Fábula #37

dezembro 15, 2014 § Deixe um comentário

 O barril e a pólvora

m.n.f. / 2014

Sejam fortes para o que vou lhes contar, mas os únicos registros dessa história foram destruídos em uma grande explosão. Era uma vez, e isso ninguém pode garantir), na Dinastia Bum da Antiga China, o Barril e a Pólvora.

Barril era feito de carvalho. Pólvora, de farelos de trovão. Ainda que não tivessem nada a ver um com o outro, eles se deram estranhamente bem.

Quando saía para rolar ladeiras com os outros barris, Barril e Pólvora eram o centro das atenções.

— O que você leva aí? — perguntavam Barril e Água.
— Pólvora — respondiam o Barril e Pólvora.
— Uau! — exclamavam em coro os outros barris.
— Já descemos a ladeira, agora parem de girar! — alertavam o Barril e Vinho.

Como lhes foi dito, os registros dessa história foram perdidos em uma grande explosão. Caso contrário, teríamos mais detalhes de quando numa certa noite o Imperador Bum em pessoa acordou com o seu nome proclamado num estrondo. E não só ele, como todos no Oriente saíram das suas casas para ver Barril e Pólvora dançando nos céus da China.

Moral: os opostos se atraem, e, às vezes, se explodem.

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diário #05

dezembro 15, 2014 § Deixe um comentário

Mendigata

m.n.f. / 2014

ana-hickmann-bunker

>> Acabo de ler no blog da Anna Hickmann:
“A ex-modelo must de olhos verdes viciada em pedra comoveu o brazil, ao mostrar que pessoas comuns, e não apenas noiados, podem sucumbir ao horror das drogas. Finalmente, a história terminou bem, porque my BFF Rodrigo Faro, que faz o bem sem olhar a quem, sem pensar em audiência nem dinheiro, colocou a gatíssima e magérrima no lugar onde ela merece, que é na televisão.” (Anna Hickmann)

>> Vi na TV Senado:
“Já tramita no congresso a Lei Anna Hickmann, que obriga a inclusão de noias pretos e feios em programas de entretenimento.” (Cristovam Buarque)

>> Celebridades reagem no twitter, mas desconfia-se de jogada publicitária:
‪#‎SomosTodosNoiados‬

>> Globo lança nova vinheta do Criança Esperança:
“Estação da Luz. Jovem em situação de rua indaga: no céu tem pedra?”

diário #04

dezembro 15, 2014 § Deixe um comentário

Buchada

m. n. f. / 2014

RostoBunker

Um amigo meu que é gaúcho disse que sabe fazer churrasco. Nunca entendi qual é a grande habilidade que existe nisso, porque colocar carne no fogo é uma coisa que a gente faz desde as cavernas… é como fritar um ovo. Talento que me impressiona é o do sertanejo, que costura dentro do estômago de um bicho as vísceras dele, coloca pra ferver e depois reconhece: “eu faço uma buchada que não fede”.

diário #03

dezembro 15, 2014 § Deixe um comentário

Separamento

m. n. f. / 2014

natalrnbunker

Carta que acabo de receber de um movimento separatista em Natal.

(Abrem aspas)

Convido dois ou três amigos interessados em separar Natal do Continente.
Cavaremos uma vala à nossa fronteira, zarparemos da América de manhã cedo, flutuaremos pelos oceanos à maneira das calotas polares.
Seguiremos o rastro das baleias cachalote, das aves migratórias e das equipes da National Geographic ou do Wild On.
Nossa embarcação sem âncora não terá língua própria, nem cultura própria, nem nada que seja próprio.
Acostaremos em Cabo Verde, Ilha de Páscoa, Mozambique e Madagascar – ilhá, ilhá do amor. Com alguma sorte, chegaremos a Ásia surfando num tsunami.
Nossa moeda serão tampinhas de Heineken e, a nossa bandeira, qualquer peça de roupa que esteja para lavar.
Fundaremos um não-país e uma não-raça, fadada a ser extinta, como qualquer outra.

