fábula #23

setembro 9, 2011 § Deixe um comentário

A bactéria esperta

m.n.f. / 2011

Era uma vez, contra todas as possibilidades, o nosso parente mais remoto e do qual somos todos descendentes, dos presidentes aos cachorros de rua, a bactéria.

De tão minúscula não dava nem mesmo para ser vista. Imaginemos, portanto, uma vozinha miúda saindo de uma gota d’água.

— Quando crescer, eu quero ser um mamute – dizia a bactéria
— O que é um mamute? – perguntava a rocha vulcânica.
— Não sei, porque ainda não existem mamutes… – concluía a bactéria.

Em outros momentos, chegava mesmo a visualizar o que viria a ser.

— Hoje eu sonhei com uma árvore… – contava a bactéria
— É uma montanha nova? – tentava entender, a rocha.
— Mais ou menos, é mais estreita – dizia a bactéria

O tempo passava e o corpo da bactéria se adaptava e mudava.

— A isso que eu uso para nadar darei o nome de nadadeiras! – vibrava a bactéria.

Eis que a bactérica nunca parou de se transformar. Virou peixe, dinossauro, galinha, sabiá, capim, árvore, macaco e gente. Quanto à rocha, essa não mudou tanto; sempre vulcânica, sempre no mesmo lugar.

Quase quatro milhões de anos depois, um alpinista fincou uma bandeira naquele mesmo lugar onde antes morava a bactéria.

— Você me parece familiar… – a rocha vulcânica comentou.
— Impossível, nunca alguém esteve aqui antes de mim! – respondeu o alpinista.

***

Moral: você pode ser o que quiser, mas não esqueça que não será o primeiro nem o último a ser qualquer coisa.

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causo #01

setembro 7, 2011 § Deixe um comentário

Uma história de guerra

m.n.f. / 2011

Aconteceu na II Guerra com Seu Ramalho; avô de um amigo e herói da única batalha em solo brasileiro naquele conflito.

Natal havia se transformado na cidade porta-aviões de onde os americanos partiam para a Europa. A inteligência americana, por sua vez, suspeitava que um submarino nazista aportaria na praia.

Numa noite, Seu Ramalho ocupava o posto de sentinela no Forte dos Reis Magos quando o farfalhar dos arbustos denunciou a aproximação do inimigo; já a poucos metros da fortaleza.

— Alto lá! – gritou, apontando a metralhadora.

O inimigo não se rendeu.

Iniciou-se ali uma ofensiva brutal do soldado. As balas rasgando a noite, os galhos a trincar, a explosão de uma granada, o horror da guerra, o cessar fogo.

Um destacamento partiu em direção ao matagal para recolher a tropa nazista aniquilada. E tudo o que encontraram, a estribuchar no chão, foi um jumento fatalmente ferido – de certo, um jumento fascista.

Essa é uma história real, em memória de Seu Ramalho e esses bravos homens.

fábula #22

setembro 2, 2011 § 1 comentário

O boi que virou peixe

m.n.f. / 2011

Teorias são tentativas de explicar qualquer coisa, geralmente coisas difíceis de entender. Era uma vez uma teoria criada por uma dessas coisas difíceis de entender, o peixe-boi.

Quando o peixe-boi ainda era um boi, ele pensava em algumas questões fundamentais. De onde viemos? Para onde vamos? Por que alguns membros do rebanho simplesmente desaparecem? E por que cargas d’água sempre ao atingir determinado peso e estatura? Desenvolvendo, assim, a Teoria do Matadouro.

— No matadouro nos abatem e fazem bife com a nossa carne – explicou o boi.
— Matadouros não existem – duvidou o outro.

Não demorou e o amigo foi servido numa churrascaria. Nos instantes finais, duas coisas passaram pela sua cabeça: pânico, e um porrete.

— O matadouro é uma conspiração – supunha o boi teórico.
— O que é conspiração? – perguntavam.
— São pessoas juntas a tramar algo – explicava o boi.

