Roleta-Russa _continho desportivo

abril 29, 2009 § Deixe um comentário

Escrito só pela estranheza da idéia, mesmo.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Confissões de um vencedor

m.n.f. / 09

Eu ocupava o lugar mais alto do podium, que estava vazio exceto por mim, ao término do estimado torneio desportivo, a Copa do Mundo de Roleta-Russa. Venci cento e tantas rodadas, assisti ao tombo de ao menos duas dúzias de adversários diretos; sem contar os outros tantos que sucumbiram pelo caminho nas demais chaves do campeonato. E posso lhes garantir, senhoras e senhores, que foi um espetáculo. Uma das partidas mais emocionantes, recordo bem, foi aquela que durou aproximadamente três horas sem que fosse efetuado um único disparo. Tantas vezes os  adversários puxaram o gatilho que seus dedos tremiam mais de fadiga do que pelo nervosismo, a agulha nunca encontrando a bala – em determinada hora, porém, e com os nervos já não mais suportando a tensão, o juiz interveio carregando o revólver que, como constatou, estava vazio de munição. A iniciativa levou um dos participantes a abandonar a partida, e, o outro, impaciente que estava, não pôde fazer outra coisa senão atirar às costas do primeiro, que fugia correndo. A arquibancada, antes silenciosa e apreensiva, nessa hora foi tomada por um colorido alegre e todos reagiram animadamente; arremessaram flores brancas, vermelhas, e não se sabe se festejavam a vitória de um ou lamentavam derrota do outro, e como vibraram os torcedores. Este é um esporte para poucos: a cada dois jogadores apenas um mantém a cabeça no lugar – os derrotados espalham-na pela parede ou pelo chão; são péssimos perdedores, como dizem, quando o sucesso de um é invariavelmente o fracasso do outro, e esse é o espírito do esporte. De todo modo, atletas do mundo inteiro se reúnem para a disputa dos jogos travados sobre a encarnada neve de São Petersburgo, a capital da roleta-russa, num intervalo de dois e dois invernos – tempo necessário para que as delegações possam repor as baixas da última edição e realizar o treinamento das equipes – nessa parte, o treino, há um fato curioso: tradicionalmente, o atleta vencedor é utilizado em benefício do seu país de origem, selecionando ele próprio os atletas de melhor desempenho; atividade das mais desgastantes: a certa altura o vencedor será fatalmente derrotado por um iniciante, que de imediato passa a posição de líder nas próximas etapas da classificatória; a partir daí, todos saem atirando contra a própria cabeça e o que sobreviver será o representante do seu país na competição. Não se tem registro de um único campeão que tenha competido duas edições do torneio – da participação recorrente de fracassados sabe-se de apenas uma, um homem perdeu a metade do cérebro num ano e, na edição seguinte, foi-se o outro hemisfério – há de convir que apesar de pouca vocação para o sucesso, o infeliz, duplamente derrotado, era obcecado pela vitória. Tentou, tentou, e não desistiu – mas deveria. De certo, são conhecidas algumas das razões para se tornar vencedor: o torneio, televisionado neste e em outros continentes, é um dos mais populares do globo, e ao término de cada edição, eleva um homem comum à categoria de ídolo; o escolhido goza de instantânea popularidade, é reverenciado nas ruas como eram antes os reis, e, dado o temperamento expansivo dos amantes do esporte, acontece ainda de ser alvejado por disparos de atiradores anônimos – o que, no entanto, é considerado um fim digno à alcunha de herói (ao menos na opinião do atirador escondido na multidão). E assim a conquista individual é comemorada em grupo, e o vencedor saudado por aqueles que nunca ganharam coisa alguma. Nas tabernas, o vencedor tem seu nome ovacionado por senhores de narizes vermelhos cheirando a vodka; seu glorioso nome ecoa pelos bares, e os senhores, de porte de uma pistola descarregada, reproduzem com muito empenho os lances memoráveis da partida. Mas, quando a vodka bate muito forte, há sempre o risco de alguém negligenciar a retirada das balas da pistola, o que ocasionalmente leva o fã ao invés de reproduzir as jogadas do campeão, a prestar derradeira homenagem ao derrotado – uma humilhação desnecessária, e bem-vinda ainda assim, já que ao derrotado nunca ofereceram nada além de flores. Tem ainda aqueles que, embora descarregando a arma das balas, descarregam-na nos freqüentadores da taberna com saudosos disparos em estupor hipnótico. Este é o mundo da roleta-russa e o de qualquer esporte conhecido. E, em consideração a vocês, cuja vitória nunca se fez presente, eu, nunca tendo amargado uma derrota, prestarei minha homenagem com uma exibição gratuita de espantoso talento na modalidade que me rendeu fama e glória. Pois bem, deixe-me girar o tambor… isso… agora eu vou ………………………………………

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