Alma Penada

março 30, 2011 § Deixe um comentário

Dizem que na costa oeste de África, sob a sombra da madrugada e muito longe da Antártida, habita um ser mitológico incongruente, a que chamam de Alma Penada. De geração a geração, pelo sim e pelo não, a lenda conta uma história suprema. Era uma vez uma andorinha e uma girafa que, de certa feita, acordaram com uma terrível dor de cabeça. Daquele amor, nasceria uma cria miúda qual as marulas que brotavam das árvores e fermentavam ao solo – para a alegria dos enamorados, como a girafa e a andorinha. Não foi o que ocorreu, por um acaso. No ninho da Dona Andorinha (e para a surpresa do Sr. Gavião), nasceu um bicho esquisito a que a todos pareceu um martírio. De longo pescoço e viscosas penas, estranheza era coisa pequena. Sem deixar qualquer vestígio, foi-lhe aplicado o suplício: a miúda criatura ao mar foi lançada, pelo marido traído. Em sua sina flutuava por qualquer canto. Foi do Atlântico ao Pacífico. E novamente, Atlântico. Bebeu água de água viva e cavalgou em cavalos marinhos, pelas vastas planícies oceânicas. Chegou mesmo a bicar o bico de tubarões brincalhões (mas, nem por isso, menos perigosos). As suas patas tortas não tinham qualquer utilidade exceto por remar, remar e remar. Mas um dia, pisaram numa ilhota. Terra firme (e pouca). No chão, não havia muito não: apenas um coqueiro, um esqueleto de um velho pirata desaparecido que tinha um tampão no olho e mãos de capitão-gancho; e, para além disso, somente um tesouro que de tão velho as moedas já tinham saído de circulação. Foi lá mesmo que Alma Penada viveu por toda a sua infância. Afeiçoou-se ao esqueleto, fez do coqueiro o seu marco e, com o baú, improvisou um palácio. Dedicou-se então a fabricar lembranças. Pequenas vivências que carregaria consigo por toda a sua vida, como por exemplo as breves, estreitas e curtas amizades traçadas com seus amigos peixes, moluscos e outros pequenos animais suculentos. As amizades de Alma Penada duravam até a segunda instância: que era quando a fome lhe apertava a pança. Os peixes, com as suas próprias tripas, salvaram-lhe muitas vezes a vida. A todos eles é eternamente grato. Agradece a todos que devorou do fundo do seu prato, um dia. Assim os dias passaram, as noites passaram, os anos passaram e os pássaros passaram. Já em idade adulta, tornou-se linda criatura. Ou, ainda, uma girafa particularmente estranha. Mas, com absoluta certeza, alguma coisa tornou-se: e essa era a sua artimanha. Com as suas asas ergueu voo para o continente. Avistou do alto os amigos tubarões brincalhões. Fazia tanto tempo, que já não eram mais sorridentes. Sofriam de dor-de-dente, sem mencionar as articulações. De volta para casa, a ele chamaram “Alma Penada”: criatura madrugada. Nada com as suas patas e voa com as suas asas. Vaga pela escuridão em busca de conforto ao seu coração. E, principalmente, em busca de peixes frescos. É o que contam.

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