Retiro

outubro 15, 2009 § Deixe um comentário

A propriedade da minha família ficava perto de um açude que quase nunca estava cheio. De modo que, na maior parte do tempo, a propriedade da minha familia ficava perto de um buraco. Quando o buraco enchia de água, eu gostava de nadar nele. Eu, os meus irmãos e as minhas irmãs. O meu pai e a minha mãe gostavam de ficar sentados em uma pedra na beira do açude. O meu pai às vezes nadava com a gente. A minha mãe nunca nadou, porque ela nunca aprendeu a nadar. Então ela ficava séria, olhando. Ela sempre estava séria e sempre estava olhando. A minha mãe era muito velha para ser a minha mãe. Era magra, e séria. Tinha a pele rachada feito as rugas que tem na terra. Quando a minha mãe ficava triste, ela chorava. Eu gostava de olhar para as rugas se enchendo de água e imaginar que eram rios, era bonito. Os primeiros rios que eu vi de perto foram os rios que eu vi de longe do alto das rugas da minha mãe. Onde a gente morava, quase não tinha água. Quando chovia, tinha. Mas a água ia toda para o açude e depois o açude secava. Um dia o rio da minha mãe também secou. Ela ficou triste e não chorou, e nunca mais chorou. A minha mãe só riu uma vez na vida dela. Eu vi quando foi. Ela gostava de olhar pra gente quando a gente brincava. Eu gostava de brincar com meus irmãos, minhas irmãs, meu carrinho e com o cachorro. O cachorro gostava de brincar comigo, meus irmão e minhas irmãs; mas gostava mais de brincar com as coisas que ele achava, como: galhos secos, lagartixas, caroços, galinhas e ossos. Um dia, olhando pra gente, a minha mãe riu. Ela riu, eu vi, ninguém mais viu. Ela tem poucos dentes, eu vi. No quintal da terra da gente, embaixo de uma árvore, é o lugar para onde vai todo mundo que morre. Um dia o cachorro fez um buraco embaixo da árvore e achou um osso. Depois, o cachorro também morreu foi enterrado embaixo da árvore com o dono do osso que ele pegou. O mundo é engraçado, às vezes. O padre disse que o cachorro, meu tio e Dona Fátima estão no céu. Eu sei que não, porque eu sei que eles estão embaixo da árvore igual a todo mundo. Quando eu morrer eu não quero ir para o céu. Quero ir morar embaixo da árvore pra brincar com o cachorro e ouvir Dona Fátima falar. Dona Fátima falava o tempo todo. Ela contava histórias que eu sempre prestava atenção no começo e depois não. Ela ficava mexendo a boca e eu ficava pensando em outra coisa. Um dia pensei que Dona Fátima era muito vermelha, igual ao galo que a gente tinha. Ela tinha pelancas embaixo do pescoço, igual ao galo que a gente tinha. Dona Fátima parecia muito com o galo que a gente tinha. Mas o galo só falava de manhã cedo, e Dona Fátima falava o dia inteiro. Um dia o meu tio disse que não gostava de Dona Fátima porque ela falava muito. O meu tio não gosta dela, mas agora está com ela. Eu gosto dela mais do que gosto dele e menos do que eu gosto de Maria, a minha irmã pequena. Maria tinha a barriga grande e redonda e ficava sempre em pé do lado da minha mãe. Ela não gostava de ficar do lado do meu pai por causa do cachimbo que o meu pai fumava. Uma vez eu fumei o cachimbo do meu pai. O cachimbo tinha o mesmo gosto do cheiro, ruim. Não sei porque o meu pai gostava dele. Mas ele gostava. O cachimbo do meu pai era de madeira e tinha um nome escrito nele: Manuel. O nome do meu pai é Francisco. Manuel era o nome do antigo dono do cachimbo. Depois, virou o nome do cachimbo. O cachimbo era a coisa que o meu pai mais gostava na terra. Eu sei disso porque uma vez eu escondi o cachimbo, e ele ficou nervoso. Quando o meu pai ficava nervoso era estranho. Ele andava de um jeito estranho, dizia coisas estranhas e fazia coisas estranhas. Naquele dia, ele fez uma das coisas mais estranhas da terra: um cachimbo. O cachimbo que o meu pai fez era um cano tampado de um lado e aberto do outro. Não ficou bom, eu disse, ele concordou. Outras coisas estranhas que o meu pai fazia: jogar baralho sozinho, pintar pedras de colorido, conversar com o cachorro, caçar. Eu gostava de sair para caçar com ele, era bonito. A gente andava guardando o barulho e depois a espingarda soltava o barulho todo de uma vez. Atirávamos em avoetes, rapousas, preás, cutias, anuns, carcarás, tatus. O meu pai falava mais com o cachorro do que falava comigo. Eu falava mais com o meu pai do que falava com o cachorro. O cachorro não falava com ninguém, porque não sabia falar. Falar com o meu pai era uma coisa estranha que eu fazia, estranho como meu pai quando fala com o cachorro. Assim eram as caçadas. O cachorro, o meu pai e eu. Depois das caçadas a minha mãe servia as avoetes no jantar. Como tinha muito osso, eu não gostava. Como tinha muita avoete no osso, o cachorro não gostava. Mas comer, ele comia, embaixo da mesa, em cima dos meus pés. Fazia cócegas. Um dia o meu pai ficou nervoso quando me viu dar a avoete para o cachorro. Bateu na mesa, disse um palavrão e acendeu o cachimbo. Quando meu pai batia na mesa, eu ficava nervoso pouco. Nervoso muito, só fiquei uma vez na vida. Foi quando meu irmão bateu em Maria. Eu bati nele, o meu pai bateu na gente, e tudo se resolveu. O nome do meu irmão era Pedro. Ele tinha o rosto enferrujado, era triste, por isso. A gente achava a ferrugem engraçada. Uma vez ele quis tirar a ferrugem com sabugo de milho, que esfregou, esfregou. Não deu certo. A cara dele ficou arranhada e vermelha. Vermelha igual ao galo que a gente tinha, vermelha igual era Dona Fátima. Sarda não sai, a minha mãe disse, sarda era a ferrugem na pele. Ficou com vergonha o meu irmão, e corou. Abriu a boca vermelha, e vermelho foi o choro que ele chorou. A minha irmã gostava de rir, por isso ela riu. Foi nessa hora que o meu irmão bateu na minha irmã. Depois aconteceu o que aconteceu, e tudo se resolveu. Naquele dia a minha irmã apanhou uma vez, foi do meu irmão. Eu apanhei uma vez, foi do meu pai. Mas o meu irmão apanhou três vezes: de mim, do meu pai e do sabugo de milho. O meu pai apanhou nenhuma vez, porque nunca apanhou. Eu tinha pena do meu irmão, às vezes. Igual a tinha pena de Maria, que era pequena. Para Maria que era pequena, o mundo era grande. Mas o mundo vira pequeno, quando Maria é grande. Era por isso que o meu pai era nervoso e a minha minha mãe era séria. O mundo deles encolheu, virou o mundo mais apertado da terra.

(fazendo…)

– dilúvio, pangéia, placas tectônicas, ilhotas – alto da igreja, casebres, vacas nadando, sapos. piadas da Lagoa – sapinho.

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