheiro, ruim. Não sei porque o meu pai gostava dele. Mas ele gostava. O cachimbo do meu pai era de madeira e tinha um nome escrito nele: Manuel. O nome do meu pai é Francisco. Manuel era o nome do antigo dono do cachimbo. Depois, virou o nome do cachimbo. O cachimbo era a coisa que o meu pai mais gostava na terra. Eu sei disso porque uma vez eu escondi o cachimbo, e ele ficou nervoso. Quando o meu pai ficava nervoso era estranho. Ele andava de um jeito estranho, dizia coisas estranhas e fazia coisas estranhas. Naquele dia, ele fez uma das coisas mais estranhas da terra: um cachimbo. O cachimbo que o meu pai fez era um cano tampado de um lado e aberto do outro. Não ficou bom, eu disse, ele concordou. Outras coisas estranhas que o meu pai fazia: jogar baralho sozinho, pintar pedras de colorido, conversar com o cachorro, caçar. Eu gostava de sair para caçar com ele, era bonito. A gente andava guardando o barulho e depois a espingarda soltava o barulho todo de uma vez. Atirávamos em avoetes, rapousas, preás, cutias, anuns, carcarás, tatus. O meu pai falava mais com o cachorro do que falava comigo. Eu falava mais com o meu pai do que falava com o cachorro. O cachorro não falava com ninguém, porque não sabia falar. Falar com o meu pai era uma coisa estranha que eu fazia, estranho como meu pai quando fala com o cachorro. Assim eram as caçadas. O cachorro, o meu pai e eu. Depois das caçadas a minha mãe servia as avoetes no jantar. Como tinha muito osso, eu não gostava. Como tinha muita avoete no osso, o cachorro não gostava. Mas comer, ele comia, embaixo da mesa, em cima dos meus pés. Fazia cócegas. Um dia o meu pai ficou nervoso quando me viu dar a avoete para o cachorro. Bateu na mesa, disse um palavrão e acendeu o cachimbo. Quando meu pai batia na mesa, eu ficava nervoso pouco. Nervoso muito, só fiquei uma vez na vida. Foi quando meu irmão bateu em Maria. Eu bati nele, o meu pai bateu na gente, e tudo se resolveu. O nome do meu irmão era Pedro. Ele tinha o rosto enferrujado, era triste, por isso. A gente achava a ferrugem engraçada. Uma vez ele quis tirar a ferrugem com sabugo de milho, que esfregou, esfregou. Não deu certo. A cara dele ficou arranhada e vermelha. Vermelha igual ao galo que a gente tinha, vermelha igual era Dona Fátima. Sarda não sai, a minha mãe disse, sarda era a ferrugem na pele. Ficou com vergonha o meu irmão, e corou. Abriu a boca vermelha, e vermelho foi o choro que ele chorou. A minha irmã gostava de rir, por isso ela riu. Foi nessa hora que o meu irmão bateu na minha irmã. Depois aconteceu o que aconteceu, e tudo se resolveu. Naquele dia a minha irmã apanhou uma vez, foi do meu irmão. Eu apanhei uma vez, foi do meu pai. Mas o meu irmão apanhou três vezes: de mim, do meu pai e do sabugo de milho. O meu pai apanhou nenhuma vez, porque nunca apanhou. Eu tinha pena do meu irmão, às vezes. Igual a tinha pena de Maria, que era pequena. Para Maria que era pequena, o mundo era grande. Mas o mundo vira pequeno, quando Maria é grande. Era por isso que o meu pai era nervoso e a minha minha mãe era séria. O mundo deles encolheu, virou o mundo mais apertado da terra.

(fazendo…)

- dilúvio, pangéia, placas tectônicas, ilhotas – alto da igreja, casebres, vacas nadando, sapos. piadas da Lagoa – sapinho.

outubro 10, 2009

Piriguete na webcam

Ou por onde anda Chaves, o mexicano, depois da operação de mudança de sexo.

Abraço fraterno,
Márcio N.

outubro 3, 2009

Cachalote

Abraço fraterno,
Márcio N.

outubro 1, 2009

A obra do Moura

Um dos primeiros contos que escrevi, sete anos atrás.

