fábula #22

setembro 2, 2011 § 1 comentário

O boi que virou peixe

m.n.f. / 2011

Teorias são tentativas de explicar qualquer coisa, geralmente coisas difíceis de entender. Era uma vez uma teoria criada por uma dessas coisas difíceis de entender, o peixe-boi.

Quando o peixe-boi ainda era um boi, ele pensava em algumas questões fundamentais. De onde viemos? Para onde vamos? Por que alguns membros do rebanho simplesmente desaparecem? E por que cargas d’água sempre ao atingir determinado peso e estatura? Desenvolvendo, assim, a Teoria do Matadouro.

— No matadouro nos abatem e fazem bife com a nossa carne – explicou o boi.
— Matadouros não existem – duvidou o outro.

Não demorou e o amigo foi servido numa churrascaria. Nos instantes finais, duas coisas passaram pela sua cabeça: pânico, e um porrete.

— O matadouro é uma conspiração – supunha o boi teórico.
— O que é conspiração? – perguntavam.
— São pessoas juntas a tramar algo – explicava o boi.

Em vez de virar churrasco, o boi achou mais prudente virar peixe; e assim passou a pastar em segurança no leito do rio. O que ainda não dá para entender foi como exatamente o boi se fez peixe-boi; ou, pelo menos, até criarem uma teoria que explique isso.

Moral da história: esperto é o boi que não vai com o rebanho; coma mais salada, menos carne e não patrocine matadouros.

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fábula #21

agosto 31, 2011 § 2 Comentários

O gato pianista

m.n.f. / 2011

Kätzchen Schnurren, encontrado a sete de julho de 1777 em uma caixa de sapatos em Viena, foi um prolífico e influente compositor do período clássico. Adotado pela tradicional família Essenfelder, ainda aos três meses de idade compôs a sua primeira sinfonia: Die Maus läuft weg (“rato em fuga”), ópera acidental de quando Kätzschen, em caça, saltara sobre o piano. Mas foi somente meses mais tarde, com a alegre sonata Tanz der Schnurrhaare (“dança dos bigodes”), que o prodigioso talento veio a ser revelado.

Não tardou para que o gênio de Kätzchen o levasse a trilhar novos caminhos. Dos monótonos recitais familiares, passou a apresentar-se nos bordéis da zona boêmia em troca de peixe. Tal período é atribuído ao desenvolvimento de sua apurada linguagem e conteúdo musical, descrito pelo renomado crítico Alergicchen Spirruss como “um sopro de vida mesmo nos que sofrem de rinite alérgica”.

Autor de mais de 400 obras, em meados de 1780 Kätzchen fundou a Filarmônica de Viena e dela tornou-se regente, o que lhe traria prestígio e fama por toda a Europa; mas que, no ano seguinte, entraria em conflito com o temperamento de natureza indomável do artista.

Em março de 1781, na coroação de José II, Kätzchen teve a sua mais controversa apresentação. Executava o segundo movimento do concerto para piano N.42, Sonett von gespickt (“soneca de pelos eriçados”), quando, fascinado pelo farfalhar do vestido da Madame Gordelle, herdeira do imperador Optetilus Carnudus III, saltou felino sobre a plateia. A corte e as dinastias, os convidados e os servos, exceto pela orquestra já habituada às excentricidades do maestro, todos entraram em pânico ante a imagem da dama a desvencilhar de seu corpo o grande Kätzchen Schnurren.

— Detenham-no, detenham-no! Há um gato no palácio! Como isso pôde acontecer? – alguém ainda gritou, antes de Kätzchen fugir pelo portão.

Moral da história: seja você mesmo; mais vale o que você quer para si do que o que esperam de você.

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fábula #20

agosto 30, 2011 § Deixe um comentário

Tatu-bola

m.n.f. / 2011

Era uma vez uma bola que, quando não era bola, era tatu.

De tão tímidos, os tatus tinham vergonha até da própria timidez. Bastava alguém se aproximar e o tatu logo fugia para a sua toca. Já o tatu-bola, esse não tinha toca; e o jeito era fechar-se em si mesmo.

— Toc toc − alguém batia à bola.
— Não estou − respondia o tatu-bola.

Tal comportamento fazia dele um solitário. Não havia amigos com quem pudesse conversar, dias que pudesse compartilhar, ou mesmo um mundo maior que o casco ao redor.

Um dia o tatu-bola acordou com um senhor torcicolo.
E um bem-te-vi, vendo o tatu de longe, voou até ele.

— Bem te vi! Bem te vi! − cumprimentou o bem-te-vi.
— Ai, ai, ai, dormi de mal jeito e não consigo me fechar… − resmungava o tatu.
— Você é o tatu bola, não é? − observou o bem-te-vi.
— Sou eu… − respondeu tímido o tatu.
— Eu sou o bem-te-vi − disse o bem-te-vi.
— Logo eu vi − brincou o tatu, abrindo uma gargalhada.

Ao longo de todo aquele dia o tatu não se fechou. Os dois conversaram animados até que a noite chegou, e o tatu, finalmente, recolheu-se em seu sono de bola.

Na manhã seguinte, o tatu já não sentia mais torcicolo quando o bem-te-vi voltou.

— Bem te vi, bem te vi! − cumprimentou o bem-te-vi.
— Não estou − respondeu o tatu, fechando-se em si mesmo.
— Bem te vi, mas não vejo mais − disse, partindo para nunca mais voltar.

Moral da história: pessoas fechadas demais podem ficar sozinhas demais; abra-se mais vezes, evite o torcicolo.

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fábula #19

agosto 30, 2011 § Deixe um comentário

A coruja e o escuro

m.n.f. / 2011

Era uma vez uma coruja no escuro.

