Bú!

novembro 2, 2009 § Deixe um comentário

Constatação da última semana: parece que o halloween foi mesmo incorporado ao ciclo de fuleiragens do brasileiro. Porém, mais assustador que o dos americanos é o nosso, uma vez que confundido com Carnaval, vira pretexto para tirar a fantasia mofada do armário. Ou então para sair do armário por completo, como foi o caso do grupo de oito ou nove rapazotes que achou uma boa ideia usar de traje fraldas geriátricas – o que, refletindo assim por alto, é nada mal se você considerar a fila do banheiro (ou péssimo, se você considerar o desespero do seu avô diante do furto). Outra fantasia, essa em cima da hora, foi a do amigo que comprou o uniforme de um frentista por trinta reais direto com o fornecedor – no posto de gasolina e a caminho do evento. O frentista, na ocasião de vender as próprias roupas, fosse talvez um dos que usavam fraldas, mas aí beirando o digno: por razões de necessidade. O halloween é um carnaval pobre. Um carnaval de terceiro mundo, eu diria. Mas, com apelo interessante, tornou-se boa propaganda para bares. Um deles em específico, freqüentado por cocainômanos em momento de profundo desespero pessoal, e com um atendimento tão deplorável quanto merecem os clientes, ao que parece organiza o halloween mais movimentado de Natal – o do Gringo’s. O segredo do sucesso é ser esse o lugar mais apropriado para uma festa que tem por tema a cultura do pânico – sentimento recorrente em mim sempre que ponho os pés no estabelecimento, vide regra em momentos de profundo desespero pessoal. Pelo que eu pude precisar, havia entre uma dúzia e três mil pessoas aglomeradas em uma praça, todas sem saber absolutamente o que fazer senão reproduzir um espírito carnavalesco forjado. Exemplo: uma enfermeira forjada rebola fogosa pela rua e autêntico Don Juan, devidamente calibrado, solta gracejo de dar inveja a Camões: “enfermeira, cuida deste coração sofrido”; ou talvez, chamego mais incisivo: “estou de pau duro, ma cherie”; o que provavelmente surtiria efeito melhor com a dama. Ano que vem, se tudo der muito errado e a moda vingar, repito a minha fantasia, que é de Deus, imagem e semelhança do homem – raridade nesses tempos de fraldões à mostra. A bem da justiça, hei de fincar, portanto, minha bandeira nas firmes tradições do Nordeste (quiçá desse brasilzão todo): nada como uma seresta da boa, o halloween da vida real, onde o que dá mais medo é a banguela da mesa ao lado sorrindo para você. Isso sim, é autêntico.

Abraço fraterno,
Márcio N.

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