fábula #35

novembro 15th, 2011 § Deixe um comentário

Formigas

m.n.f. / 2011

Era uma vez uma colônia de formigas que se comportavam como pessoas, ou uma colônia de pessoas que agiam como formigas; tanto faz.

Os pontos se organizavam em filas, amontovavam-se em aglomerações nervosas, moviam-se o tempo inteiro; andavam por baixo da terra em metrôs e outros túneis, sempre de cá pra lá e de lá pra cá. Saíam logo cedo de casa para o trabalho, e só à noite voltavam para dormir. Quando o fim de semana chegava, não sabiam exatamente para onde ir.

Certo dia, dois espécimes caminhavam na calçada. Usavam terno e carregavam cada qual uma maleta.

— Qual é a boa de hoje?
— Hoje vamos nos reunir para devorar um boi.

O outro tinha planos diferentes.

— Já eu, vou para casa reproduzir.
— Maravilha! Com mais de nós, vamos dominar o mundo.

As formigópolis ficavam cada vez mais lotadas e espalhavam-se por todo o globo. Os habitantes de cada colônia consumiam tudo o que lhes fosse possível, até que nada mais restasse.

— O que é aquilo?
— Onde?
— Lá em cima.
— Estranho… parece um pé.

Ploft.

A pisada que esmagou-lhes é lembrada ainda hoje com muito pesar. Que azar, que azar…

***

Moral: ninguém é tão grande ou importante quanto se imagina, e algumas coisas fogem ao controle; o mais seguro é viver em equilíbrio.

fábula #34

novembro 10th, 2011 § Deixe um comentário

Dora Dorinha

m.n.f. / 2011

Dora adorava andar e andar era tudo o que Dora fazia; para onde ia, isso nem mesmo ela sabia. Parecia que estava perdida, parecia que tinha perdido o juízo. Quando viu um anjo, ela acreditou que estivesse louca.

— Por que você anda tanto? – indagou o anjo.
— Eu ando porque não sei voar – respondeu.

Ele pensou um pouco e concluiu.

— E eu voo para não ter que carregar essas asas.

Então o anjo arrancou as asas e entregou-as à Dora.

— Qual é o seu nome? – o anjo perguntou.
— O meu nome é Dora, mas pode me chamar de Dorinha.

Era Dora Andarilha. Agora, é Dora Andorinha.

***

Moral: perspectivas existem, sempre; às vezes você apenas não sabe quais são.

revista

outubro 24th, 2011 § Deixe um comentário

Revista Preá #24

fábula #33

outubro 18th, 2011 § Deixe um comentário

Lago, buraco e campinho

m.n.f. / 2011

A vila fora construída às margens de um bonito lago; mas parou de chover e o lago secou, de maneira que essa é a história de uma vila à beira de um grande buraco.

— Aqui costumava existir um lago – diziam os mais velhos.
— O que é um lago? – perguntavam os mais novos.

Uma vez o prefeito em pessoa pediu ao homem da previsão do tempo para que anunciasse chuva, mas nem assim ela veio, e o homem foi demitido.

Aos poucos a população conformou-se com o buraco e ele ganhou uma nova finalidade, a saber: o futebol. Os jogos aconteciam no fundo e  as pessoas reuniam-se em volta para assistir, havia torneios e até um pipoqueiro.

Era final de campeonato, o time da casa perdia de um a zero quando o centroavante empatou. Todos pensaram que fazia parte da comemoração os raios, relâmpagos e trovões que sucederam o gol. As nuvens fecharam o céu, uma grossa chuva despencou e todos correram para se proteger. Foi uma tempestade daquelas.

Ao fim de cinco dias e cinco noites, o lago estava de volta.

Ainda hoje, nas pescarias, alguém de vez em quando comenta:

— Aqui costumava existir um campinho.

***

Moral: nada é definitivo, ainda bem: toda mudança tem um lado bom.

fábula #32

outubro 18th, 2011 § Deixe um comentário

O grande ilusionista

m.n.f. / 2011

Há muito tempo viveu um ilusionista que, embora tenha sido um dos maiores, era do tamanho de um coelho; mesmo porque, era o próprio ilusionista um coelho. Seu talento provinha de um dom natural: ele era um coelho, e coelhos entendem de mágica.

