fábula #20

agosto 30, 2011 § Deixe um comentário

Tatu-bola

m.n.f. / 2011

Era uma vez uma bola que, quando não era bola, era tatu.

De tão tímidos, os tatus tinham vergonha até da própria timidez. Bastava alguém se aproximar e o tatu logo fugia para a sua toca. Já o tatu-bola, esse não tinha toca; e o jeito era fechar-se em si mesmo.

— Toc toc − alguém batia à bola.
— Não estou − respondia o tatu-bola.

Tal comportamento fazia dele um solitário. Não havia amigos com quem pudesse conversar, dias que pudesse compartilhar, ou mesmo um mundo maior que o casco ao redor.

Um dia o tatu-bola acordou com um senhor torcicolo.
E um bem-te-vi, vendo o tatu de longe, voou até ele.

— Bem te vi! Bem te vi! − cumprimentou o bem-te-vi.
— Ai, ai, ai, dormi de mal jeito e não consigo me fechar… − resmungava o tatu.
— Você é o tatu bola, não é? − observou o bem-te-vi.
— Sou eu… − respondeu tímido o tatu.
— Eu sou o bem-te-vi − disse o bem-te-vi.
— Logo eu vi − brincou o tatu, abrindo uma gargalhada.

Ao longo de todo aquele dia o tatu não se fechou. Os dois conversaram animados até que a noite chegou, e o tatu, finalmente, recolheu-se em seu sono de bola.

Na manhã seguinte, o tatu já não sentia mais torcicolo quando o bem-te-vi voltou.

— Bem te vi, bem te vi! − cumprimentou o bem-te-vi.
— Não estou − respondeu o tatu, fechando-se em si mesmo.
— Bem te vi, mas não vejo mais − disse, partindo para nunca mais voltar.

Moral da história: pessoas fechadas demais podem ficar sozinhas demais; abra-se mais vezes, evite o torcicolo.

***

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