Sobre o calor

março 16, 2010 § Deixe um comentário

Verão?

É com profundo pesar, bolhas nos pés e as costas despelando que venho informar sobre o ataque. São as explosões nucleares. Partindo do centro do sistema solar, chegam por aqui com forte impacto a lançar rajadas de raios ultravioleta – sem poupar civis, mulheres ou crianças. No verão, não parecia tão alarmante. O sol não ardia, brilhava. Diminuíam as vestimentas nas moças, aumentavam o torcicolo nos rapazes, e tudo era festa. Então veio o carnaval, mais festa, e o outono já derrubava as primeiras folhas do calendário. As pessoas voltaram ao conforto dos seus sofás, ao ar-condicionado dos escritórios; havaianas agora, muito raramente.

Lá fora o verão continua. Sendo que, sem o mesmo rótulo, virou só calor.

Nascimentos

Muitas pessoas que eu conheço fazem aniversário nos meses de março e abril – de repente, a maior parte delas. São dois meses atípicos. Presentes, mensagens, telefonemas, churrascos e por aí vai. Porque tanta gente nasce nessa época, isso eu não sei. A única explicação razoável que consegui imaginar para o aumento da safra está nove meses antes, no período do plantio, por assim dizer, quando nas chuvas de junho e julho os pombinhos apaixonados migram para a reclusão dos seus lares, quartos e edredons. Para um determinado grupo não muito restrito, o inverno é a época mais quente do ano.

Extremo

Embora ninguém tenha se dado conta enquanto ocorria, no último dia 23 de fevereiro aconteceu um evento extraordinário na minha cidade e em outras quatorze capitais do país: batíamos o recorde de radiação de raios ultravioleta. Isso significa que, até então, ninguém havia sentido tanto calor por aqui. Quando li a notícia, com um relativo atraso, tentei rememorar o que fiz naquela data… Como não consigo lembrar de nada em especial, pelo visto foi uma terça-feira extremamente comum. Significa que eu: trabalhei, almocei, voltei para casa. E provavelmente reclamei do calor extremo, como em qualquer dia extremamente comum.

Melô

“Acho que a ONU vai nos ajudar, a inventar a Lei do Protetor Solar / Todo mundo vai ser obrigado a usar, a menos que alguém queira se matar / Qualquer dia desses, o sol vai nos engolir.” – Os Bonnies

Homo Pagodis

Tenho para mim que pessoas loiras esquentam menos a cabeça ao sol do que as morenas; por causa daquela relação Tonalidade da Cor X Retenção de Luz/Calor. No entanto nos países tropicais predomina uma população de cabelos escuros. A pele também é mais escura, e, embora absorva mais calor, leva vantagem na melanina, o Sundown de Deus. Por isso, o meu protótipo de humano perfeitamente adaptado ao nosso terroir teria pele escura, cabelos dourados, vestiria uma camisa de linho semi-aberta e, se não fosse pedir muito, daria a ele voz de rouxinol – algo como o pagodeiro Belo, o modelo evolutivo perfeito do brasileiro.

Sélebro

Pode reparar, o efeito imediato do calor é uma abobalhante gastura no espírito. Efeito subsequente é assistir ao programa do Chaves no SBT, estrategicamente veiculado às 13h, quando o sol trata de nos lobotomizar a todos.

Estranha miragem

Em algum ponto perdido na costa leste da América Latina, onde dunas móveis planejam fuga por entre uma densa vegetação de letreiros gigantes, existe um vilarejo de aproximadamente 800 mil habitantes. Dentre suas principais características, destaca-se a extraordinária capacidade de assimilar influências externas (por serem externas) de modo tal que jamais ambicionou imprimir uma marca própria para além das suas fronteiras – uma vez que, tudo que o vilarejo tem de melhor, o mundo já possui em demasia e na versão original. Sabe-se somente de uma vez onde houve um esforço nesse sentido. Há muito tempo, quando morros ainda não apresentavam os efeitos da calvície e cajueiros não sofriam de obesidade, existiu a localmente famosa “Cruzada para Lugar Algum”, quando o vilarejo iria para além dos seus limites. Sem conhecimentos da cartografia, o vilarejo acabou seguindo para Leste, dando de frente com uma região inundada, muito ampla, conhecida por Oceano Atlântico. O acidente de pecurso foi motivo de riso, atiçando a imaginação de pândegos de primeira ordem: algumas comunidades diziam que o vilarejo deu com os burros n’água; outras, que o plano foi por água abaixo. Seja como for, existiu uma grande polêmica sobre qual era a melhor piada, até o dia em que todos concordaram que o melhor mesmo era esquecer o assunto, o vilarejo e tudo o que havia por lá. Muito tempo se passou. Hoje, sem qualquer prova de sua existência, ao menos para os que por lá pousam para pegar um bronze, não me custa acreditar que Natal seja uma estranha miragem; uma alucinação coletiva causada pelo calor.

Tatuís

Os tatuís são uns bichinhos trazidos pelas ondas e que logo se escondem sob a areia da praia. Eles parecem baratas e têm quase-gosto de camarão – o que motivou o maior ato de crueldade que uma criança de oito anos é capaz: fritar, ainda vivos, os tatuís que colhi com um baldinho minutos atrás. A segunda maior brutalidade eu infligi a mim mesmo, quando comi os tatuís que sozinho havia preparado à base do puro feeling. Hoje, quando saio para a rua ao meio-dia, e tenho a impressão de estar sendo cozido vivo pelo calor, lembro da dívida que assumi muitos anos atrás.

Fake

As estrelas estão sendo substituídas por para-raios. A lua é vista aos montes, enfileiradas nas ruas, uma pendurada em cada poste. O ar que se respira é purificado e frio. A areia é enxotada dos calçados em tapetes, ou antes de entrar nos carros. A água que mata a sede é gaseificada. O sol, não. O sol é o mesmo. Sempre.

… É basicamente isso.

Abraço fraterno,
Márcio N.

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