fábula #24

setembro 13, 2011 § Deixe um comentário

O gato que voltava

m.n.f. / 2011

“The cat come back: a nigger absurdity”,
música infantil de Harry S. Miller, 1983.

O dono da casa queria porque queria expulsar o gato de lá. Tentou de todas as maneiras e, quando o problema parecia já estar morto e enterrado, o gato simplesmente reaparecia. Era uma vez as inúmeras vezes em que o gato voltou.

Um comerciante viajaria para longe e encarregou-se de deixar gato num lugar distante. Todos festejaram quando os dois partiram para nunca mais voltar; mas, num belo dia, o gato voltou.

Um homem jurou dar sumiço ao gato assim que o visse. Carregou de pregos e dinamite a espingarda e ficou à espreita numa esquina. Todos acreditaram que o gato jamais seria visto outra vez, mas tudo o que viram depois – e recolheram – foram noventa e sete pedaços do homem. No dia seguinte, o gato voltou.

Um menino ganhou um dolar para que levasse a um rio o gato; este com uma pedra de mais ou menos um quilo amarrada ao pescoço. Ainda hoje, as autoridades drenam o rio em busca o menino que se afogou. No dia seguinte, o gato voltou.

Colocaram o gato num balão para que ele fosse abandonado na Lua. Uns cem quilômetros à frente, o balão caiu e ninguém ousa imaginar o que terá acontecido ao baloeiro. No outro dia, o gato voltou.

Um viajante ganhou o gato para que desse a alguém no outro lado do país. Mas o trem em que viajaram atropelou uma vaca, descarrilhou e despencou num barranco. Não sobrou uma só viva alma para contar essa história macabra – somente o gato que, no dia seguinte, voltou.

O gato descansava no quintal quando uma bota militar atingiu-o bem ao pé do ouvido. Como o gato continuava acordado, logo aplicaram-lhe uma tijolada na testa. No dia seguinte, o gato voltou.

Colocaram o gato num navio para que ele fosse jogado no oceano. Já em alto mar, as águas ficaram agitadas e naquela tempestade tudo o que a tripulação pôde fazer foi rezar – o que não adiantou muito, porque o navio afundou e cada alma ali se perdeu; exceto pela do gato, que no dia seguinte voltou.

Um bando de canários amontoava-se nos fios do telégrafo. Como o gato tinha fome, escalou o poste silenciosamente para almoçar um passarinho à passarinha; mas, ao pisar nos cabos, foi eletrocutado e virou carvão. No dia seguinte, o gato voltou.

Já a essa altura o gato tinha uma família com sete filhotes. Veio um ciclone que despedaçou todas as casas da região, e, olhando para o céu, tudo o que se via eram gatinhos a bailar. Nenhum dos filhotes jamais foi visto, mas, no dia seguinte, o gato voltou.

Uma bomba atômica destruiu a Rússia, os Estados Unidos, a China, o Brasil e todas as nações. A raça humana foi extinta sem nem mesmo ter a chance de dizer adeus. Quanto ao gato, no dia seguinte, ele voltou.

***

Moral: não é que um gato tenha sete vidas ou até mais, o que ele tem é persistência; aprenda com ele, não desista.

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