fábula #17

agosto 24, 2011 § Deixe um comentário

O redemoinho que o caracol tem

m.n.f. / 2011

Era uma vez, e são infinitas vezes, as rodopiantes voltas do redemoinho no casco do caracol. O redemoinho começa na cabeça e converge para o estômago; e, antes de tudo, já havia começado e acabado infinitas vezes; e nunca portanto terminou.

O caracol, que não era bobo nem nada, aproveitava para se refugiar no casco à iminência de qualquer perigo. Como, por exemplo, um gato.

— Que lesma estranha, mas vou comer assim mesmo – dizia o gato.
— Era só o que me faltava, caninos em felinos… –  resmungava o caracol, já todo encaracolado.

O gato, observando aqueles embriagantes contornos de redemoinho, perdia-se em si mesmo: “quem sou eu, onde estou, por que está tudo girando?”, miava, antes de saltar alucinado o muro do quintal.

O casco era um mecanismo de defesa do caracol, e o redemoinho, o mecanismo de defesa da própria Terra; onde tudo se renova para todo o sempre. O lesmóide virando caracol; as folhas e insetos tornando-se alimento; o caracol decompondo em húmos; o húmos sendo absorvido pela planta; e a planta servindo ao próximo caracol.

O redemoinho continua hoje, continuará redemoinho amanhã, e depois disso, ainda redemoinho. Quanto ao gato fujão, ele nunca mais foi visto.

Moral da história: na vida tudo passa e tudo permanece; faça bom proveito dela.

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fábula #16

agosto 23, 2011 § 1 comentário

Acertos entre a onça e a anta
(essas velhinhas gentis)

m.n.f. / 2011

Era uma vez uma onça e uma anta que não se davam. Era outra vez, no entanto, a mesma onça e a mesma anta.

Quantas vezes a onça abocanhou a anta, a quem chamava de ‘anca’ pela carne que acumulava sobre as patas traseiras. E quantas e tantas vezes a anta fez pouco da onça, a quem chamava de ‘extravagonça’ pela maneira como se vestia.

O tempo passou, a onça mudou, e anta também. Ninguém conhecia uma melhor que a outra e, de velhas conhecidas, as duas logo viraram velhas amigas.

— Anta! – sorria a onça, já sem dentes.
— Onça! – festejava a anta, já sem vaidade.

E como relembraram juntas aqueles velhos tempos que não voltam mais, e como construíram juntas os velhos tempos que estão por vir!

Moral da história: faça novos amigos hoje; todos vamos precisar de velhos amigos um dia.

fábula #15

agosto 23, 2011 § Deixe um comentário

Desentendimentos entre a onça e a anta
(essas jovens geniosas)

m.n.f. / 2011


Era uma vez, e praticamente só uma vez porque outras vezes foi raro, a anta e a onça. Que elas não se davam bem não é novidade, mas o que poucos sabem é que um dia tentaram ser amigas.

Teriam sido como unha e carne, ou, na opinião da onça, como dente e carne. Este aliás foi o primeiro atrapalho na relação; aquela mania chata da onça em tentar devorar a anta.

— Solta a minha perna, onça – dizia a anta.
— Imagina, amiga, foi sem querer – respondia a onça.

Afora isso, a anta era uma provocadora das mais implicantes. Incomodava-lhe as maneiras extravagantes da onça e disso fazia pouco. Questionava em particular a roupa de oncinha da onça.

— Essa onça é uma perua – alfinetava a anta.
— Anta – devolvia a onça.

E cada uma tomou o seu rumo, para bem longe uma da outra.

Moral da história: ou você aprende a lidar com as diferenças, ou vai ter de aprender a ser sozinho.

fábula #14

agosto 19, 2011 § Deixe um comentário

A formiga, o tamanduá e o formigueiro

m.n.f. / 2011

Formigas são as guloseimas o que os tamanduás mais gostam na vida; por sua vez, tamanduás são as criaturas que as formigas mais abominam. Era uma vez, ainda assim, o encontro entre um tamanduá e uma formiga.

A formiga vagava solitária pelo cerrado carregando uma folha nas costas, o que julgava ser um bom disfarce. Como o tamanduá enxergava muito mal, só era capaz de identificar as formigas que chamavam muita atenção; como, por exemplo, uma formiga que carregasse uma verdejante folha nas costas.

− Folhas móveis são deliciosas formigas − comentou o tamanduá.
− Eu sou uma folha da família das andadeiras − mentiu a formiga.
− Desculpe, formiga, mas preciso comer você − disse o tamanduá.

Encrencada, a formiga precisou pensar rápido.

− Por que você tem que comer uma formiga? − perguntou a formiga.
− Todos sabem que formigas fazem bem à vista − respondeu o tamanduá.
− Mas, se formigas fazem bem à vista, por que os tamanduás enxergam tão mal mesmo comendo tantas? – começou a formiga…

A medida que a formiga argumentava, o tamanduá parecia desistir da ideia.

− Logo, as formigas prejudicam a sua visão – concluiu a formiga.
− Talvez você tenha razão − concordou o tamanduá, já indo embora.

O tamanduá afastou-se, balançou pensativo a cabeça e então voltou.