Em vez de virar churrasco, o boi achou mais prudente virar peixe; e assim passou a pastar em segurança no leito do rio. O que ainda não dá para entender foi como exatamente o boi se fez peixe-boi; ou, pelo menos, até criarem uma teoria que explique isso.

Moral da história: esperto é o boi que não vai com o rebanho; coma mais salada, menos carne e não patrocine matadouros.

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fábula #21

agosto 31, 2011 § 2 Comentários

O gato pianista

m.n.f. / 2011

Kätzchen Schnurren, encontrado a sete de julho de 1777 em uma caixa de sapatos em Viena, foi um prolífico e influente compositor do período clássico. Adotado pela tradicional família Essenfelder, ainda aos três meses de idade compôs a sua primeira sinfonia: Die Maus läuft weg (“rato em fuga”), ópera acidental de quando Kätzschen, em caça, saltara sobre o piano. Mas foi somente meses mais tarde, com a alegre sonata Tanz der Schnurrhaare (“dança dos bigodes”), que o prodigioso talento veio a ser revelado.

Não tardou para que o gênio de Kätzchen o levasse a trilhar novos caminhos. Dos monótonos recitais familiares, passou a apresentar-se nos bordéis da zona boêmia em troca de peixe. Tal período é atribuído ao desenvolvimento de sua apurada linguagem e conteúdo musical, descrito pelo renomado crítico Alergicchen Spirruss como “um sopro de vida mesmo nos que sofrem de rinite alérgica”.

Autor de mais de 400 obras, em meados de 1780 Kätzchen fundou a Filarmônica de Viena e dela tornou-se regente, o que lhe traria prestígio e fama por toda a Europa; mas que, no ano seguinte, entraria em conflito com o temperamento de natureza indomável do artista.

Em março de 1781, na coroação de José II, Kätzchen teve a sua mais controversa apresentação. Executava o segundo movimento do concerto para piano N.42, Sonett von gespickt (“soneca de pelos eriçados”), quando, fascinado pelo farfalhar do vestido da Madame Gordelle, herdeira do imperador Optetilus Carnudus III, saltou felino sobre a plateia. A corte e as dinastias, os convidados e os servos, exceto pela orquestra já habituada às excentricidades do maestro, todos entraram em pânico ante a imagem da dama a desvencilhar de seu corpo o grande Kätzchen Schnurren.

— Detenham-no, detenham-no! Há um gato no palácio! Como isso pôde acontecer? – alguém ainda gritou, antes de Kätzchen fugir pelo portão.

Moral da história: seja você mesmo; mais vale o que você quer para si do que o que esperam de você.

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fábula #20

agosto 30, 2011 § Deixe um comentário

Tatu-bola

m.n.f. / 2011

Era uma vez uma bola que, quando não era bola, era tatu.

De tão tímidos, os tatus tinham vergonha até da própria timidez. Bastava alguém se aproximar e o tatu logo fugia para a sua toca. Já o tatu-bola, esse não tinha toca; e o jeito era fechar-se em si mesmo.

— Toc toc − alguém batia à bola.
— Não estou − respondia o tatu-bola.

Tal comportamento fazia dele um solitário. Não havia amigos com quem pudesse conversar, dias que pudesse compartilhar, ou mesmo um mundo maior que o casco ao redor.

Um dia o tatu-bola acordou com um senhor torcicolo.
E um bem-te-vi, vendo o tatu de longe, voou até ele.

— Bem te vi! Bem te vi! − cumprimentou o bem-te-vi.
— Ai, ai, ai, dormi de mal jeito e não consigo me fechar… − resmungava o tatu.
— Você é o tatu bola, não é? − observou o bem-te-vi.
— Sou eu… − respondeu tímido o tatu.
— Eu sou o bem-te-vi − disse o bem-te-vi.
— Logo eu vi − brincou o tatu, abrindo uma gargalhada.

