conto #78

novembro 29, 2009 § Deixe um comentário

27 Dentes

m.n.f.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS:

1. Como os sisos do autor jamais nasceram, ele deveria possuir em sua arcada o número exato de 28 dentes. Mas essa é justamente a história de como ele perdeu um deles, ficando com 27.

2. Não sendo esta, necessariamente, uma espécie de autobiografia do cálcio.

3. Em todo caso, se um dia o autor sentir o ímpeto de escrever uma autobiografia ele teria que ser um sujeito sobrenaturalmente imaginativo, uma vez que em sua vida nada aconteceu de extraordinário, tendo consistido a mesma até o presente momento em tais fatos: a) comer doces na infância até desenvolver diabetes, quiçá tratamentos dentários de canal; b) passar pela puberdade rodeado por garotas que trucidaram a sua auto-estima, geralmente escolhendo um orangotango a ele nas matinês de domingo; c) na idade adulta manejar o controle remoto da televisão como uma forma de reduzir a dor; d) e, por último, ser agredido fisicamente por um orangotango – um fim ridículo para uma existência não menos bizarra.

4. Essas são algumas boas justificativas para que até então o autor limitasse sua produção literária ao estudo intitulado de: “A Vida das Samambaias”, ensaio no qual é retratado venturoso ciclo de toda uma geração de pteridófitas, da densa e tenra mata a um vaso de cerâmica. Contudo, isso não chega a ser uma consideração, nem mesmo uma justificativa, mas muito provavelmente um comentário, o que ainda assim possui a mesma irrelevância e completo desrespeito ao tempo do leitor. Perdão pelo deslize.

5. O autor sugere que o texto seja lido da esquerda para a direita, descendo uma linha ao final de cada bloco de palavras, que devem ser associadas de maneira a compor sentenças gramaticalmente corretas. Isso não impede a leitura do texto de trás pra frente, o que pode ser bem divertido, principalmente se o leitor estiver sob efeito de um cogumelo que não lhe desceu bem.

6. Em determinado momento do texto autor gostaria de soltar a seguinte epígrafe: “Somos todos irmãos de sangue ou de miséria, mas invariavelmente irmãos.”, e vocês iriam dizer, ei, isso é profundo, ou então ei, isso não é profundo, e como isso aqui pretende ser bem rasteiro o autor preferiu deixar a frase de fora.

7. Preciso fugir, a polícia chegou.

Meu nome é Pedro, tenho 27 dentes. E, ainda que irmãos, primos, ou pelo menos compartilhantes de um código genético que tenha lá suas afinidades, sou incapaz de ver um orangotango com bons olhos. Nasci em 1982 e, imagino, esse é o meu ano atual ainda que quase trinta já tenham se passado, se é que de fato passaram por esses tempos parados cada vez mais parecidos com um homem que acorda no meio da noite pra beber água e simplesmente esquece o caminho de volta ao quarto, sendo obrigado a passar o resto de sua vida perambulando por uma casa vazia. (Hum, agora imaginem vocês a situação desse mesmo homem ao encontrar um fantasma a arrastar correntes pelo chão e que não tem mais nada a fazer do que assustar as pessoas, e como se não bastasse o pavor que lhe arrebatara a alma, este homem resolve puxar assunto com o espectro para quebrar o gelo que lhe congela estômago: “Com licença… O senhor poderia me informar o caminho de volta para o meu quarto?” – e o espectro responde: “Procuro por esse quarto desde os tempos em que eu era vivo.”). Em todo caso, como todo bom cidadão de classe média eu costumava ter as minhas ambições, ser dançarino profissional e poder sapatear Mendelson em um teatro lotado, só para citar minha vertente mais erudita. Ainda me recordo nitidamente daquele agradável jantar com A., em que pedimos uma pizza de alcachofras e rimos ao ver as baratas que comiam as migalhas que deixávamos cair no chão disfarçadamente (ela sempre adorou animais) e, com entusiasmo quase infantil interpretei o número em que salto pelas mesas da lanchonete e sou expulso como um ingrato sem ao menos cumprimentar a platéia, que parecia gostar do espetáculo não fosse o constrangimento generalizado. Desde aquela noite não mais vi A., ela foi embora aos prantos sem nem mesmo me dizer as outras letras do seu nome. A. nunca me entendeu de fato, em parte pela minha dicção precária, essa desvairada que insiste em me pegar naquelas horas onde tudo o que preciso é de um pouco de fluência, ou de um saco de pipocas que me serviriam de bom uso para distrair dessa vida louca, porque perder A. foi só mais um golpe do destino, a digna e confortável masmorra onde posso me dar ao luxo de ficar entediado, onde posso, inclusive, tomar isto como a minha melhor distração. Não há muito, tem uns anos, eu trabalhava na contabilidade de um Motel, uma modalidade mais lucrativa de restaurante onde é o cliente quem leva a comida, e no geral eu me ocupava com um jogo que consiste no participante mergulhar em si mesmo o mais fundo que conseguir, só para testar o fôlego. As mãos repousadas na mesa de homem sério, clipes e papéis, a vida passando entre as orelhas e eu imerso no meu jogo – e era o que eu fazia quando o orangotango invadiu o escritório. Eu tinha 28 dentes e não usava nem metade deles quando o macaco arrancou-me o molar, mas não sem antes fazer um discurso sobre alguma coisa da qual não lembro bem, mas que parecia muito importante ou ele não estaria com os olhos inflamados e as mãos cerradas, prontas para me acertar. Eu tentava inutilmente desviar a sua atenção, por isso apontava para as suas costas e dizia “Veja, atrás de você!”, ao mesmo que tentava me esquivar dos seus golpes; o animal era rápido e proferia socos violentos, de técnica invejável para um humano. As coisas ficaram, por assim dizer, bastante confusas. Retomando a consciência, o doce do sangue na boca, contentei-me ao ouvir os urros da besta a se distanciar, dando fim ao triste incidente envolvendo um orangotango e eu.

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