Em seu número mais popular o ajudante costumava entrar no palco e exibir ao público uma cartola vazia; a cartola era posta sobre uma mesa e sem qualquer explicação o ilusionista materializava-se dentro dela. Todos ficavam boquiabertos.

— Óóóóó… – exclamava a plateia.
— Bravo, bravíssimo! – regozijava o regozijador.

Esse no entanto não era o truque mais curioso.

A maior ilusão ali era tão engenhosa que ninguém se dava conta: consistia em fazer com que acreditassem que mágico era o ajudante com a cartola; e não o coelho.

***

Moral: nem tudo é o que parece; às vezes, o mágico é o coelho.

fábula #31

setembro 29th, 2011 § Deixe um comentário

O jarro, a planta, a queda

m.n.f. / 2011

A planta saiu da terra para viver no jarro. O jarro era de barro, que um dia foi terra. A terra, por sua vez, era um passado distante.

— Que saudades de quando eu vivia na terra! – dizia a planta.
— Que saudades de quando eu ainda era terra! – lembrava o jarro.

Um dia a queda decidiu aparecer e convidou para um passeio.

— Vocês querem vir comigo?

O jarro e a planta se entreolharam e disseram que “sim”, sem entender a gravidade da situação. E por falar em gravidade…

Era uma manhã de inverno, mas foram quinze andares de queda outonal.
O jarrou espatifou-se na cabeça de uma velhinha, que também se espatifou.
Com o impacto, a planta foi arremessada para longe.

— Enfim, livre… – foram suas últimas palavras, antes de ser atropelada por uma bicicleta.

***

Moral: não tome decisões sérias por impulso, isso pode terminar mal.

causo #07

setembro 27th, 2011 § Deixe um comentário

Uma história argentina

m.n.f. / 2011

Um dia um amigo que é argentino veio tirar dúvida.

— O que quer dizer “Quelme”?
— É o quê, hômi?!
— Isso! El Quelme! Por que falam sempre isso pra mim?!

 

causo #06

setembro 27th, 2011 § Deixe um comentário

Uma história possibilista

m.n.f. / 2011

Caminhava no centro quando um homem cego cruzou a calçada. Havia um detalhe: ele usava óculos de grau ao invés dos tradicionais óculos escuros.

Algumas razões possíveis para os óculos do cego não serem escuros.

· Não era um cego, mas um homem abrindo espaço na multidão com a muleta.
· Havia ficado cego naquele instante, e adquirir uma muleta era mais emergencial que óculos de sol.
· Tinha um péssimo oftalmologista, que receitou-lhe óculos para miopia.
· Não poderia saber se os óculos eram escuros e um vendedor tirou proveito disso.

A última hipótese foi a mais aceita.

causo #05

setembro 22nd, 2011 § Deixe um comentário

Uma história de business

m.n.f. / 2011

Aconteceu comigo e dois amigos quando decidimos abrir uma loja.

Encontramos um ponto que parecia ideal, eram salas comerciais conjugadas. Para ter uma base do valor do aluguel, decidimos perguntar em uma das lojas. O mais capaz entrou enquanto eu e o outro esperamos do lado de fora.

Não deu nem um minuto e ele volta, meio desconfiado.

— E aí, perguntou?
— Perguntei… – ele disse.
— E aí, quanto é o aluguel do ponto?
— Dois reais – falou.

Era uma lan-house.

fábula #30

setembro 21st, 2011 § Deixe um comentário

O rato

m.n.f. / 2011

A versão inventada dessa história conta que ele foi levado ao céu por um anjo. Mas, na realidade, o camundongo foi levado ao céu por uma águia caçadora e as suas últimas palavras foram “que linda vista, ai, ai, como dói”.

Um enterro simbólico foi realizado e, ao invés de estar ali o camundongo, havia somente uma caixa de fósforos vazia. Todos ficaram comovidos quando o Castor leu a eulogia. Arremessaram flores, choraram, despediram-se do amigo.

De repente, um som estridente rasgou o céu. Era a águia.

O mais curioso, era ver o próprio camundongo montado às costas da águia e apontando onde todos se escondiam.

***

Moral: tem gente capaz de qualquer coisa pra salvar a própria pele.

fábula #29

setembro 21st, 2011 § Deixe um comentário

Deus e a Pulga

m.n.f. / 2011

Para qualquer pulga, o elefante era grande como a própria terra. Elas levavam as suas vidas sem se dar conta de onde estavam.

