Obrigado, Charlie

janeiro 9, 2015 § Deixe um comentário

JesuisQueridoBunkerMarcioNazianzeno

Os tiros na redação da revista me ajudou lembrar o papel de quem escreve.

Quando se evita o desconforto que escrever pode causar, somos tudo, menos escritores. Fazer algo seriamente envolve tensão e, por mais que você evite, o choque sempre vai existir. Li hoje sobre um mágico que foi decapitado porque ele entretinha sua plateia. Ou, no Brasil, hordas que cometem linchamentos aleatórios porque se consideram justiceiros. Quando se lida com pessoas, você está exposto a tudo, justamente porque algumas dessas pessoas são completamente malucas. Escreva portanto o que acredita, porque, haja o que houver, você ao menos não terá se enganado.

Se você quer ser um homem de família, um empresário bem sucedido, um político ou um bom vizinho, não escreva. Seja médico legista, é mais agradável. Escrever é expor seu lado antissocial e esquisito, faz de você alguém próximo do leitor e afastado do resto.

O escritor em seu texto é um tipo mal educado. Não é papel dele pedir licença ou se desculpar. Ele é pago para dizer e o que está dito, está dito. Os tapinhas nas costas são inimigos e escrever é falar o que não deve sem ser interrompido.

Mesmo escrevendo só ocasionalmente, já posso tocar no assunto: fiz coisas inúteis, coisas que acho boas e outras mais ofensivas. As inúteis são uma boa distração e por isso servem de alguma coisa. As interessantes atraem pessoas boas, mas também os canalhas. As ofensivas funcionam como um filtro que afasta os cretinos e mantém os bons.

Jornalistas que brilham na ascensão fascista e conservadora do Brasil sofrem ameaças de morte o tempo todo. Alguns deles, na ocasião do que ocorreu em Paris, se compararam aos chargistas franceses e viraram piada também por isso.

Meus amigos de esquerda acham que os jornalistas do outro lado não defendem causas boas. Mas a melhor causa é sempre a própria causa e por isso ser juiz do pensamento do outro é a origem de, se não de todo o mau, de boa parte deles.

Uns vêem suas tripas traçando parábolas no ar por causa de malucos religiosos. Outros são xingados na rua por causa de uma camiseta. Tem jihadista de todo tipo, causa e religião e todos eles tem absoluta certeza de que estão certos. O mais certo é não ter certeza de nada.

Uma coisa que fiz: dormi num acampamento no deserto do Sahara. No deserto, eu bebi uísque e fumei com meu guia. Ele era islâmico. Em uma rua de São Paulo, precisei ficar calado para o meu sotaque não me denunciar estrangeiro a paulistanos bêbados. Há intolerância em toda parte, mas não em todas as pessoas.

O escritor se expõe quando escreve e esse afinal é o seu trabalho. Quando atacaram a revista francesa fiquei assustado e depois estranhamente aliviado. Eu vi que não há do que ter medo num mundo onde não se tem controle sobre nada.

O que um escritor escreve é a cretinice dele. O que os cretinos fazem é a obra deles.
Abraço fraterno,
Márcio N.

Fábula #38

dezembro 25, 2014 § Deixe um comentário

O duende teimoso
m.n.f. / 2014

Era uma vez um duende que tinha uma boa estatura, orelhas ovais e  uma voz que, exceto quando pega um resfriado, não parecia em nada a voz de um desenho animado: tinha a aparência do mais comum dos homens. Ainda assim, há nessa estória um duende e isso é um bom começo.

Trabalhava autenticando documentos.

— Bom dia. Em que posso ajudá-lo? — disse o duende.
— Você não está me reconhecendo? — disse um velho.

Com a barba longa e ar profético, o velho lembrava um velho mago.

— Sou eu mesmo, seu professor de matemática do primeiro ano.— completou o velho.
— Ah, há quanto tempo! — disse o duende ligeiramente decepcionado.

Que era um duende, disso nós sabemos e ninguém mais. Até um dia.

Como de hábito, o duende voltava para casa cantarolando uma canção incompreensível de duendes.
Era justamente o que fazia quando, vindo de um beco, uma voz que parecia a de uma perereca sendo estrangulada.

— O hino das três luas da floresta negra!

Ele jamais poderia esquecer aquela voz encantadora.

— Bruxa, o que faz aí? Eu achava que você já tinha morrido. — disse o gnomo.
— Bruxas não morrem! Agora, venha me ajudar a encontrar uma perna de gafanhoto. — disse a bruxa.
— Vai fazer uma sopa? Então acho bom procurar também baratas — concluiu o gnomo.
— Sim, eu sei que você adora, meu rapazinho! — disse a bruxa.

