conto #01

outubro 1, 2009 § Deixe um comentário

A obra do Moura
M.N.F / 2002 ?

Até hoje, as pessoas ainda não sabem ao certo o que levou o Moura a construir seu próprio túmulo. Mas, como narrador e coadjuvante, posso lhe contar em primeira mão o ocorrido. Em meu ofício, procuro conhecer bem os clientes antes de atendê-los; um tributo pessoal, que faço, simplesmente, para o alívio da minha consciência.

Moura era um homem taciturno, que levava no rosto a marca de 66 anos que poderiam ter sido e não foram. Sem filhos, dedicava seu tempo ao Sebo da Praça, onde era proprietário e administrador. Nunca foi de estender as conversas com os clientes, mas os tratava bem, falando sempre que necessário. Geralmente apontava um there enrolado para indicar onde estava aquele LP original dos Mutantes que o gringo procurava. O Sebo da Praça, que tinha esse nome nem eu mesmo sei bem por que, ficava em uma avenida movimentada. A boa localização do ponto, aliada à diversidade de títulos raros, compusera uma boa fama ao lugar. Alguns transeuntes entravam na loja pelo simples entusiasmo de ver de perto as figuras excêntricas que freqüentavam a casa: pseudo-filósofos, universitários, cults, menininhas místicas, escritores, colecionadores, inúteis em geral… era, por assim chamar, um reduto de pessoas inseguras que encontravam na erudição a chave para compreender problemas existenciais estilo livros de auto-ajuda.

Em um dia qualquer, Moura teve interrompida a sua leitura diária do Aurélio para ouvir um marxista mencionar algo sobre uma placa publicitária que havia em frente ao sebo, e que até então era invisível. Esse outdoor é a gota d’água. Interagia o marxista, insatisfeito como sempre e dando ares de que iniciaria dali um discurso engajado, anti-consumo. Moura se levantou da cadeira e foi à porta para entender do que o homem falava. Era melhor ver o outdoor ele mesmo do que gastar os tímpanos com as divagações do cliente. Nunca foi de dedicar muita fé a publicidade, ou a um marxista, principalmente depois que se feriu gravemente com um absorvente masculino anunciado no Pasquim.

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Cemitério Parque Morada da Paz.

Visualmente, era ainda mais terrível. Havia, no centro, um homem caminhando entre pirâmides. Essa imagem produziu insights na mente do Moura, seguindo a seguinte seqüência: pirâmides – Oriente Médio – turbante – tantra – tela escura – múmia atraente – tela escura – cigarro – café. O que o levou à nona xícara daquela manhã. Enquanto soprava o café, um hábito antigo que tinha o intuito de preservar a integridade de sua língua, pensava no significado do anúncio que, apesar de mal diagramado, tinha uma boa sacada, levando a uma rara reflexão: A morte, assim como o descontrole intestinal que segue uma feijoada, era sua única certeza. Investir em um negócio garantido não lhe parecia má idéia, mas o aterrorizava considerar mais seriamente o inevitável fim. Cairia nas entranhas do esquecimento em pouco mais de um mês (ou uma semana, o que viesse primeiro). Getúlio, ao sair da vida, entrou para a História, mas e o Moura? Sairia com uma mão na frente e outra atrás. Não possuía filhos, nunca plantou uma árvore nem escreveu um livro, nunca realizou um grande feito, nada. E o Sebo da Praça, nesses tempos, já não passava de ponto de encontro de decadentes. Até aquele momento, a posteridade estava fora dos planos do Moura.

Pensa, arrota… Pensa. Um memorial. Era isso que ele precisava. O velho Moura teria o melhor túmulo que um defunto poderia receber. Quando as pessoas olhassem para sua lápide, pensariam: Aí está um grande sujeito. E sua alma riria baixinho (para não assustar) da peça que pregara.

Uns quinze dias se passaram para que nosso homem decidisse investir na obra. Para entrar na história, mesmo como figurante de cemitério, era preciso dedicação. Após uma vida de decepções, chegava agora o seu momento. Nem mesmo o Papa teria um túmulo tão sofisticado. Revestido em granito, com capelinha, ambientação estudada por arquiteto, estatueta na entrada, música ambiente, tudo nos conformes para a eternidade. Além de tudo, era um homem prevenido, e, ante a possibilidade de ser enterrado vivo por uma trapalhada qualquer, teria um dispositivo para sair do caixão, e, como segurança nunca é demais, havia um bolso com uma caneta e algumas edições de palavras-cruzadas que lhe ajudariam a passar o tempo caso o dispositivo não funcionasse. E assim, mergulhado em planos, Moura prosseguia com empenho. Na hora do almoço, sempre arrumava um tempinho para dar uma passada no cemitério a fim de acompanhar o trabalho dos pedreiros, incrementando novas ideias sempre que possível. Um dia, cismou que queria instalar um cuco para berrar seu nome a cada hora, mas, advertido pela administração do cemitério, acabou por desistir da idéia. Era um empreendedor.

Lembro-me bem do dia que me viu bem de longe no cemitério, toda de preto. Lá está ela, a velha, só na espreita… sai pra lá, aquieta o facho disgramada. Brincou, pensando que minha imagem se tratasse de um devaneio qualquer. Sempre que tinha tempo, entre uma atividade e outra, eu me empenhava em estudar meu próximo cliente. Moura era um homem taciturno, que levava no rosto a marca dos 66 anos que poderiam ter sido e não foram. Sem filhos, dedicava seu tempo ao… ah, eu já disse isso, e, reavaliando, vejo que posso fazer uma breve correção. O nosso homem não era mais triste. Agora seu rosto transpirava satisfação, reluzindo vida. Moura estava feliz como nunca, fiquei até triste ao constatar isso (melhor trabalhar para infelizes, assim meu serviço é mui mais útil). Ainda na décima sétima prestação do terreno, sua obra já passava pela fase de acabamento. Parecia até que adivinhava.

Em fim de tarde e como de costume saiu da loja para ir ao cemitério. Neblinava uma chuva que de tão leve e fina parecia neve, era o grande dia, e tudo estava pronto. Havia uma escada, deixada para que ele conferisse o revestimento especial aplicado na cobertura da capelinha. Ao subir na escada, Moura tremia de tanto entusiasmo. Estava tão radiante que eu quase cedi, mas quem cedeu primeiro foi a escada, deslizando sobre o mármore molhado e lançando o Moura ao solo com violência tal que o chão desabrocharia como uma flor para que ele descesse direto para o inferno. Dei meu sopro no ouvido do Moura. Nos décimos de segundo que antecederam o impacto, Moura sentia a minha presença. A danada, pensou, assistindo ao manjado flashback da vida, desde o nascimento até a despedida sem grandes curvas na trajetória. Filosofou, descobrindo o significado da da vida. Em matéria de mim mesmo... E interrompi o pensamento daquele nobre homem pela metade. Calei-o, de forma que continuasse sendo o velho Moura, que entrou para a história.

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