Certa vez, um grupo de pulgas fez uma expedição à tromba. Quando um alpinista escala o Everest, as avalanches são uma preocupação real. No caso dessas pulgas, o risco era outro: um espirro. Foi exatamente o que aconteceu quando o elefante sentiu um leve comichão nas narinas.

Das sessenta exploradoras, apenas uma permaneceu.

— Hum… o que temos aqui? – disse o elefante, aproximando a tromba dos olhos.

Para a pulga, era como encarar o inimaginável. Tremia-se toda.

— Você existe mesmo.

***

Moral: cada um acredita no que quiser, a pulga acredita no elefante.

fábula #28

setembro 20th, 2011 § Deixe um comentário

Os pombos e o pipoqueiro

m.n.f. / 2011

Na praça havia banquinhos, passantes, crianças, casais de namorados e velhinhos; e esses já eram motivos de sobra para existir também um pipoqueiro. A razão dos pombos frequentarem a praça era somente uma: pombos adoram praças.

— Poc… poc, poc, poc – anunciava a pipoca.
— Eu quero pipoca – pedia o menino.

Nos dias em que o comércio não ia bem, o pipoqueiro criava um espetáculo particular. Arremessava o milho excedente na praça e logo os pombos cercavam-no como um ciclone.

Certa vez, uma vendedora de balas aproximou-se do homem e perguntou porque ele não guardava as pipocas restantes para usar no dia seguinte.

E o pipoqueiro, entretido que só ele, disse:

— De que adiantaria trabalhar, se não me sobrasse tempo aos pombos?

***

Moral: Não viva para trabalhar, trabalhe para viver.

causo #04

setembro 19th, 2011 § Deixe um comentário

Uma história de amor

m.n.f. / 2011

Um amigo e uma amiga estavam organizado os papéis do casamento e esta história aconteceu com eles dois. É um excelente caso de quando uma coisa errada pode ser dita na hora certa.

A juíza queria saber se haveria ou não junção de bens.

— Qual vai ser o regime? – perguntou.

E o noivo, sem entender a pergunta.

— Semi-aberto.

fábula #27

setembro 19th, 2011 § Deixe um comentário

A vida do Senhor Coelho

m.n.f. / 2011

Há muito tempo viveu um coelho que tinha cabeça de homem e corpo de homem, mas era ainda assim um coelho.

Por causa da aparência o coelho era frequentemente confundido com um homem. Cresceu, trabalhou, casou, teve noventa e três filhos, envelheceu.

Numa bonita manhã de verão o coelho reuniu-se com sua família num parque. Esposa, filhos, netos e bisnetos, todos ficaram sem entender quando o Senhor Coelho saltitou pelo gramado, acenou contente e desapareceu sob a terra.

***

Moral: não espere a vida inteira passar para você ser quem você é; faça hoje.

fábula #26

setembro 16th, 2011 § Deixe um comentário

O grande lhama

m.n.f. / 2011


Acredita-se que as lhamas tenham origem numa antiga linhagem de cabras, que optaram à reencarnação a fim de esclarecer a humanidade. Numa tradução aproximada, lhama significa bééé; isto é, “aquele que tudo vê, do alto de uma montanha pedegrosa, onde encontra os melhores capins”.

Era uma vez um homem que subiu a mais alta montanha para conversar com a mais sábia das lhamas.

— Ó, grande lhama, diga-me: qual o sentido da vida? – perguntou o homem.
— Bé – respondeu o grande lhama.

O homem refletiu durante sete dias e sete noites.

— Sou um homem simples, incapaz de decifrar tamanha sapiência – confessou.

O grande lhama, lançando ao homem um olhar enigmático, mascou um montinho de capim.

— O sinal que eu precisava, capim! – vibrou o homem.

O homem passou a seguir o lhama e a reproduzir os seus hábitos. Caminhava devagar, fitava o infinito, contemplava o vazio. Com um jeito abnegado, alimentava-se somente de mato; as plantas mais espinhosas encarava como uma prova de fé.

Na medida em que os anos passavam, o homem transformava-se em pura essência: de tão magro e faminto pouco lhe restava do corpo, de modo que já era praticamente só espírito.

— A verdade… encontrei… é isso! –  disse o homem, quebrando o voto de silêncio.
— Bé? – respondeu o lhama.
— O sentido da vida é um bom prato de feijoada – afirmou, convicto.