Abraço fraterno,
Márcio N.

A obra do Moura
Márcio Nazianzeno

Até hoje, as pessoas ainda não sabem ao certo o que levou o Moura a construir seu próprio túmulo. Mas, como narrador e coadjuvante, posso lhe contar em primeira mão o ocorrido. Em meu ofício, procuro conhecer bem os clientes antes de atendê-los; um tributo pessoal, que faço, simplesmente, para o alívio da minha consciência.

Moura era um homem taciturno, que levava no rosto a marca de 66 anos que poderiam ter sido e não foram. Sem filhos, dedicava seu tempo ao Sebo da Praça, onde era proprietário e administrador. Nunca foi de estender as conversas com os clientes, mas os tratava bem, falando sempre que necessário. Geralmente apontava um there enrolado para indicar onde estava aquele LP original dos Mutantes que o gringo procurava. O Sebo da Praça, que tinha esse nome nem eu mesmo sei bem por que, ficava em uma avenida movimentada. A boa localização do ponto, aliada à diversidade de títulos raros, compusera uma boa fama ao lugar. Alguns transeuntes entravam na loja pelo simples entusiasmo de ver de perto as figuras excêntricas que freqüentavam a casa: pseudo-filósofos, universitários, cults, menininhas místicas, escritores, colecionadores, inúteis em geral… era, por assim chamar, um reduto de pessoas inseguras que encontravam na erudição a chave para compreender problemas existenciais estilo livros de auto-ajuda.

Em um dia qualquer, Moura teve interrompida a sua leitura diária do Aurélio para ouvir um marxista mencionar algo sobre uma placa publicitária que havia em frente ao sebo, e que até então era invisível. Esse outdoor é a gota d’água. Interagia o marxista, insatisfeito como sempre e dando ares de que iniciaria dali um discurso engajado, anti-consumo. Moura se levantou da cadeira e foi à porta para entender do que o homem falava. Era melhor ver o outdoor ele mesmo do que gastar os tímpanos com as divagações do cliente. Nunca foi de dedicar muita fé a publicidade, ou a um marxista, principalmente depois que se feriu gravemente com um absorvente masculino anunciado no Pasquim.

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Cemitério Parque Morada da Paz.

Visualmente, era ainda mais terrível. Havia, no centro, um homem caminhando entre pirâmides. Essa imagem produziu insights na mente do Moura, seguindo a seguinte seqüência: pirâmides – Oriente Médio – turbante – tantra – tela escura – múmia atraente – tela escura – cigarro – café. O que o levou à nona xícara daquela manhã. Enquanto soprava o café, um hábito antigo que tinha o intuito de preservar a integridade de sua língua, pensava no significado do anúncio que, apesar de mal diagramado, tinha uma boa sacada, levando a uma rara reflexão: A morte, assim como o descontrole intestinal que segue uma feijoada, era sua única certeza. Investir em um negócio garantido não lhe parecia má idéia, mas o aterrorizava considerar mais seriamente o inevitável fim. Cairia nas entranhas do esquecimento em pouco mais de um mês (ou uma semana, o que viesse primeiro). Getúlio, ao sair da vida, entrou para a História, mas e o Moura? Sairia com uma mão na frente e outra atrás. Não possuía filhos, nunca plantou uma árvore nem escreveu um livro, nunca realizou um grande feito, nada. E o Sebo da Praça, nesses tempos, já não passava de ponto de encontro de decadentes. Até aquele momento, a posteridade estava fora dos planos do Moura.

Pensa, arrota… Pensa. Um memorial. Era isso que ele precisava. O velho Moura teria o melhor túmulo que um defunto poderia receber. Quando as pessoas olhassem para sua lápide, pensariam: Aí está um grande sujeito. E sua alma riria baixinho (para não assustar) da peça que pregara.

