conto #09

janeiro 7, 2009 § Deixe um comentário

OUAGADOUGOU
m.n.f., 07/01/2009

Jonas, 54, 98 kg, 1,74 m, heterossexual, divorciado, 1 filho (este, homossexual), graduado em administração, especialização em marketing, ex-goleiro de futebol de salão amador pela equipe da Saldanha & Associados, adepto do implante capilar, considera-se feliz. Eis que particularmente feliz ficou quando num 19/10, aniversário de Alfredo, o filho homossexual, Jonas, sentado numa praça, preencheu a última coluna do Almanaque de Palavras Cruzadas, edição ouro, ao descobrir ser Ouagadougou a capital de Burkina Faso, na província do Kadiogo. Foi o que lhe disse um conhecido, Seu Astolfo, professor de Geografia que nutria muita simpatia pelo jovem Alfredo, um bom rapaz, dizia, lembrando de como tivera seu pênis apalpado por ele quando solicitado: Ouagadougou. Mais tarde, distante o suficiente para que esquecesse o tal dia, Ouagadougou foi uma das palavras que saltaram da boca de Jonas quando surpreendido por um bicho no quintal de casa, uma lagartixa entre os dentes do animal: Ouagadougou, porra de gato fodido. Deste modo, de repente, com um nome vindo de um compartimento escuro e úmido da memória de Jonas, o bichano foi batizado. Ouagadougou era, então, não mais uma cidade africana dos seus 997 mil habitantes. Era um bicho magro, preto, de cabeça desproporcional e rabo quebrado, cascas de ferida na orelha e um par de olhos amarelos que pareciam duas tigelas vazias –  então, Jonas servia Ouagadougou de leite e enchia as tigelas vazias de alegria. Ouagadougou aparecia de quando em vez, chegava com fome e saía de barriga redonda. E assim, dia após dia, uma rotina foi se estabelecendo. Quando não vinha, Jonas lembrava de todos os gatos atropelados do mundo, ou daquele dia em que sentiu um trepidar brusco na estrada, um montinho miúdo na escuridão sem fim do retrovisor. E assim era Jonas: mergulhado em pensamentos sombrios quando dava pela falta do gato. Então, ouvia um miado esgarniçado, as duas tigelas vazias pedindo leite, e lá estava ele, Ouagadougou. Assim seguiam, Jonas, Ouagadougou, os dias e as noites, os intervalos entre as visitas diminuindo. De tal modo, que não custou para que passasse mais tempo em casa do que na rua e, consensualmente, passasse a ser tratado por “Gudu”, uma pronúncia mais amigável para Ouagadougou. Não tão consensualmente, talvez, porque aqui nos referimos a ele pelo nome inteiro, leitor, com alguma reserva.

Mas saiba que agora mesmo Ouagadougou rorona sobre a coxa esquerda de Jonas, que balança na cadeira de balanço – o mundo balançando, balançando feito a maré: o céu azul, subindo, os fios dos postes, a rua morta. O silêncio é quebrado quase nunca. O sino do caminhão do gás, um carro ou outro que cruza a rua, o chiado no paralelepípedo parecido com o da chuva caindo. Tudo devagar, devagar, devagar… O sol desce assim, devagar, e por trás da cigarreira o céu vai se pintando laranja. Jonas puxa assunto com o gato. Vamos fugir para o interior, Gudu, só eu, você e a estrada. Ouagadougou estica as patinhas com preguiça mostrando as unhas, e volta a dormir. Jonas se balança na cadeira de balanço, que balança o mundo com ela. O céu laranja, subindo, os fios dos postes, a rua morta. O vai e vem da cadeira é como o vai e vem do mar. A maré está calma, hoje. Jonas não consegue lembrar qual foi a última vez que teve uma conversa decente com o filho Alfredo. O menino bem ali, não tão bem, deitado no sofá com o nariz antipático enfiado em Dorian Gray, o ar mais indiferente desse mundo. Virou tão estranho quanto íntimo. Ele poderia estar na casa da mãe, mas não. O rapaz gostava mais dela, isso era nítido, porque ele dizia: gosto mais dela. Acontece que, num dia qualquer, decidiu morar só – assim, do nada – sem emprego, sem dinheiro. Foi morar sozinho, sozinho com o pai. Ouagadougou, de início, fez o mesmo: apareceu para morar sozinho com eles. Mas, agora, o único naquela casa ainda a viver só era Alfredo. Cai a noite. A cigarreira fecha, as cigarras cantam, o cigarro acende. Ouagadougou, que podia facilmente dormir 20 horas por dia, bate o próprio recorde e não interrompe o sono nem quando solta um espasmo de contrair os bigodes. Sonhava correndo de um cachorro, atrás de um rato, ou com qualquer coisa. Está escuro. Completamente, não fosse pelo claro dos postes. Jonas pensa em levantar da cadeira e acender a luz. Se mexer a perna, acorda o gato. Pensa melhor, deixa como está. Alfredo dorme. Está coberto, o menino. Tudo está calmo, calmo como uma maré calma. Jonas olha para a lua, subindo, os fios dos postes, a rua morta.

Δ * Δ * Δ

:)

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