***

Moral: a vida é uma só; não perca tempo tentando encontrar um sentido.

fábula #25

setembro 14th, 2011 § Deixe um comentário

A zebra cortês
(a pobrezinha)

m.n.f. / 2011

As zebras, ao contrário dos leões, não comem carne vermelha. Os leões, por sua vez, adoram carne de zebra. O que ninguém jamais imaginaria era que a zebra seria convidada para jantar com a família leão. Era uma vez como foi isso.

No jantar da família leão todos os presentes exibiam um penteado lustroso. A zebra, também finíssima, usava um vistoso vestido listrado; para muitos, a égua mais elegante jamais vista.

— Como você cheira bem – cortejava um leão.
— Obrigada… – agradecia a zebra.

As leoas cercavam a zebra e queriam saber tudo sobre ela, e a zebra, adorando aquela atenção que recebia, a tudo respondia. Já sentada à mesa, a zebra manteve o protocolo até quando deu um coice no leãozinho antecipado que tentou morder-lhe o lombo.

— Júnior, mais respeito com a comida – repreendeu a mãe.
— Desculpem… – disse o leãozinho.
— Espere o jantar ser servido – continuou a mãe.

E o jantar foi servido.

O menu era carpaccio de zebra na entrada, carne de zebra no prato principal e chouriço de zebra na sobremesa. A zebra achou por bem não comer nada, e, mesmo que sentisse fome, dali a alguns instantes não teria mais estômago, esfôfago, boca ou qualquer órgão necessário à apreciação de uma boa gastronomia.

— Passa a bisteca? – pedia o leão.
— Pois claro – respondia cordial a zebra, oferecendo a patinha esquerda.
— Hum, que carne suculenta – elogiava o outro leão, lambendo os lábios.
— Sirva-se, sirva-se… – dizia a zebra, oferecendo a outra pata.

Naquela noite quente de primavera todos encheram a barriga e conversaram animadamente. Ao fim do jantar, os leões fumaram seus charutos, bebericaram marula e falaram sobre coisas amenas, como o futebol e a novela.

***

Moral: se você for uma zebra, evite jantar com leões; as intenções são perigosas.

fábula #24

setembro 13th, 2011 § Deixe um comentário

O gato que voltava

m.n.f. / 2011

“The cat come back: a nigger absurdity”,
música infantil de Harry S. Miller, 1983.

O dono da casa queria porque queria expulsar o gato de lá. Tentou de todas as maneiras e, quando o problema parecia já estar morto e enterrado, o gato simplesmente reaparecia. Era uma vez as inúmeras vezes em que o gato voltou.

Um comerciante viajaria para longe e encarregou-se de deixar gato num lugar distante. Todos festejaram quando os dois partiram para nunca mais voltar; mas, num belo dia, o gato voltou.

Um homem jurou dar sumiço ao gato assim que o visse. Carregou de pregos e dinamite a espingarda e ficou à espreita numa esquina. Todos acreditaram que o gato jamais seria visto outra vez, mas tudo o que viram depois – e recolheram – foram noventa e sete pedaços do homem. No dia seguinte, o gato voltou.

Um menino ganhou um dolar para que levasse a um rio o gato; este com uma pedra de mais ou menos um quilo amarrada ao pescoço. Ainda hoje, as autoridades drenam o rio em busca o menino que se afogou. No dia seguinte, o gato voltou.

Colocaram o gato num balão para que ele fosse abandonado na Lua. Uns cem quilômetros à frente, o balão caiu e ninguém ousa imaginar o que terá acontecido ao baloeiro. No outro dia, o gato voltou.

Um viajante ganhou o gato para que desse a alguém no outro lado do país. Mas o trem em que viajaram atropelou uma vaca, descarrilhou e despencou num barranco. Não sobrou uma só viva alma para contar essa história macabra – somente o gato que, no dia seguinte, voltou.

O gato descansava no quintal quando uma bota militar atingiu-o bem ao pé do ouvido. Como o gato continuava acordado, logo aplicaram-lhe uma tijolada na testa. No dia seguinte, o gato voltou.

Colocaram o gato num navio para que ele fosse jogado no oceano. Já em alto mar, as águas ficaram agitadas e naquela tempestade tudo o que a tripulação pôde fazer foi rezar – o que não adiantou muito, porque o navio afundou e cada alma ali se perdeu; exceto pela do gato, que no dia seguinte voltou.

