fábula #35

novembro 15, 2011 § Deixe um comentário

Formigas

m.n.f. / 2011

Era uma vez uma colônia de formigas que se comportavam como pessoas, ou uma colônia de pessoas que agiam como formigas; tanto faz.

Os pontos se organizavam em filas, amontovavam-se em aglomerações nervosas, moviam-se o tempo inteiro; andavam por baixo da terra em metrôs e outros túneis, sempre de cá pra lá e de lá pra cá. Saíam logo cedo de casa para o trabalho, e só à noite voltavam para dormir. Quando o fim de semana chegava, não sabiam exatamente para onde ir.

Certo dia, dois espécimes caminhavam na calçada. Usavam terno e carregavam cada qual uma maleta.

— Qual é a boa de hoje?
— Hoje vamos nos reunir para devorar um boi.

O outro tinha planos diferentes.

— Já eu, vou para casa reproduzir.
— Maravilha! Com mais de nós, vamos dominar o mundo.

As formigópolis ficavam cada vez mais lotadas e espalhavam-se por todo o globo. Os habitantes de cada colônia consumiam tudo o que lhes fosse possível, até que nada mais restasse.

— O que é aquilo?
— Onde?
— Lá em cima.
— Estranho… parece um pé.

Ploft.

A pisada que esmagou-lhes é lembrada ainda hoje com muito pesar. Que azar, que azar…

***

Moral: ninguém é tão grande ou importante quanto se imagina, e algumas coisas fogem ao controle; o mais seguro é viver em equilíbrio.

fábula #34

novembro 10, 2011 § Deixe um comentário

Dora Dorinha

m.n.f. / 2011

Dora adorava andar e andar era tudo o que Dora fazia; para onde ia, isso nem mesmo ela sabia. Parecia que estava perdida, parecia que tinha perdido o juízo. Quando viu um anjo, ela acreditou que estivesse louca.

— Por que você anda tanto? – indagou o anjo.
— Eu ando porque não sei voar – respondeu.

Ele pensou um pouco e concluiu.

— E eu voo para não ter que carregar essas asas.

Então o anjo arrancou as asas e entregou-as à Dora.

— Qual é o seu nome? – o anjo perguntou.
— O meu nome é Dora, mas pode me chamar de Dorinha.

Era Dora Andarilha. Agora, é Dora Andorinha.

***

Moral: perspectivas existem, sempre; às vezes você apenas não sabe quais são.

revista

outubro 24, 2011 § Deixe um comentário

Revista Preá #24

fábula #33

outubro 18, 2011 § 1 comentário

Lago, buraco e campinho

m.n.f. / 2011

A vila fora construída às margens de um bonito lago; mas parou de chover e o lago secou, de maneira que essa é a história de uma vila à beira de um grande buraco.

— Aqui costumava existir um lago – diziam os mais velhos.
— O que é um lago? – perguntavam os mais novos.

Uma vez o prefeito em pessoa pediu ao homem da previsão do tempo para que anunciasse chuva, mas nem assim ela veio, e o homem foi demitido.

Aos poucos a população conformou-se com o buraco e ele ganhou uma nova finalidade, a saber: o futebol. Os jogos aconteciam no fundo e  as pessoas reuniam-se em volta para assistir, havia torneios e até um pipoqueiro.

Era final de campeonato, o time da casa perdia de um a zero quando o centroavante empatou. Todos pensaram que fazia parte da comemoração os raios, relâmpagos e trovões que sucederam o gol. As nuvens fecharam o céu, uma grossa chuva despencou e todos correram para se proteger. Foi uma tempestade daquelas.

Ao fim de cinco dias e cinco noites, o lago estava de volta.

Ainda hoje, nas pescarias, alguém de vez em quando comenta:

— Aqui costumava existir um campinho.

***

Moral: nada é definitivo, ainda bem: toda mudança tem um lado bom.

fábula #32

outubro 18, 2011 § Deixe um comentário

O grande ilusionista

m.n.f. / 2011

Há muito tempo viveu um ilusionista que, embora tenha sido um dos maiores, era do tamanho de um coelho; mesmo porque, era o próprio ilusionista um coelho. Seu talento provinha de um dom natural: ele era um coelho, e coelhos entendem de mágica.

Em seu número mais popular o ajudante costumava entrar no palco e exibir ao público uma cartola vazia; a cartola era posta sobre uma mesa e sem qualquer explicação o ilusionista materializava-se dentro dela. Todos ficavam boquiabertos.

— Óóóóó… – exclamava a plateia.
— Bravo, bravíssimo! – regozijava o regozijador.

Esse no entanto não era o truque mais curioso.

A maior ilusão ali era tão engenhosa que ninguém se dava conta: consistia em fazer com que acreditassem que mágico era o ajudante com a cartola; e não o coelho.

***

Moral: nem tudo é o que parece; às vezes, o mágico é o coelho.

fábula #31

setembro 29, 2011 § Deixe um comentário

O jarro, a planta, a queda

m.n.f. / 2011

A planta saiu da terra para viver no jarro. O jarro era de barro, que um dia foi terra. A terra, por sua vez, era um passado distante.

— Que saudades de quando eu vivia na terra! – dizia a planta.
— Que saudades de quando eu ainda era terra! – lembrava o jarro.

Um dia a queda decidiu aparecer e convidou para um passeio.

— Vocês querem vir comigo?

O jarro e a planta se entreolharam e disseram que “sim”, sem entender a gravidade da situação. E por falar em gravidade…

Era uma manhã de inverno, mas foram quinze andares de queda outonal.
O jarrou espatifou-se na cabeça de uma velhinha, que também se espatifou.
Com o impacto, a planta foi arremessada para longe.

— Enfim, livre… – foram suas últimas palavras, antes de ser atropelada por uma bicicleta.

***

Moral: não tome decisões sérias por impulso, isso pode terminar mal.

causo #07

setembro 27, 2011 § Deixe um comentário

Uma história argentina

m.n.f. / 2011

Um dia um amigo que é argentino veio tirar dúvida.

— O que quer dizer “Quelme”?
— É o quê, hômi?!
— Isso! El Quelme! Por que falam sempre isso pra mim?!

 

%d blogueiros gostam disto: