causo #04

setembro 19, 2011 § Deixe um comentário

Uma história de amor

m.n.f. / 2011

Um amigo e uma amiga estavam organizado os papéis do casamento e esta história aconteceu com eles dois. É um excelente caso de quando uma coisa errada pode ser dita na hora certa.

A juíza queria saber se haveria ou não junção de bens.

— Qual vai ser o regime? – perguntou.

E o noivo, sem entender a pergunta.

— Semi-aberto.

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fábula #27

setembro 19, 2011 § Deixe um comentário

A vida do Senhor Coelho

m.n.f. / 2011

Há muito tempo viveu um coelho que tinha cabeça de homem e corpo de homem, mas era ainda assim um coelho.

Por causa da aparência o coelho era frequentemente confundido com um homem. Cresceu, trabalhou, casou, teve noventa e três filhos, envelheceu.

Numa bonita manhã de verão o coelho reuniu-se com sua família num parque. Esposa, filhos, netos e bisnetos, todos ficaram sem entender quando o Senhor Coelho saltitou pelo gramado, acenou contente e desapareceu sob a terra.

***

Moral: não espere a vida inteira passar para você ser quem você é; faça hoje.

fábula #26

setembro 16, 2011 § Deixe um comentário

O grande lhama

m.n.f. / 2011


Acredita-se que as lhamas tenham origem numa antiga linhagem de cabras, que optaram à reencarnação a fim de esclarecer a humanidade. Numa tradução aproximada, lhama significa bééé; isto é, “aquele que tudo vê, do alto de uma montanha pedegrosa, onde encontra os melhores capins”.

Era uma vez um homem que subiu a mais alta montanha para conversar com a mais sábia das lhamas.

— Ó, grande lhama, diga-me: qual o sentido da vida? – perguntou o homem.
— Bé – respondeu o grande lhama.

O homem refletiu durante sete dias e sete noites.

— Sou um homem simples, incapaz de decifrar tamanha sapiência – confessou.

O grande lhama, lançando ao homem um olhar enigmático, mascou um montinho de capim.

— O sinal que eu precisava, capim! – vibrou o homem.

O homem passou a seguir o lhama e a reproduzir os seus hábitos. Caminhava devagar, fitava o infinito, contemplava o vazio. Com um jeito abnegado, alimentava-se somente de mato; as plantas mais espinhosas encarava como uma prova de fé.

Na medida em que os anos passavam, o homem transformava-se em pura essência: de tão magro e faminto pouco lhe restava do corpo, de modo que já era praticamente só espírito.

— A verdade… encontrei… é isso! –  disse o homem, quebrando o voto de silêncio.
— Bé? – respondeu o lhama.
— O sentido da vida é um bom prato de feijoada – afirmou, convicto.

***

Moral: a vida é uma só; não perca tempo tentando encontrar um sentido.

fábula #25

setembro 14, 2011 § Deixe um comentário

A zebra cortês
(a pobrezinha)

m.n.f. / 2011

As zebras, ao contrário dos leões, não comem carne vermelha. Os leões, por sua vez, adoram carne de zebra. O que ninguém jamais imaginaria era que a zebra seria convidada para jantar com a família leão. Era uma vez como foi isso.

No jantar da família leão todos os presentes exibiam um penteado lustroso. A zebra, também finíssima, usava um vistoso vestido listrado; para muitos, a égua mais elegante jamais vista.

— Como você cheira bem – cortejava um leão.
— Obrigada… – agradecia a zebra.

As leoas cercavam a zebra e queriam saber tudo sobre ela, e a zebra, adorando aquela atenção que recebia, a tudo respondia. Já sentada à mesa, a zebra manteve o protocolo até quando deu um coice no leãozinho antecipado que tentou morder-lhe o lombo.

— Júnior, mais respeito com a comida – repreendeu a mãe.
— Desculpem… – disse o leãozinho.
— Espere o jantar ser servido – continuou a mãe.

E o jantar foi servido.

O menu era carpaccio de zebra na entrada, carne de zebra no prato principal e chouriço de zebra na sobremesa. A zebra achou por bem não comer nada, e, mesmo que sentisse fome, dali a alguns instantes não teria mais estômago, esfôfago, boca ou qualquer órgão necessário à apreciação de uma boa gastronomia.

— Passa a bisteca? – pedia o leão.
— Pois claro – respondia cordial a zebra, oferecendo a patinha esquerda.
— Hum, que carne suculenta – elogiava o outro leão, lambendo os lábios.
— Sirva-se, sirva-se… – dizia a zebra, oferecendo a outra pata.

Naquela noite quente de primavera todos encheram a barriga e conversaram animadamente. Ao fim do jantar, os leões fumaram seus charutos, bebericaram marula e falaram sobre coisas amenas, como o futebol e a novela.