Um bando de canários amontoava-se nos fios do telégrafo. Como o gato tinha fome, escalou o poste silenciosamente para almoçar um passarinho à passarinha; mas, ao pisar nos cabos, foi eletrocutado e virou carvão. No dia seguinte, o gato voltou.

Já a essa altura o gato tinha uma família com sete filhotes. Veio um ciclone que despedaçou todas as casas da região, e, olhando para o céu, tudo o que se via eram gatinhos a bailar. Nenhum dos filhotes jamais foi visto, mas, no dia seguinte, o gato voltou.

Uma bomba atômica destruiu a Rússia, os Estados Unidos, a China, o Brasil e todas as nações. A raça humana foi extinta sem nem mesmo ter a chance de dizer adeus. Quanto ao gato, no dia seguinte, ele voltou.

***

Moral: não é que um gato tenha sete vidas ou até mais, o que ele tem é persistência; aprenda com ele, não desista.

Ouvir

causo #03

setembro 9th, 2011 § Deixe um comentário

Uma história mística

m.n.f. / 2011

O caso ocorreu comigo mesmo em Pirpirituba, na Paraíba. Foi como uma dessas experiências carregadas de significado, salvo que não me fez sentido algum.

Caminhávamos numa estrada de barro quando na outra direção veio um velho a cavalo. Ele parou ao lado, encarou e depois abriu um sorriso.

— Bom dia − cumprimentou.
— Bom dia − respondi.

O velho retirou alguma coisa do bolso da camisa e ergueu ao sol, era uma folha. E disse:

— Folha de laranjeira é melhor que celular. Não faz ligação, mas dá sinal.

E aí, sem mais nem menos, o velho partiu. Foram embora ele, o cavalo, a folha e a lógica.

causo #02

setembro 9th, 2011 § Deixe um comentário

Uma história sobrenatural

m.n.f. / 2011

José é amigo de um amigo e contou um caso que aconteceu com a faxineira dele. É uma dessas histórias de fantasma que todo mundo gosta de ouvir, mesmo quem não acredita nisso.

Eis que chegando em casa José encontrou tudo impecavelmente arrumado; exceto pelo aparelho de som, que estava destruído. A faxineira, sentada no sofá e agarrada à Bíblia, só depois de beber água com açúcar explicou tudo.

— Eu limpei tudo direitinho, Seu José. Mas quando olhei pro som o diabo tava dentro dele. O nome do Demo não parava de acender, ficava piscando e chamando, o Demo. Aí que eu peguei uma faca e quebrei aquilo. Agora sua casa tá bem.

Essa é uma história real, acreditem ou não.

fábula #23

setembro 9th, 2011 § Deixe um comentário

A bactéria esperta

m.n.f. / 2011

Era uma vez, contra todas as possibilidades, o nosso parente mais remoto e do qual somos todos descendentes, dos presidentes aos cachorros de rua, a bactéria.

De tão minúscula não dava nem mesmo para ser vista. Imaginemos, portanto, uma vozinha miúda saindo de uma gota d’água.

— Quando crescer, eu quero ser um mamute – dizia a bactéria
— O que é um mamute? – perguntava a rocha vulcânica.
— Não sei, porque ainda não existem mamutes… – concluía a bactéria.

Em outros momentos, chegava mesmo a visualizar o que viria a ser.

— Hoje eu sonhei com uma árvore… – contava a bactéria
— É uma montanha nova? – tentava entender, a rocha.
— Mais ou menos, é mais estreita – dizia a bactéria

O tempo passava e o corpo da bactéria se adaptava e mudava.

— A isso que eu uso para nadar darei o nome de nadadeiras! – vibrava a bactéria.

Eis que a bactérica nunca parou de se transformar. Virou peixe, dinossauro, galinha, sabiá, capim, árvore, macaco e gente. Quanto à rocha, essa não mudou tanto; sempre vulcânica, sempre no mesmo lugar.

Quase quatro milhões de anos depois, um alpinista fincou uma bandeira naquele mesmo lugar onde antes morava a bactéria.

— Você me parece familiar… – a rocha vulcânica comentou.
— Impossível, nunca alguém esteve aqui antes de mim! – respondeu o alpinista.