Ao longo de todo aquele dia o tatu não se fechou. Os dois conversaram animados até que a noite chegou, e o tatu, finalmente, recolheu-se em seu sono de bola.

Na manhã seguinte, o tatu já não sentia mais torcicolo quando o bem-te-vi voltou.

— Bem te vi, bem te vi! − cumprimentou o bem-te-vi.
— Não estou − respondeu o tatu, fechando-se em si mesmo.
— Bem te vi, mas não vejo mais − disse, partindo para nunca mais voltar.

Moral da história: pessoas fechadas demais podem ficar sozinhas demais; abra-se mais vezes, evite o torcicolo.

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fábula #19

agosto 30, 2011 § Deixe um comentário

A coruja e o escuro

m.n.f. / 2011

Era uma vez uma coruja no escuro.

Da mesma maneira que morcegos não suportam ver sangue e ficaram cegos de tanto fechar os olhos para se alimentar, as corujas não conseguem dormir à noite porque têm medo do escuro; permanecem em alerta, os olhos arregalados à espreita de qualquer coisa.

— Eu é que não vou dormir nesse breu! – dizia a coruja.
— Eu sou o escuro e só vou dormir quando amanhecer – uivava o escuro.

O escuro não teme nada, mas todos têm ou já tiveram medo do escuro. Quase ninguém jamais o viu realmente porque, nele, não dá para enxergar. A coruja, de tanto medo, aprendeu a ver o escuro.

— Então é assim que você é? – perguntou a coruja.
— Sim, eu sou o que você vê – respondeu o escuro.
— Você não é tão feio como eu pensava – concluiu a coruja.

O escuro contava coisas estranhas à coruja. Histórias sobre fantasmas, árvores rangendo à meia noite, uivos sombrios de forças sobrenaturais. A coruja, de tanto medo, aprendeu a assustar também.

— Que som esquisito foi esse? – perguntou o escuro, estremecido.
— Não tenha medo, sou eu cantando música experimental – esclareceu a coruja.

O escuro era um misterioso e tudo o que parecia ser, não era. A coruja, de tanto medo, aprendeu a desvendar o escuro.

— Que criatura é essa a vagar pela noite? – perguntou a coruja.
— Este é um temido roedor, o ratinho – respondeu o escuro.
— Ótimo, porque ainda não jantei hoje! – disse a coruja, comendo o rato.

A coruja nunca perdeu o medo do escuro. Mas, de tanto medo, passou a viver nele e a gostar dele.

Moral da história: não tema o que você não conhece; se for pra ter medo, ao menos saiba do que se trata.

fábula #18

agosto 24, 2011 § Deixe um comentário

O eco, o arbusto, o penhasco

m.n.f. / 2011

Em frente a todo penhasco vive um eco. Em cima desse penhasco em especial, vivia um arbusto não dos mais robustos. Tudo o que ele fazia era contemplar a vista, e nada dizia. Era uma vez portanto uma conversa entre o Penhasco e o Eco; e da qual arbusto preferiu não participar.

O penhasco vivia mergulhado em si mesmo e sofria de vertigem com todos aqueles pensamentos profundos. A rotina dos dias, o fato de ser um abismo, ou mesmo ter à sua cabeça aqueles galhos; tudo lhe incomodava. Vivia em uma depressão tão geográfica quanto mental.

Um dia, já cansado de si mesmo, o penhasco puxou assunto com o eco.

— Bom dia! − gritou o penhasco.
— Bom dia, dia! − respondeu o eco.

O penhasco continuou.

— Tudo bem? − perguntou o penhasco.
— Bem, bem − disse o eco.
— Que bom! Quem é você? − perguntou o penhasco.
— Você, você… − ecoou o eco.

O penhasco, no alto da sua irritação, não entendeu.

— Você só repete. Você é um estúpido.

E o eco não falou mais nada.

Moral da história: seja bom ou seja ruim, fale o que você gostaria de ouvir; o arbusto tem sempre a razão.

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