(Fecham aspas)

Isaac Newton

diário #02

dezembro 15, 2014 § Deixe um comentário

Um bom restaurante

m. n. f. / 2014

piano-bar-bunker

Na noite de ontem saímos pra jantar no restaurante que Duarte nos indicou. Era um lugar sofisticado, e de tão sofisticado havia um pianista tocando liquid jazz com apenas uma mão, visto que, como observei, não possuía a outra. De entrada, nos serviram pão molhado de quarenta reais; o que não tirou o nosso apetite de todo, e, portanto, pedimos o prato principal. Simpatizamos com um miojo de noventa reais; para acompanhar, harmonizamos com o vinho mais barato da casa, um cabernet sauvignon de oitenta reais; como o sommelier nos explicou, era a junção de duas excelentes uvas, a cabernet e a sauvignon. Muito felizes, aprendemos um pouco sobre bom vinho barato e ouvimos meia hora de meio piano antes de chegar o prato, o miojo, que comemos em seis minutos. Como continuávamos com fome, concluímos que seria mais vantajoso comer vinho ao invés de miojo e beber miojo ao invés de vinho; de maneira que pedimos mais dois pratos de vinho e uma garrafa de miojo. O último pedido foi, naturalmente, a conta. Ficamos muito contentes ao descobrir que foi calculada pelo Nobel de Matemática de 1996, mas também um pouco tristonhos quando percebemos que aquele velhinho simpático usava muitos zeros. Agradeci ao pianista por ele ter só um braço, já que não poderia imaginar quanto seria o couvert artístico caso ele ainda tivesse os dois. O pianista, ao que parece se sentiu ofendido, porque continuou a tocar com os pés e, com seu único braço, nos espancou violentamente. O segurança, um sujeito bastante apto fisicamente, e inteligente ao seu modo, interviu: e nos bateu também. Decidimos pagar a conta pacificamente e voltamos para casa a pé, porque ficaram com o nosso Uno.

diário #01

dezembro 15, 2014 § Deixe um comentário

Deixe

m.n.f. / 2014

Larguei o cigarro e o iphone.
Parando de fumar ganhei mais tempo.
Deixando o celular passei a usar melhor o tempo.

Há mais de dez anos, deixei a tv-tv.
Há sete, comecei a correr.
Há quatro, vendi o carro.
Há dois, comecei a correr a sério.
(correr todos os dias é abrir mão de algumas coisas).

Também já larguei São Paulo, Recife, Natal, Africa.
De vez em quando, existe uma recaída,
e volto para algum desses lugares, com excessão de Africa.

Primeiro crescemos acumulando coisas.
Depois crescemos nos desfazendo delas.

Tolstoi, já velho, se desfez de tudo.
Almejava uma vida simples e destituída.
Morreu mendigo, mas aparentemente feliz.

Uma mala pesada é inútil, atrapalha a viagem.
É recomendável uma mochila nas costas.
Pra mim, também um Niquitim 21mg colado.

Ambientalistas

outubro 18, 2013 § Deixe um comentário

Além invadir laboratórios, acabar com seu fois groiss e fazer você sentir-se mal ao demorar no banho, como ambientalista e membro da Frente de Libertação dos Ratitos (FLR), defendo o livre consumo de cigarro em ambientes fechados; inclusive o feito por crianças, gestantes e doentes terminais nos corredores de hospitais. O cigarro é a mais eficaz invenção prol-ecologia, de acordo com a OMS, já que elimina a origem de todos os problemas, cortando o mal pela raiz, esteja ela no pulmão, na garganta ou no miocárdio. Ademais, outros métodos, como o Napalm, se mostraram invasivos demais para o planeta: a cada cinquenta soldados mortos, um hectare de mata virgem era devastado. Ou como diria Trinity, em Matrix, que conseguia ser profunda e potranca ao mesmo tempo: “o homem é o câncer do mundo”.

Aos companheiros de mesa FLR – Frente de Libertação dos Ratitos,
e com um abraço fraterno,

Marcio N.

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