***

Moral: você pode ser o que quiser, mas não esqueça que não será o primeiro nem o último a ser qualquer coisa.

causo #01

setembro 7th, 2011 § Deixe um comentário

Uma história de guerra

m.n.f. / 2011

Aconteceu na II Guerra com Seu Ramalho; avô de um amigo e herói da única batalha em solo brasileiro naquele conflito.

Natal havia se transformado na cidade porta-aviões de onde os americanos partiam para a Europa. A inteligência americana, por sua vez, suspeitava que um submarino nazista aportaria na praia.

Numa noite, Seu Ramalho ocupava o posto de sentinela no Forte dos Reis Magos quando o farfalhar dos arbustos denunciou a aproximação do inimigo; já a poucos metros da fortaleza.

— Alto lá! – gritou, apontando a metralhadora.

O inimigo não se rendeu.

Iniciou-se ali uma ofensiva brutal do soldado. As balas rasgando a noite, os galhos a trincar, a explosão de uma granada, o horror da guerra, o cessar fogo.

Um destacamento partiu em direção ao matagal para recolher a tropa nazista aniquilada. E tudo o que encontraram, a estribuchar no chão, foi um jumento fatalmente ferido – de certo, um jumento fascista.

Essa é uma história real, em memória de Seu Ramalho e esses bravos homens.

fábula #22

setembro 2nd, 2011 § Deixe um comentário

O boi que virou peixe

m.n.f. / 2011

Teorias são tentativas de explicar qualquer coisa, geralmente coisas difíceis de entender. Era uma vez uma teoria criada por uma dessas coisas difíceis de entender, o peixe-boi.

Quando o peixe-boi ainda era um boi, ele pensava em algumas questões fundamentais. De onde viemos? Para onde vamos? Por que alguns membros do rebanho simplesmente desaparecem? E por que cargas d’água sempre ao atingir determinado peso e estatura? Desenvolvendo, assim, a Teoria do Matadouro.

— No matadouro nos abatem e fazem bife com a nossa carne – explicou o boi.
— Matadouros não existem – duvidou o outro.

Não demorou e o amigo foi servido numa churrascaria. Nos instantes finais, duas coisas passaram pela sua cabeça: pânico, e um porrete.

— O matadouro é uma conspiração – supunha o boi teórico.
— O que é conspiração? – perguntavam.
— São pessoas juntas a tramar algo – explicava o boi.

Em vez de virar churrasco, o boi achou mais prudente virar peixe; e assim passou a pastar em segurança no leito do rio. O que ainda não dá para entender foi como exatamente o boi se fez peixe-boi; ou, pelo menos, até criarem uma teoria que explique isso.

Moral da história: esperto é o boi que não vai com o rebanho; coma mais salada, menos carne e não patrocine matadouros.

***

fábula #21

agosto 31st, 2011 § Deixe um comentário

O gato pianista

m.n.f. / 2011

Kätzchen Schnurren, encontrado a sete de julho de 1777 em uma caixa de sapatos em Viena, foi um prolífico e influente compositor do período clássico. Adotado pela tradicional família Essenfelder, ainda aos três meses de idade compôs a sua primeira sinfonia: Die Maus läuft weg (“rato em fuga”), ópera acidental de quando Kätzschen, em caça, saltara sobre o piano. Mas foi somente meses mais tarde, com a alegre sonata Tanz der Schnurrhaare (“dança dos bigodes”), que o prodigioso talento veio a ser revelado.

Não tardou para que o gênio de Kätzchen o levasse a trilhar novos caminhos. Dos monótonos recitais familiares, passou a apresentar-se nos bordéis da zona boêmia em troca de peixe. Tal período é atribuído ao desenvolvimento de sua apurada linguagem e conteúdo musical, descrito pelo renomado crítico Alergicchen Spirruss como “um sopro de vida mesmo nos que sofrem de rinite alérgica”.

Autor de mais de 400 obras, em meados de 1780 Kätzchen fundou a Filarmônica de Viena e dela tornou-se regente, o que lhe traria prestígio e fama por toda a Europa; mas que, no ano seguinte, entraria em conflito com o temperamento de natureza indomável do artista.

Em março de 1781, na coroação de José II, Kätzchen teve a sua mais controversa apresentação. Executava o segundo movimento do concerto para piano N.42, Sonett von gespickt (“soneca de pelos eriçados”), quando, fascinado pelo farfalhar do vestido da Madame Gordelle, herdeira do imperador Optetilus Carnudus III, saltou felino sobre a plateia. A corte e as dinastias, os convidados e os servos, exceto pela orquestra já habituada às excentricidades do maestro, todos entraram em pânico ante a imagem da dama a desvencilhar de seu corpo o grande Kätzchen Schnurren.

