Ataulfo Desmembrado

abril 15, 2009 § Deixe um comentário

Comovente fim de Ataulfo Desmembrado

M.N.F / 2011

Quando Ataulfo acordou deu por falta da perna esquerda. Havia sido cortada, se é que fora realmente cortada, à altura da coxa – ao que parece, uma incisão perfeita. Uma inspeção cuidadosa revelaria a inexistência de qualquer ferimento, marcas ou cicatriz; como se desde o sempre jamais existisse ali perna ou coisa parecida, somente a protuberância mínima em forma de punho fechado e medindo pouco menos de um palmo de cumprimento. Confuso encontrava-se Ataulfo naquele estado em que, acabando de acordar, não tinha ainda despertado por completo; um aditivo ao tormento perfeitamente cabível à natureza inóspita do acontecimento. Configurava-se, assim, uma confusão mental completa. Considerou, esperançoso, a possibilidade de ser aquele um sonho de muito mau-gosto. Belisco-se, deu tapinhas no próprio rosto; primeiro devagar, depois com mais empenho. Foi a tal ponto na tentativa de escapar do pesadelo ao qual estava confinado que passou a esbofetear a própria cara; com força tamanha que não espantaria se, além da perna, perdesse ali mesmo a cabeça que poderia muito bem sair rolando pelo quarto ante a violência dos golpes. Quase isso. A cabeça foi o que perdeu, em sentido mais figurado, quando, apalpando a face dolorida, encontrou somente uma superfície plana e macia qual uma nádega. Imaginem vocês o desalento que sentiu Ataulfo ao constatar a perda também do nariz – o único que tinha. Foi um arremate cruel. Assustado, saltou da cama sem ao menos atentar a perna ausente, que, noutros tempos, lhe garantia o equilíbrio que faltaria no instante seguinte – de maneira torpe e desengonçada, girou num compasso antes de estatelar os ossos no chão, sonora e dolorosamente; arrastou-se na extensão do quarto, tão inconformado quanto perplexo, esbravejando com aquela voz nasal de alguém que fala com o nariz tampado (ou mesmo, de alguém não tem um nariz), e, agarrando-se furiosamente a um guardachuva de estilo inglês que muito veio a calhar, improvisou com ele uma bengala e pôs-se de pé quase com dignidade. Ataulfo partiu dali em direção ao banheiro – primeiro mancando decidido, vacilante logo mais, quando de frente para o espelho. Entre a boca e os olhos havia um vão imenso a ser preenchido. Sem o nariz para lhe conferir equilíbrio às feições, o rosto parecia não mais o de a uma pessoa. Era a fisionomia de um animal estranho, de aspecto dócil, até: uma caricatura humana de um desenho animado que, olhando bem, lembrava um boneco da Lego – amarelo sempre foi, mas sem nariz… isso não. Ante pavorosa figura, o nauseado Ataulfo lançou-se para trás abrupto. Foi um choque. Sentindo as mãos formigarem e um frio na barriga de estralar os ossos (incluindo aí o de galinha que desceu acidentalmente no jantar), com curiosidade e pavor aproximou o rosto ao espelho, e de perto avaliou o rastro deixado pelo nariz fugidio. Ou ainda, a ausência de qualquer rastro. Identificou, contudo, um padrão: era aquela incisão, assim como a da perna, perfeita. Sem ferimentos, marcas, nem cicatriz. Em resumo, sem explicação.

***

Chegaram em casa acompanhados do médico da família. O mais preocupado era Seu Pereira, o pai, alternando seus pensamentos entre o destino do filho, as atribulações e pendências na firma e a desolação admirável da esposa. Bem verdade era a de que, no fundo, não estava tão preocupado assim com a preocupação toda – visto que preocupar-se era somente a conduta normal e mais apropriada para a imagem de decência e austeridade, tão necessárias ao papel de homem sério. Preocupado, portanto, estava tranqüilo. Dona Florência, por sua vez, fazia o da matriarca sofredora, de maneira tal que ao menor alerta assumia uma expressão vazia de perda irreparável. Melindrosa, não sofria tanto quanto aparentava, e pelo contrário: gostava. Sentia-se mais respeitável e bondosa, e quanto mais quisesse sê-la, mais chorava. Era católica praticante. Doutor Tomás, o médico, ocupava-se de tranqüilizar a família e para isso conjeturava com seus botões um laudo tenebroso, anunciado somente dali ao anoitecer, durante o jantar. O fato é que as roupas de Ataulfo foram encontradas perto do portão, onde ficavam as pimenteiras.

***

Ataulfo estava mais para moço do que para velho, não sendo no entanto nem uma coisa nem outra. Era imberbe, mirrado e extremamente tímido. Sua aparência atribuía à personalidade avoada um semblante ainda mais infantil e, portanto, de total descrédito. Não fosse por isso, quem sabe, tivesse sido outra a providência imediata tomada por Doutor Tomás, médico da família, ao telefonema do amedrontado Ataulfo. O médico atendeu sério, rotundo, assumindo uma expressão grave quando ouvia em silêncio as tentativas de Ataulfo em esclarecer, no tom mais sóbrio e plausível que conseguia encontrar, como havia sem qualquer explicação razoável sido destituído de perna e nariz – assim, do nada, em sua própria cama. O resultado como se pode imaginar foi desastroso. Havia ainda o problema com a dicção, terrível, comparável somente a de um gago falando grego embaixo d’água. Freqüentes ainda eram as manifestações espontâneas de euforia, quais palavrões cabeludos, respiração ofegante, frases atropeladas, desconexas, berros e urros alucinados ou chorosos. Ataulfo estava, na melhor das hipóteses (e a exemplo das exiladas partes do seu corpo), completamente fora de si. Constitui-se, assim, o mais curioso telefonema recebido por Tomás em toda a sua carreira como médico e como homem.

“Ataulfo, seus pais estão em casa?”
“Não”
“Quando alguém chegar, diga para me ligar.”

***

A casa era rodeada de um bonito jardim caprichosamente bem cuidado por Dona Florência, a mãe, mulher de inegável competência na arte de cultivar ambientes familiares utilizando vegetação exótica. Havia no jardim plantas frutíferas e ornamentais, quais orquídeas, pimenteiras, um pé de acerola, um limoeiro, couve, capim-santo, hortaliças, trepadeiras; brotando no fértil solo revestido pelo gramado por onde Ataulfo se arrastava sofregamente, ao modo dos soldados abatidos num campo de batalha. Estava sem a perna esquerda, sem o nariz e nessa contagem subtraía-se ainda um braço – o direito. Ataulfo, o discreto e mirrado rapaz, não parecia mais tão retraído. Gritava com toda a força dos pulmões que, ao que tudo indica, ainda estavam lá. Em compensação, sem nariz, braço e, alto lá, agora sem as duas pernas, estava àquela altura tão mirrado quanto jamais esteve. Era um pedacinho de homem a se arrastar pelo chão – inserido na horta de Dona Florência, parecia um saco de batatas em fuga. Com algum esforço girou o que restava do corpo, e lá permaneceu: a barriga para cima, as costas deitadas no gramado, um tronco somente. Fazia um dia claro, e sob o céu azul de nuvens brancas, as folhas das pimenteiras balançavam suavemente.

 Natal,  14/04/2009

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Ilustrado por Elsita.

Abraço fraterno,
Márcio N.

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