Da mesma maneira que morcegos não suportam ver sangue e ficaram cegos de tanto fechar os olhos para se alimentar, as corujas não conseguem dormir à noite porque têm medo do escuro; permanecem em alerta, os olhos arregalados à espreita de qualquer coisa.

— Eu é que não vou dormir nesse breu! – dizia a coruja.
— Eu sou o escuro e só vou dormir quando amanhecer – uivava o escuro.

O escuro não teme nada, mas todos têm ou já tiveram medo do escuro. Quase ninguém jamais o viu realmente porque, nele, não dá para enxergar. A coruja, de tanto medo, aprendeu a ver o escuro.

— Então é assim que você é? – perguntou a coruja.
— Sim, eu sou o que você vê – respondeu o escuro.
— Você não é tão feio como eu pensava – concluiu a coruja.

O escuro contava coisas estranhas à coruja. Histórias sobre fantasmas, árvores rangendo à meia noite, uivos sombrios de forças sobrenaturais. A coruja, de tanto medo, aprendeu a assustar também.

— Que som esquisito foi esse? – perguntou o escuro, estremecido.
— Não tenha medo, sou eu cantando música experimental – esclareceu a coruja.

O escuro era um misterioso e tudo o que parecia ser, não era. A coruja, de tanto medo, aprendeu a desvendar o escuro.

— Que criatura é essa a vagar pela noite? – perguntou a coruja.
— Este é um temido roedor, o ratinho – respondeu o escuro.
— Ótimo, porque ainda não jantei hoje! – disse a coruja, comendo o rato.

A coruja nunca perdeu o medo do escuro. Mas, de tanto medo, passou a viver nele e a gostar dele.

Moral da história: não tema o que você não conhece; se for pra ter medo, ao menos saiba do que se trata.

fábula #18

agosto 24, 2011 § Deixe um comentário

O eco, o arbusto, o penhasco

m.n.f. / 2011

Em frente a todo penhasco vive um eco. Em cima desse penhasco em especial, vivia um arbusto não dos mais robustos. Tudo o que ele fazia era contemplar a vista, e nada dizia. Era uma vez portanto uma conversa entre o Penhasco e o Eco; e da qual arbusto preferiu não participar.

O penhasco vivia mergulhado em si mesmo e sofria de vertigem com todos aqueles pensamentos profundos. A rotina dos dias, o fato de ser um abismo, ou mesmo ter à sua cabeça aqueles galhos; tudo lhe incomodava. Vivia em uma depressão tão geográfica quanto mental.

Um dia, já cansado de si mesmo, o penhasco puxou assunto com o eco.

— Bom dia! − gritou o penhasco.
— Bom dia, dia! − respondeu o eco.

O penhasco continuou.

— Tudo bem? − perguntou o penhasco.
— Bem, bem − disse o eco.
— Que bom! Quem é você? − perguntou o penhasco.
— Você, você… − ecoou o eco.

O penhasco, no alto da sua irritação, não entendeu.

— Você só repete. Você é um estúpido.

E o eco não falou mais nada.

Moral da história: seja bom ou seja ruim, fale o que você gostaria de ouvir; o arbusto tem sempre a razão.

fábula #17

agosto 24, 2011 § Deixe um comentário

O redemoinho que o caracol tem

m.n.f. / 2011

Era uma vez, e são infinitas vezes, as rodopiantes voltas do redemoinho no casco do caracol. O redemoinho começa na cabeça e converge para o estômago; e, antes de tudo, já havia começado e acabado infinitas vezes; e nunca portanto terminou.

O caracol, que não era bobo nem nada, aproveitava para se refugiar no casco à iminência de qualquer perigo. Como, por exemplo, um gato.

— Que lesma estranha, mas vou comer assim mesmo – dizia o gato.
— Era só o que me faltava, caninos em felinos… –  resmungava o caracol, já todo encaracolado.

O gato, observando aqueles embriagantes contornos de redemoinho, perdia-se em si mesmo: “quem sou eu, onde estou, por que está tudo girando?”, miava, antes de saltar alucinado o muro do quintal.

O casco era um mecanismo de defesa do caracol, e o redemoinho, o mecanismo de defesa da própria Terra; onde tudo se renova para todo o sempre. O lesmóide virando caracol; as folhas e insetos tornando-se alimento; o caracol decompondo em húmos; o húmos sendo absorvido pela planta; e a planta servindo ao próximo caracol.

O redemoinho continua hoje, continuará redemoinho amanhã, e depois disso, ainda redemoinho. Quanto ao gato fujão, ele nunca mais foi visto.

Moral da história: na vida tudo passa e tudo permanece; faça bom proveito dela.

fábula #16

agosto 23, 2011 § 1 comentário

Acertos entre a onça e a anta
(essas velhinhas gentis)

m.n.f. / 2011

Era uma vez uma onça e uma anta que não se davam. Era outra vez, no entanto, a mesma onça e a mesma anta.

Quantas vezes a onça abocanhou a anta, a quem chamava de ‘anca’ pela carne que acumulava sobre as patas traseiras. E quantas e tantas vezes a anta fez pouco da onça, a quem chamava de ‘extravagonça’ pela maneira como se vestia.

O tempo passou, a onça mudou, e anta também. Ninguém conhecia uma melhor que a outra e, de velhas conhecidas, as duas logo viraram velhas amigas.

— Anta! – sorria a onça, já sem dentes.
— Onça! – festejava a anta, já sem vaidade.

E como relembraram juntas aqueles velhos tempos que não voltam mais, e como construíram juntas os velhos tempos que estão por vir!

Moral da história: faça novos amigos hoje; todos vamos precisar de velhos amigos um dia.

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