fábula #26

setembro 16, 2011 § Deixe um comentário

O grande lhama

m.n.f. / 2011


Acredita-se que as lhamas tenham origem numa antiga linhagem de cabras, que optaram à reencarnação a fim de esclarecer a humanidade. Numa tradução aproximada, lhama significa bééé; isto é, “aquele que tudo vê, do alto de uma montanha pedegrosa, onde encontra os melhores capins”.

Era uma vez um homem que subiu a mais alta montanha para conversar com a mais sábia das lhamas.

— Ó, grande lhama, diga-me: qual o sentido da vida? – perguntou o homem.
— Bé – respondeu o grande lhama.

O homem refletiu durante sete dias e sete noites.

— Sou um homem simples, incapaz de decifrar tamanha sapiência – confessou.

O grande lhama, lançando ao homem um olhar enigmático, mascou um montinho de capim.

— O sinal que eu precisava, capim! – vibrou o homem.

O homem passou a seguir o lhama e a reproduzir os seus hábitos. Caminhava devagar, fitava o infinito, contemplava o vazio. Com um jeito abnegado, alimentava-se somente de mato; as plantas mais espinhosas encarava como uma prova de fé.

Na medida em que os anos passavam, o homem transformava-se em pura essência: de tão magro e faminto pouco lhe restava do corpo, de modo que já era praticamente só espírito.

— A verdade… encontrei… é isso! –  disse o homem, quebrando o voto de silêncio.
— Bé? – respondeu o lhama.
— O sentido da vida é um bom prato de feijoada – afirmou, convicto.

***

Moral: a vida é uma só; não perca tempo tentando encontrar um sentido.

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