Uns quinze dias se passaram para que nosso homem decidisse investir na obra. Para entrar na história, mesmo como figurante de cemitério, era preciso dedicação. Após uma vida de decepções, chegava agora o seu momento. Nem mesmo o Papa teria um túmulo tão sofisticado. Revestido em granito, com capelinha, ambientação estudada por arquiteto, estatueta na entrada, música ambiente, tudo nos conformes para a eternidade. Além de tudo, era um homem prevenido, e, ante a possibilidade de ser enterrado vivo por uma trapalhada qualquer, teria um dispositivo para sair do caixão, e, como segurança nunca é demais, havia um bolso com uma caneta e algumas edições de palavras-cruzadas que lhe ajudariam a passar o tempo caso o dispositivo não funcionasse. E assim, mergulhado em planos, Moura prosseguia com empenho. Na hora do almoço, sempre arrumava um tempinho para dar uma passada no cemitério a fim de acompanhar o trabalho dos pedreiros, incrementando novas ideias sempre que possível. Um dia, cismou que queria instalar um cuco para berrar seu nome a cada hora, mas, advertido pela administração do cemitério, acabou por desistir da idéia. Era um empreendedor.

Lembro-me bem do dia que me viu bem de longe no cemitério, toda de preto. Lá está ela, a velha, só na espreita… sai pra lá, aquieta o facho disgramada. Brincou, pensando que minha imagem se tratasse de um devaneio qualquer. Sempre que tinha tempo, entre uma atividade e outra, eu me empenhava em estudar meu próximo cliente. Moura era um homem taciturno, que levava no rosto a marca dos 66 anos que poderiam ter sido e não foram. Sem filhos, dedicava seu tempo ao… ah, eu já disse isso, e, reavaliando, vejo que posso fazer uma breve correção. O nosso homem não era mais triste. Agora seu rosto transpirava satisfação, reluzindo vida. Moura estava feliz como nunca, fiquei até triste ao constatar isso (melhor trabalhar para infelizes, assim meu serviço é mui mais útil). Ainda na décima sétima prestação do terreno, sua obra já passava pela fase de acabamento. Parecia até que adivinhava.

Em fim de tarde e como de costume saiu da loja para ir ao cemitério. Neblinava uma chuva que de tão leve e fina parecia neve, era o grande dia, e tudo estava pronto. Havia uma escada, deixada para que ele conferisse o revestimento especial aplicado na cobertura da capelinha. Ao subir na escada, Moura tremia de tanto entusiasmo. Estava tão radiante que eu quase cedi, mas quem cedeu primeiro foi a escada, deslizando sobre o mármore molhado e lançando o Moura ao solo com violência tal que o chão desabrocharia como uma flor para que ele descesse direto para o inferno. Dei meu sopro no ouvido do Moura. Nos décimos de segundo que antecederam o impacto, Moura sentia a minha presença. A danada, pensou, assistindo ao manjado flashback da vida, desde o nascimento até a despedida sem grandes curvas na trajetória. Filosofou, descobrindo o significado da da vida. Em matéria de mim mesmo... E interrompi o pensamento daquele nobre homem pela metade. Calei-o, de forma que continuasse sendo o velho Moura, que entrou para a história.

***

Depois eu soube que já existiu aqui em Natal um Moura com um sebo no centro. Coincidência.

setembro 28, 2009

Gripe da Fruta

Fica aí minha contribuição com a medicina.

Abraço fraterno,
Márcio N.

setembro 16, 2009

Felton Pond Eshwin Shwan _mp3

→ Banda de pedreirície incólume e que já na capa do disco mostra total desapego à frescura. Cada faixa comentada, bem como link para teletransporte do emepetrês, a seguir.

Botão direito / Salvar como.

01. She is a funk genious

Faixa introdutória, não é das melhores – pode deixar essa por último.

02. The flip side of the moon

Pop não-canastrão experimentando efeitos de computador [a banda parecia bem empolgada com isso].

03. It’s wintertime

Faixa atmosférica com ecos e chiados, tem algo de “rain”.

04. Inside your body

Essa tem barulhos legais e claras influências loser.

05. Karate chop

A mais roquemrou, e de acordo com crítico musical argentino amigo meu, parece macumba.

06. Your so fucking beautiful

Faixa marginal para ouvir muito bêbado. Ou tomando um sorvete, se você preferir.

Abraço fraterno,
Márcio N.