− Talvez uma dieta rica em formigas seja um tratamento para nós tamanduás − disse o tamanduá.

No tapete de um apartamento, o aspirador de pó suga um indefeso farelo de biscoito. Já na barriga do tamanduá, as antenas da formiga quase entram em curto-circuito com o que detectaram. Havia, bem ali, um improvável formigueiro.

Uma colônia de milhares de trabalhadoras viviam satisfeitas naquele que era o mais aconchegante lugar existente. Todas estavam felizes demais, e uma delas explicou.

− A melhor coisa de viver na barriga de um tamanduá, é que os tamanduás ficam todos do lado de fora.

Moral da história: seja otimista, tudo tem um lado bom.

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fábula #13

agosto 19, 2011 § 1 comentário

Yby abá, Ybaté abaré

m.n.f. / 2011

Era menino e macaco, era Yby e Ybaté. Era Ybaté macaco em cima de Yby menino, era menino Yby embaixo de macaco Ybaté.

Na aldeia Cy dizia, “Yby abá, Ybaté abaré!”, raiz e árvore, corrente e rio.

Aldeia de menino Yby era oca, oca, oca. Fogueira no meio, ocaruçú, dança em volta. Dança de chuva, nhum; apaga fogo de fogueira. Era dança de fogueira, pra mais fogueira, dança pauá. Floresta era em volta, aldeia mato de macaco Ybaté.

Era noite, era lua. Era dia, era juba. Era Yby, era Ybaté.

Era pesca de puçá, carapeba de Yby pra Ybaté. Yby dizia, pega tembiú Ybaté! Ybaté dizia, Abaré abaré!
Era fruta de árvore, camu-camu de Ybaté pra Yby. Ybaté dizia, tua sembiú Yby! Yby dizia, Abaré abaré!

Acará voa, acará acaraú. Corre guará, guará goitacá. Ybaté abaré, e Yby abá.

Moral da história: se é natural, é real.

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fábula #12

agosto 18, 2011 § 2 Comentários

O poço e a lua
(apólogo)

m.n.f. / 2011

Era uma vez um poço, que, à maneira dos poços, era um otimista. Como para baixo era chão e para os lados também, o único ponto de vista possível era olhar para cima.

Observava as nuvens, os dias, as noites, os pássaros que passarinhavam.

“Mais um dia que vejo amanhecer, bom dia para você.” – ecoava o poço.

O balde há muito não caía. Diferente da noite, que caía sempre.
Constelações interagiam como em um teatro de bonecos.

— Alguém viu a princesa Andrômedra por aí? — perguntava Draco, o dragão.
— Desde que Perseus decapitou a Medusa, a princesa enamorou-se dele — explicava Ursa Minor.
— Por mil fagulhas, Perseus decapitou a Medusa? — dizia o Dragão
— Juro pela minha Estrela Polar — confirmava Ursa.

Em alguns momentos, e foram muitos, a noite chegava clara feito o dia.

— Oi, quem é você com a luz acesa? – perguntava o poço.
— Oi, poço. Eu sou a lua. – cumprimentava a lua.

O encontro era rápido e cada um seguia o seu caminho.
E, noite após noite, a lua sobrevoava o poço que se iluminava.

— Como é a vista aí de cima? – perguntava o poço.
— A mesma daí, só que ao contrário – brincava a lua.

A Terra continuava em seu giro contínuo. O poço com ela, e a lua por ela.

Moral: o mundo dá muitas voltas, daí o enjoo; é a vida seguindo o seu fluxo, logo tudo está no lugar certo.

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fábula #11

agosto 15, 2011 § 1 comentário

Formiga de asa

m.n.f. / 2011

Algumas coisas que todos devem saber sobre as formigas: primeiro, que elas adoram glicose; depois, que nos dias de inverno ganham asas feitas com gotas de chuva – e, nesta estranha condição, desenvolvem uma obsessão incontrolável por focos de luz.

Sem qualquer motivo aparente levantam voo em direção a tudo o que brilha, a saber: postes de iluminação, lâmpadas das casas, aparelhos de televisão, letreiros luminosos, ou mesmo inocentes e cintilantes vagalumes, etc.

Era uma vez, portanto, uma formiga de asa numa noite chuvosa.
Traçava no ar uma parábola desgovernada quando esbarrou numa lâmpada.

− Êbaaaa!!! − disse a formiga.
− Ei, cuidado aí! − reclamou a lâmpada.
− Êbaaaa!!! − repetia a formiga.

A formiga se chocava contra a lâmpada, que ficava cada vez mais chocada.

− Qual é o seu problema? Por que não volta ao formigueiro? − perguntou a lâmpada.
− Êbaaaa!!! − repetia a formiga.
− Deixe-me em paz, formiga! − disse a lâmpada formigando de irritação.

Já cansada de tanta chateação, a lâmpada apagou-se e foi dormir.
Quanto à formiga, esta bateu asas de volta ao formigueiro.

“Por que eu queria tanto uma lâmpada?” − pensava.

Já em casa, a formiga tirou as asas, escovou os dentes com açúcar e deitou em sua cama de folhas.

Moral da história: nunca esqueça de onde você veio, onde você está e aonde você quer chegar – isso vai te preservar quando você ganhar asas.

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