Conversaram bastante tomando uma sopa de perna de gafanhoto e asa de barata.

— Será que estamos velhos? — perguntou a Bruxa.
— Não, o mundo é que está. — disse o Duende.

Moral: sábia é a criança teimosa, que não abre mão do que gosta só porque cresceu.

Direto do Bunker #03

dezembro 17, 2014 § Deixe um comentário

Notícias da última hora. CLAUDIA

  • Clan amplia seu mix, lança próprio cuscuz e é acusada de racismo.
  • Censura: show da dupla infantil Curirica e Sincronheta é cancelado.
  • Divulgada nota oficial de Curirica e Sincronheta: “A gente só quer fazer o que sabe, que é tocar”.
  • Professor Pasquale adverte: cuscuz é com “s” e “z”, mas também vai bem com ovo e salsicha.
  • Vereadores recebem novo aumento: “Com a alta do dólar, Miami ficou caro.”
  • Inventor do timmer nas câmeras fotográficas desabafa: “hoje em dia, as pessoas acham mais fácil andar com um pau.”
  • Físico da UFPE afirma que epicentro do universo está localizado no Recife.
  • Em Santa Catarina, físico encontra epicentro do universo no Rio Grande do Sul.
  • Para físico de Natal, epicentro está ao lado do posto Esso da Roberto Freire e se chama Samantha.
  • Em Ponta Negra, turista festeja: “Não sabia que era tão bonito, parece Cláudia Ohana ao contrário.”
  • Genuinamente brasileiro, arrastão é tombado patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO.
  • Investidor dá dicas de quanto aplicar para ter R$ 1 milhão em 10 anos: R$ 4 milhões.
  • Ex-crente no De Frente com Gabi: “Nunca fume crack. Você pode acabar virando evangélico.”
  • Homem caminha do Alecrim ao Himalaia depois de se perder e pedir informação a um queniano.
  • Executivo pede demissão para ter tempo de administrar suas redes sociais: “i like it”.
  • Vereadores vota pela proibição dos selfies na Câmara: “Somos feios”.
  • Prefeito de Natal defende criação de Hotel na Via Costeira: “Praia é uma invenção dos comunistas para tirar nossa atenção dos shoppings”.
  • 50 tons de bíblia #01: “A tua vara e o meu cajado me consolam.” (salmos 23:4)
  • Em leilão de virgem na internet, expressão “quem dá mais” estaria expressamente proibida.
  • Virgindade de adolescente arrematada por um sorvete, um cinema e uma carona de volta pra casa.
  • Hacker divulga na internet foto de celebridades vestidas.
  • Celebridade que teve fotos divulgadas com roupas da C&A comete seppuko.
  • Julien Assange cria o WikiWhats, o wikileaks dos whatsapp.
  • Câmara dos vereadores ganha novo slogan: “Natal. Mame-a ou deixe-a.”
  • WikiWhats revela conversa entre Pasquale Cipro Neto e Jair Bolsonaro.
  • <Pasquale> não é istrupo, é estupro // <Bolsonaro> importa saber fazer, não falar.
  • WikiWhats seria estopim da terceira grande guerra, aponta Britney Spears.
  • Escritor médium lança livro: “Eu não sabia que isso era tão divertido”, do espírito Chico Xavier.
  • Com fim de embargo, Ronald McDonald luta por cidadania cubana.
  • Populares dizem ter visto ônibus circulando nas ruas de Natal após as 23h.
  • NASA investiga aparição de ônibus: “não se preocupem, era apenas um buraco negro.”
  • 50 tons de bíblia #02: “Deus ama quem dá com alegria.” (2 coríntios 9:7)
  • Em Natal, tenente da Lei Seca detém homem que conduzia sóbrio: “um excêntrico!”
  • OnG distribui lentes de contato nas cores azul e verde para viciados em crack.
  • Ex-modelo viciada vai ao Caldeirão do Huck lançar sua própria grife de cachimbos.
  • Moradores de Petrópolis organizam expedição para descobrir a Zona Norte de Natal.
  • Hilneth Correa desaparece em expedição: “assim que ela saiu do carro, desintegrou.”
  • Programa de assistencialismo para bandas de axé, o Carnatal, é elogiado pelo Papa Francisco.
  • Blogueira de moda dá dicas de como se vestir de Salomão para ir ao Templo de Salomão.

Abraço fraterno,
Márcio N.

diário #07

dezembro 16, 2014 § Deixe um comentário

Humilde relato

m. n. f. / 2014 / recife
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Polícia em greve no Recife. Saques, assaltos, assassinatos, carros pegando fogo. Ainda assim, logo cedo saí para o meu jogging matinal. Na primeira oportunidade entrei no clima e assaltei uma velhinha, que foi mais rápida e me assaltou primeiro. Para dar o troco, eu a estuprei. Ela não deixou barato e me assassinou. Esquartejei a velha, ela então queimou meu corpo e o arremessou no rio. Lutamos mais um pouco e a situação foi apaziguada por um traficante que ali passava. Eu e a velha apertamos as mãos, nos esfaqueamos mais algumas vezes e cada um seguiu seu caminho. Agora a pouco, ao chegar em casa, me deparei com um tubarão fumando crack no portão da garagem; tentando não chamar a atenção do bicho, pulei o meu próprio muro para entrar em segurança. Fui confundido com um gatuno pelo vigia, ele me alvejou com tiros de fuzil e aquela foi a terceira vez em que fui assassinado só na manhã de hoje. Absurdo, esse país em que vivemos.

diário #06

dezembro 16, 2014 § Deixe um comentário

Francisco

m. n. f. / 2014

Francisco. Foto: @buchoterra

Francisco é um homem rico. Para a esquerda de casa tem hectares de Mata Atlântica, preservada a tempo e portanto tombada. Sobrevive da agricultura familiar. Ele, mulher, filhos, irmãos, os bichos. Um peru passa entre as galinhas, sem desconfiar do Natal. O pai é saudável. Aos 92 anos, atravessa o vale para visitar o filho; vem a cavalo, ou a pé. Francisco tem um milharal, além de plantações de banana, abacaxi, a horta e limoeiros desenhando a paisagem. A névoa branca da água das bombas de irrigação doura no sol da tarde. É uma imagem bonita. Celular mal pega, quando pega. Fala da transnordestina que por ali vai passar; não sabe se gosta ou desgosta. No vale passa um riacho. Pergunto se tem jacaré, ele confirma que sim.

Fábula #37

dezembro 15, 2014 § Deixe um comentário

 O barril e a pólvora

m.n.f. / 2014

Sejam fortes para o que vou lhes contar, mas os únicos registros dessa história foram destruídos em uma grande explosão. Era uma vez, e isso ninguém pode garantir), na Dinastia Bum da Antiga China, o Barril e a Pólvora.

Barril era feito de carvalho. Pólvora, de farelos de trovão. Ainda que não tivessem nada a ver um com o outro, eles se deram estranhamente bem.

Quando saía para rolar ladeiras com os outros barris, Barril e Pólvora eram o centro das atenções.

— O que você leva aí? — perguntavam Barril e Água.
— Pólvora — respondiam o Barril e Pólvora.
— Uau! — exclamavam em coro os outros barris.
— Já descemos a ladeira, agora parem de girar! — alertavam o Barril e Vinho.

Como lhes foi dito, os registros dessa história foram perdidos em uma grande explosão. Caso contrário, teríamos mais detalhes de quando numa certa noite o Imperador Bum em pessoa acordou com o seu nome proclamado num estrondo. E não só ele, como todos no Oriente saíram das suas casas para ver Barril e Pólvora dançando nos céus da China.

Moral: os opostos se atraem, e, às vezes, se explodem.

diário #05

dezembro 15, 2014 § Deixe um comentário

Mendigata

m.n.f. / 2014

ana-hickmann-bunker

>> Acabo de ler no blog da Anna Hickmann:
“A ex-modelo must de olhos verdes viciada em pedra comoveu o brazil, ao mostrar que pessoas comuns, e não apenas noiados, podem sucumbir ao horror das drogas. Finalmente, a história terminou bem, porque my BFF Rodrigo Faro, que faz o bem sem olhar a quem, sem pensar em audiência nem dinheiro, colocou a gatíssima e magérrima no lugar onde ela merece, que é na televisão.” (Anna Hickmann)

>> Vi na TV Senado:
“Já tramita no congresso a Lei Anna Hickmann, que obriga a inclusão de noias pretos e feios em programas de entretenimento.” (Cristovam Buarque)

>> Celebridades reagem no twitter, mas desconfia-se de jogada publicitária:
‪#‎SomosTodosNoiados‬

>> Globo lança nova vinheta do Criança Esperança:
“Estação da Luz. Jovem em situação de rua indaga: no céu tem pedra?”

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