fábula #31

setembro 29, 2011 § Deixe um comentário

O jarro, a planta, a queda

m.n.f. / 2011

A planta saiu da terra para viver no jarro. O jarro era de barro, que um dia foi terra. A terra, por sua vez, era um passado distante.

— Que saudades de quando eu vivia na terra! – dizia a planta.
— Que saudades de quando eu ainda era terra! – lembrava o jarro.

Um dia a queda decidiu aparecer e convidou para um passeio.

— Vocês querem vir comigo?

O jarro e a planta se entreolharam e disseram que “sim”, sem entender a gravidade da situação. E por falar em gravidade…

Era uma manhã de inverno, mas foram quinze andares de queda outonal.
O jarrou espatifou-se na cabeça de uma velhinha, que também se espatifou.
Com o impacto, a planta foi arremessada para longe.

— Enfim, livre… – foram suas últimas palavras, antes de ser atropelada por uma bicicleta.

***

Moral: não tome decisões sérias por impulso, isso pode terminar mal.

Anúncios

causo #07

setembro 27, 2011 § Deixe um comentário

Uma história argentina

m.n.f. / 2011

Um dia um amigo que é argentino veio tirar dúvida.

— O que quer dizer “Quelme”?
— É o quê, hômi?!
— Isso! El Quelme! Por que falam sempre isso pra mim?!

 

causo #06

setembro 27, 2011 § Deixe um comentário

Uma história possibilista

m.n.f. / 2011

Caminhava no centro quando um homem cego cruzou a calçada. Havia um detalhe: ele usava óculos de grau ao invés dos tradicionais óculos escuros.

Algumas razões possíveis para os óculos do cego não serem escuros.

· Não era um cego, mas um homem abrindo espaço na multidão com a muleta.
· Havia ficado cego naquele instante, e adquirir uma muleta era mais emergencial que óculos de sol.
· Tinha um péssimo oftalmologista, que receitou-lhe óculos para miopia.
· Não poderia saber se os óculos eram escuros e um vendedor tirou proveito disso.

A última hipótese foi a mais aceita.

causo #05

setembro 22, 2011 § Deixe um comentário

Uma história de business

m.n.f. / 2011

Aconteceu comigo e dois amigos quando decidimos abrir uma loja.

Encontramos um ponto que parecia ideal, eram salas comerciais conjugadas. Para ter uma base do valor do aluguel, decidimos perguntar em uma das lojas. O mais capaz entrou enquanto eu e o outro esperamos do lado de fora.

Não deu nem um minuto e ele volta, meio desconfiado.

— E aí, perguntou?
— Perguntei… – ele disse.
— E aí, quanto é o aluguel do ponto?
— Dois reais – falou.

Era uma lan-house.

fábula #30

setembro 21, 2011 § Deixe um comentário

O rato

m.n.f. / 2011

A versão inventada dessa história conta que ele foi levado ao céu por um anjo. Mas, na realidade, o camundongo foi levado ao céu por uma águia caçadora e as suas últimas palavras foram “que linda vista, ai, ai, como dói”.

Um enterro simbólico foi realizado e, ao invés de estar ali o camundongo, havia somente uma caixa de fósforos vazia. Todos ficaram comovidos quando o Castor leu a eulogia. Arremessaram flores, choraram, despediram-se do amigo.

De repente, um som estridente rasgou o céu. Era a águia.

O mais curioso, era ver o próprio camundongo montado às costas da águia e apontando onde todos se escondiam.

***

Moral: tem gente capaz de qualquer coisa pra salvar a própria pele.

fábula #29

setembro 21, 2011 § Deixe um comentário

Deus e a Pulga

m.n.f. / 2011

Para qualquer pulga, o elefante era grande como a própria terra. Elas levavam as suas vidas sem se dar conta de onde estavam.

Certa vez, um grupo de pulgas fez uma expedição à tromba. Quando um alpinista escala o Everest, as avalanches são uma preocupação real. No caso dessas pulgas, o risco era outro: um espirro. Foi exatamente o que aconteceu quando o elefante sentiu um leve comichão nas narinas.

Das sessenta exploradoras, apenas uma permaneceu.

— Hum… o que temos aqui? – disse o elefante, aproximando a tromba dos olhos.

Para a pulga, era como encarar o inimaginável. Tremia-se toda.

— Você existe mesmo.

***

Moral: cada um acredita no que quiser, a pulga acredita no elefante.

fábula #28

setembro 20, 2011 § Deixe um comentário

Os pombos e o pipoqueiro

m.n.f. / 2011

Na praça havia banquinhos, passantes, crianças, casais de namorados e velhinhos; e esses já eram motivos de sobra para existir também um pipoqueiro. A razão dos pombos frequentarem a praça era somente uma: pombos adoram praças.

— Poc… poc, poc, poc – anunciava a pipoca.
— Eu quero pipoca – pedia o menino.

Nos dias em que o comércio não ia bem, o pipoqueiro criava um espetáculo particular. Arremessava o milho excedente na praça e logo os pombos cercavam-no como um ciclone.

Certa vez, uma vendedora de balas aproximou-se do homem e perguntou porque ele não guardava as pipocas restantes para usar no dia seguinte.

E o pipoqueiro, entretido que só ele, disse:

— De que adiantaria trabalhar, se não me sobrasse tempo aos pombos?

***

Moral: Não viva para trabalhar, trabalhe para viver.

%d blogueiros gostam disto: