Livro, em breve

julho 23, 2012 § Deixe um comentário

Está a caminho um livro, o meu primeiro.
Coloquei aqui algumas informações sobre ele.
Já está na editora, estão cuidando dele, e vai ficar fantástico.

Abraço fraterno,
Márcio N.

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fábula #36

julho 22, 2012 § Deixe um comentário

Mandamentos do Senhor Gato

m.n.f. / 2011-12


Contam de um gato que descera do alto de um monte trazendo em seus dentes farrapos de pano – aparentemente arrancados de um sofá – e de onde se podia ler aos seus mandamentos aos homens.

I
Eu sou o teu SENHOR GATO, jamais terás outras prioridades diante de mim, tu me darás casa da servidão.

II
Não farás para ti imagem de escultura; salvo, claro, a taxidermia nos cães mortos ou vivos; e jamais no SENHOR GATO, pois saberdes de que não há necessidade de empalho naquele que, quando pouco, tem sete ou mais vidas.

III
Não adorarás outro bicho senão mim (exceto, talvez, um peixe em aquários destampados); não te encurvarás a eles nem os servirás; porque eu, o SENHOR GATO, sou matreiro, que visito a indiferença dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam.

IV
E faço negligência a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos.

V
Não tomarás o nome do SENHOR teu Gato em vão; porque o SENHOR GATO não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão; e jamais atenderá ao chamado; abster-se-á em lamber-se nas patinhas.

VI
Lembra-te do dia do sábado, para santificar o SENHOR GATO com comida. E não esquece-te de todos os outros dias da semana, do mês, do ano, da vida.

VII
Sete dias trabalharás, nenhum descansarás, e corrigirás toda a minha obra.

VIII
Porque nos sete dias habitou o SENHOR GATO o alto dos muros e a terra, as casas e tudo o que há nelas , e em cochilos descansou; portanto abençoou o SENHOR GATO o sono descompromissado, e o santificou.

IX
Honra a teu pai e a tua mãe bem como ao teu SENHOR GATO, para que se prolonguem os teus dias na terra.

X
Não matarás ratinhos e passarinhos, pois destes dará conta o teu SENHOR GATO.

XI
Não adulterarás, acariciando um cão ao teu gato. Os cães são mordedores e cheiram mal.

XII
Não dirás falso testemunho contra o SENHOR teu Gato, pois qualquer testemunho teu é falso; pois sou o teu SENHOR GATO e dono da única e verdadeira razão da terra.

XIII
Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo. Cobiçarás somente bife, e o furtarás, para servi-lo ainda quentinho ao teu SENHOR GATO.

XIV
Tenha sempre um gato em casa, pois abençoado é a reino do SENHOR GATO.

E desde então os homens o têm como profeta; veneram-no, o Senhor das suas casas.

fábula #35

novembro 15, 2011 § Deixe um comentário

Formigas

m.n.f. / 2011

Era uma vez uma colônia de formigas que se comportavam como pessoas, ou uma colônia de pessoas que agiam como formigas; tanto faz.

Os pontos se organizavam em filas, amontovavam-se em aglomerações nervosas, moviam-se o tempo inteiro; andavam por baixo da terra em metrôs e outros túneis, sempre de cá pra lá e de lá pra cá. Saíam logo cedo de casa para o trabalho, e só à noite voltavam para dormir. Quando o fim de semana chegava, não sabiam exatamente para onde ir.

Certo dia, dois espécimes caminhavam na calçada. Usavam terno e carregavam cada qual uma maleta.

— Qual é a boa de hoje?
— Hoje vamos nos reunir para devorar um boi.

O outro tinha planos diferentes.

— Já eu, vou para casa reproduzir.
— Maravilha! Com mais de nós, vamos dominar o mundo.

As formigópolis ficavam cada vez mais lotadas e espalhavam-se por todo o globo. Os habitantes de cada colônia consumiam tudo o que lhes fosse possível, até que nada mais restasse.

— O que é aquilo?
— Onde?
— Lá em cima.
— Estranho… parece um pé.

Ploft.

A pisada que esmagou-lhes é lembrada ainda hoje com muito pesar. Que azar, que azar…

***

Moral: ninguém é tão grande ou importante quanto se imagina, e algumas coisas fogem ao controle; o mais seguro é viver em equilíbrio.

fábula #34

novembro 10, 2011 § Deixe um comentário

Dora Dorinha

m.n.f. / 2011

Dora adorava andar e andar era tudo o que Dora fazia; para onde ia, isso nem mesmo ela sabia. Parecia que estava perdida, parecia que tinha perdido o juízo. Quando viu um anjo, ela acreditou que estivesse louca.

— Por que você anda tanto? – indagou o anjo.
— Eu ando porque não sei voar – respondeu.

Ele pensou um pouco e concluiu.

— E eu voo para não ter que carregar essas asas.

Então o anjo arrancou as asas e entregou-as à Dora.

— Qual é o seu nome? – o anjo perguntou.
— O meu nome é Dora, mas pode me chamar de Dorinha.

Era Dora Andarilha. Agora, é Dora Andorinha.

***

Moral: perspectivas existem, sempre; às vezes você apenas não sabe quais são.

revista

outubro 24, 2011 § Deixe um comentário

Revista Preá #24

fábula #33

outubro 18, 2011 § 1 comentário

Lago, buraco e campinho

m.n.f. / 2011

A vila fora construída às margens de um bonito lago; mas parou de chover e o lago secou, de maneira que essa é a história de uma vila à beira de um grande buraco.

— Aqui costumava existir um lago – diziam os mais velhos.
— O que é um lago? – perguntavam os mais novos.

Uma vez o prefeito em pessoa pediu ao homem da previsão do tempo para que anunciasse chuva, mas nem assim ela veio, e o homem foi demitido.

Aos poucos a população conformou-se com o buraco e ele ganhou uma nova finalidade, a saber: o futebol. Os jogos aconteciam no fundo e  as pessoas reuniam-se em volta para assistir, havia torneios e até um pipoqueiro.

Era final de campeonato, o time da casa perdia de um a zero quando o centroavante empatou. Todos pensaram que fazia parte da comemoração os raios, relâmpagos e trovões que sucederam o gol. As nuvens fecharam o céu, uma grossa chuva despencou e todos correram para se proteger. Foi uma tempestade daquelas.

Ao fim de cinco dias e cinco noites, o lago estava de volta.

Ainda hoje, nas pescarias, alguém de vez em quando comenta:

— Aqui costumava existir um campinho.

***

Moral: nada é definitivo, ainda bem: toda mudança tem um lado bom.

fábula #32

outubro 18, 2011 § Deixe um comentário

O grande ilusionista

m.n.f. / 2011

Há muito tempo viveu um ilusionista que, embora tenha sido um dos maiores, era do tamanho de um coelho; mesmo porque, era o próprio ilusionista um coelho. Seu talento provinha de um dom natural: ele era um coelho, e coelhos entendem de mágica.

Em seu número mais popular o ajudante costumava entrar no palco e exibir ao público uma cartola vazia; a cartola era posta sobre uma mesa e sem qualquer explicação o ilusionista materializava-se dentro dela. Todos ficavam boquiabertos.

— Óóóóó… – exclamava a plateia.
— Bravo, bravíssimo! – regozijava o regozijador.

Esse no entanto não era o truque mais curioso.

A maior ilusão ali era tão engenhosa que ninguém se dava conta: consistia em fazer com que acreditassem que mágico era o ajudante com a cartola; e não o coelho.

***

Moral: nem tudo é o que parece; às vezes, o mágico é o coelho.

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