***

Moral: se você for uma zebra, evite jantar com leões; as intenções são perigosas.

fábula #24

setembro 13, 2011 § Deixe um comentário

O gato que voltava

m.n.f. / 2011

“The cat come back: a nigger absurdity”,
música infantil de Harry S. Miller, 1983.

O dono da casa queria porque queria expulsar o gato de lá. Tentou de todas as maneiras e, quando o problema parecia já estar morto e enterrado, o gato simplesmente reaparecia. Era uma vez as inúmeras vezes em que o gato voltou.

Um comerciante viajaria para longe e encarregou-se de deixar gato num lugar distante. Todos festejaram quando os dois partiram para nunca mais voltar; mas, num belo dia, o gato voltou.

Um homem jurou dar sumiço ao gato assim que o visse. Carregou de pregos e dinamite a espingarda e ficou à espreita numa esquina. Todos acreditaram que o gato jamais seria visto outra vez, mas tudo o que viram depois – e recolheram – foram noventa e sete pedaços do homem. No dia seguinte, o gato voltou.

Um menino ganhou um dolar para que levasse a um rio o gato; este com uma pedra de mais ou menos um quilo amarrada ao pescoço. Ainda hoje, as autoridades drenam o rio em busca o menino que se afogou. No dia seguinte, o gato voltou.

Colocaram o gato num balão para que ele fosse abandonado na Lua. Uns cem quilômetros à frente, o balão caiu e ninguém ousa imaginar o que terá acontecido ao baloeiro. No outro dia, o gato voltou.

Um viajante ganhou o gato para que desse a alguém no outro lado do país. Mas o trem em que viajaram atropelou uma vaca, descarrilhou e despencou num barranco. Não sobrou uma só viva alma para contar essa história macabra – somente o gato que, no dia seguinte, voltou.

O gato descansava no quintal quando uma bota militar atingiu-o bem ao pé do ouvido. Como o gato continuava acordado, logo aplicaram-lhe uma tijolada na testa. No dia seguinte, o gato voltou.

Colocaram o gato num navio para que ele fosse jogado no oceano. Já em alto mar, as águas ficaram agitadas e naquela tempestade tudo o que a tripulação pôde fazer foi rezar – o que não adiantou muito, porque o navio afundou e cada alma ali se perdeu; exceto pela do gato, que no dia seguinte voltou.

Um bando de canários amontoava-se nos fios do telégrafo. Como o gato tinha fome, escalou o poste silenciosamente para almoçar um passarinho à passarinha; mas, ao pisar nos cabos, foi eletrocutado e virou carvão. No dia seguinte, o gato voltou.

Já a essa altura o gato tinha uma família com sete filhotes. Veio um ciclone que despedaçou todas as casas da região, e, olhando para o céu, tudo o que se via eram gatinhos a bailar. Nenhum dos filhotes jamais foi visto, mas, no dia seguinte, o gato voltou.

Uma bomba atômica destruiu a Rússia, os Estados Unidos, a China, o Brasil e todas as nações. A raça humana foi extinta sem nem mesmo ter a chance de dizer adeus. Quanto ao gato, no dia seguinte, ele voltou.

***

Moral: não é que um gato tenha sete vidas ou até mais, o que ele tem é persistência; aprenda com ele, não desista.

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causo #03

setembro 9, 2011 § 1 comentário

Uma história mística

m.n.f. / 2011

O caso ocorreu comigo mesmo em Pirpirituba, na Paraíba. Foi como uma dessas experiências carregadas de significado, salvo que não me fez sentido algum.

Caminhávamos numa estrada de barro quando na outra direção veio um velho a cavalo. Ele parou ao lado, encarou e depois abriu um sorriso.

— Bom dia − cumprimentou.
— Bom dia − respondi.

O velho retirou alguma coisa do bolso da camisa e ergueu ao sol, era uma folha. E disse:

— Folha de laranjeira é melhor que celular. Não faz ligação, mas dá sinal.

E aí, sem mais nem menos, o velho partiu. Foram embora ele, o cavalo, a folha e a lógica.

causo #02

setembro 9, 2011 § Deixe um comentário

Uma história sobrenatural

m.n.f. / 2011

José é amigo de um amigo e contou um caso que aconteceu com a faxineira dele. É uma dessas histórias de fantasma que todo mundo gosta de ouvir, mesmo quem não acredita nisso.

Eis que chegando em casa José encontrou tudo impecavelmente arrumado; exceto pelo aparelho de som, que estava destruído. A faxineira, sentada no sofá e agarrada à Bíblia, só depois de beber água com açúcar explicou tudo.

— Eu limpei tudo direitinho, Seu José. Mas quando olhei pro som o diabo tava dentro dele. O nome do Demo não parava de acender, ficava piscando e chamando, o Demo. Aí que eu peguei uma faca e quebrei aquilo. Agora sua casa tá bem.

Essa é uma história real, acreditem ou não.

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