Homem de Firme Destino – Capítulo 17

maio 8, 2009 § Deixe um comentário

Versinho popular: “Abre as janelas e deixa a esperança entrar na tua casa trazida pelo vento da tarde.” Mais um capítulo sem sentido do HdFD.

Abraço fraterno,
Márcio N.

 

CAPÍTULO XVII
(aprendendo a voar num dente-de-leão)

               Algumas histórias os ventos nos trazem; outras, devemos ir nós mesmos atrás delas, montados na corcunda do próprio vento. Descruzemo-nos os braços, pois, para partirmos em busca de mais um extraordinário causo do Homem de Firme Destino; utilizando, em tempo, um dente-de-leão comum de peso e aerodinâmica adequados. Essa magnífica plantinha nos servirá de meio de transporte, a carregar a todos nós através de uma corrente expressa de ar, a rota do acaso de todos os perdidos. Um empreendimento dessa natureza, donde são incertas as condições da viagem, deve se iniciar com um planejamento cuidadoso. Devemos-nos antecipar a qualquer infortúnio – se não para evitá-lo, ao menos para não sermos pegos de surpresa, e, munidos de esperança, procuremos assim um vasto campo de flores de dentes-de-leão, onde a ampla oferta de espécimes possibilite a escolha da melhor nave. Como sabemos, não existe melhor lugar para plantas de qualquer espécie do que as paragens de solo fértil; e qual solo seria mais fértil que o de um cemitério de uma cidade violenta, via de regra e de hábito excepcionalmente bem adubado, a fazer brotar com vigor a vegetação que tem na morte dos outros o seu estrume? No reino dos defuntos, então, convém habituar-se aos percalços da vida. Viagens em dentes-de-leão são, na maioria das vezes, empreitadas excepcionalmente seguras; na medida, claro, que a própria segurança se torna uma exceção: os vôos são, quase sempre, um desastre completo. Despeçamo-nos dos parentes e amigos, portanto; acomodemo-nos agarrados uns aos outros em desespero sadio, e nos façamos tripulantes acreditados de muita fé em uma jornada para além das possibilidades. Cardíacos e sensíveis, congratulem-se como bons companheiros que são ante a chance de seguir o mesmo destino dos aventureiros lançados por solavancos tremendos para fora da nave, quando mergulham eles na escuridão eterna. Animem-se, pois, que não há razão para o pânico, e mui esperançosas são as estatísticas: uma Nave Dente-de-Leão, quando comandada por escrivão experiente, pode assegurar que ao menos uma dúzia de tripulantes chegue ao destino em segurança – contando, aí, o próprio escrivão – dos mais de trinta que embarcaram na missão cientes (mas não totalmente convencidos) dos riscos ofertados pela viagem. Pois bem, posta a limpo a situação, podemos passar para a etapa seguinte – com seu consentimento, obstinado leitor, e sob sua total responsabilidade.

DECOLANDO

              Estamos precisamente ao lado da lápide de um certo Epaminondas III, cujo epitáfio de letras charmosas muito nos inspira: “Aqui jaz um fracassado”, neste hospitaleiro e excepcionalmente bem adubado cemitério metropolitano, cujo ambiente, impregnado de uma atmosfera mística, enaltece o espírito de maneira peculiar – o canto dos pássaros se misturando aos estampidos dos tiros de uma favela próxima. O cemitério é, além de um cemitério, um vasto campo de dentes-de-leão. Escolhemos aquele de melhor aparência, que brota firme com a ajuda dos sais cedidos pelo bom Epaminondas III, em natural processo de fertitilzação. O vento sopra, abastecendo a nave de energia, e nos lança ao ar. Agarramos-nos a um dos pequenos para-quedas que compõem o conjunto de sementes que se disseminam com o vento. Alguns leitores despencam às migalhas, e findam a se esborrachar no solo que é agora a casa de cada um deles; os que permanecem a bordo da Dente-de-Leão seguem em direção contrária, para cima e cada vez mais para cima – de modo que, a essa altura, já sobrevoamos as lápides a uma boa distância do chão, deixando para trás o bom Epaminondas e seus colegas do cemitério – os mortos sentindo saudades dos que vão embora – e nós, o coração na garganta, seguimos com alguma ansiedade e demasiada instabilidade pela Corrente Expressa de Ar. Ela sopra em direção ao sul, e sempre para o sul, onde mais à frente marcha com segurança e em terra firme o Homem de Firme Destino, um passo atrás do outro, com larga e notável vantagem.

Leitores na decolagem: 36
Leitores depois da decolagem: 15

***

Outros capítulos, aqui.

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