— Detenham-no, detenham-no! Há um gato no palácio! Como isso pôde acontecer? – alguém ainda gritou, antes de Kätzchen fugir pelo portão.

Moral da história: seja você mesmo; mais vale o que você quer para si do que o que esperam de você.

***

fábula #20

agosto 30th, 2011 § Deixe um comentário

Tatu-bola

m.n.f. / 2011

Era uma vez uma bola que, quando não era bola, era tatu.

De tão tímidos, os tatus tinham vergonha até da própria timidez. Bastava alguém se aproximar e o tatu logo fugia para a sua toca. Já o tatu-bola, esse não tinha toca; e o jeito era fechar-se em si mesmo.

— Toc toc − alguém batia à bola.
— Não estou − respondia o tatu-bola.

Tal comportamento fazia dele um solitário. Não havia amigos com quem pudesse conversar, dias que pudesse compartilhar, ou mesmo um mundo maior que o casco ao redor.

Um dia o tatu-bola acordou com um senhor torcicolo.
E um bem-te-vi, vendo o tatu de longe, voou até ele.

— Bem te vi! Bem te vi! − cumprimentou o bem-te-vi.
— Ai, ai, ai, dormi de mal jeito e não consigo me fechar… − resmungava o tatu.
— Você é o tatu bola, não é? − observou o bem-te-vi.
— Sou eu… − respondeu tímido o tatu.
— Eu sou o bem-te-vi − disse o bem-te-vi.
— Logo eu vi − brincou o tatu, abrindo uma gargalhada.

Ao longo de todo aquele dia o tatu não se fechou. Os dois conversaram animados até que a noite chegou, e o tatu, finalmente, recolheu-se em seu sono de bola.

Na manhã seguinte, o tatu já não sentia mais torcicolo quando o bem-te-vi voltou.

— Bem te vi, bem te vi! − cumprimentou o bem-te-vi.
— Não estou − respondeu o tatu, fechando-se em si mesmo.
— Bem te vi, mas não vejo mais − disse, partindo para nunca mais voltar.

Moral da história: pessoas fechadas demais podem ficar sozinhas demais; abra-se mais vezes, evite o torcicolo.

***

fábula #19

agosto 30th, 2011 § Deixe um comentário

A coruja e o escuro

m.n.f. / 2011

Era uma vez uma coruja no escuro.

Da mesma maneira que morcegos não suportam ver sangue e ficaram cegos de tanto fechar os olhos para se alimentar, as corujas não conseguem dormir à noite porque têm medo do escuro; permanecem em alerta, os olhos arregalados à espreita de qualquer coisa.

— Eu é que não vou dormir nesse breu! – dizia a coruja.
— Eu sou o escuro e só vou dormir quando amanhecer – uivava o escuro.

O escuro não teme nada, mas todos têm ou já tiveram medo do escuro. Quase ninguém jamais o viu realmente porque, nele, não dá para enxergar. A coruja, de tanto medo, aprendeu a ver o escuro.

— Então é assim que você é? – perguntou a coruja.
— Sim, eu sou o que você vê – respondeu o escuro.
— Você não é tão feio como eu pensava – concluiu a coruja.

O escuro contava coisas estranhas à coruja. Histórias sobre fantasmas, árvores rangendo à meia noite, uivos sombrios de forças sobrenaturais. A coruja, de tanto medo, aprendeu a assustar também.

— Que som esquisito foi esse? – perguntou o escuro, estremecido.
— Não tenha medo, sou eu cantando música experimental – esclareceu a coruja.

O escuro era um misterioso e tudo o que parecia ser, não era. A coruja, de tanto medo, aprendeu a desvendar o escuro.

— Que criatura é essa a vagar pela noite? – perguntou a coruja.
— Este é um temido roedor, o ratinho – respondeu o escuro.
— Ótimo, porque ainda não jantei hoje! – disse a coruja, comendo o rato.

A coruja nunca perdeu o medo do escuro. Mas, de tanto medo, passou a viver nele e a gostar dele.

Moral da história: não tema o que você não conhece; se for pra ter medo, ao menos saiba do que se trata.

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