As Pérolas do Coveiro _instruções para enterrar defuntos

outubro 6, 2008 § 2 Comentários

Uma correspondência de Chico Moreira Guedes acaba de chegar do leste trazendo mais uma de suas traduções. O texto, ainda sem versão oficial em língua portuguesa, e portanto inédito, integra uma coletânea de contos húngaros a ser lançada em meados de 2009 pelo próprio.
† “Leiam sem pressa de chegar ao fim, que é como se deve levar a vida antes de tudo ser aplainado sobre nós.” – O Coveiro.

Abraço fraterno,
Márcio N.

AS PÉROLAS DO COVEIRO
Dudás Attila, 1968

      Conheci um coveiro, disse-me uma vez o senhor Alcachofra, cuja altura era exatamente a mesma que a fundura de uma cova: um metro e oitenta e nove. Pois a lei estabelece que todas as covas devem ter exatamente essa profundidade. O nosso homem (cujo nome não revelarei, pois, por um motivo ancestral inescrutável, não nos é permitido saber o nome daquele que deixará tudo bem aplainado depois de nós) era, em resumo, o melhor coveiro que jamais vi. Destacava-se dos demais, e, santa verdade, não apenas por sua estatura. Em meio aos pranteadores encurvados pela dor, ele parecia positivamente enorme, quase um gigante. Seu trabalho (que não se ensina em lugar nenhum – é preciso nascer com o dom de coveiro), ele executava de maneira verdadeiramente especial, pois sempre media as covas pela sua própria altura. Podemos afirmar tranqüilamente, portanto, que, de certa forma, ele, em realidade, cavou sua própria cova a vida inteira.
      E como amava a terra!
      Sobretudo aquela argilosa e bem escura, pois tinha a santa convicção que foi com essa terra argilosa que o Senhor Deus modelou o primeiro homem-de-lama, e exultava em saber que da mesma matéria formadora do homem, podia fazer o leito para o seu honroso suspiro final. Esta terra negra, repetia sempre, é “divinal, é o que digo, divinal!”, e em meio ao trabalho gostava de provar da terra “divinal”, pois nenhuma outra tinha um gosto tão bom como o dessa pura terra negra. Estava firmemente convencido de que mesmo para além do túmulo era preciso buscar o melhor; ou seja, não é indiferente, em absoluto, o sabor da terra de que nossa boca estará cheia décadas depois da nossa morte. Exatamente por isso apreciava menos os solos pedregosos, pois esses, ele, fazendo uma careta, considerava “imprestáveis” para o paladar humano. O solo arenoso, por sua vez, ele francamente não podia suportar, porque em sua opinião, esse tipo de terra simplesmente “escorria como a vida entre os dedos do homem”, e no final, nosso próprio túmulo podia ruir sobre nós, “como uma espécie de pesado firmamento negro”.

      Bem, mas ele não era o melhor dos coveiros apenas devido ao seu amor pela terra. Mas sim, por causa de suas pérolas! Porque todos os coveiros ganham o pão com o suor do seu corpo; e eu me admirava de como suas gotas de suor escorriam para a terra negra. No caso do nosso comprido coveiro, no entanto, escorriam-lhe pérolas não apenas da fronte, mas também dos olhos. À medida que envelhecia, pranteava continuamente os mortos, embora geralmente não os conhecesse.  Em pé, no seu palco por cima da cova, segurando a pá como um barqueiro taciturno que remasse, o velho coveiro empurrava a terra sobre o caixão, enquanto as lágrimas vertiam silenciosamente dos seus olhos. Primeiro uma única lágrima deslizava pela sua face sulcada, imediatamente dissolvida num sorriso que a inundava; depois daquela, seguiam-se outras, desenhando caminhos caprichosos no rosto empoeirado, então se misturavam com suor e escorriam para o chão, e para a cova, como verdadeiras pérolas; assim suas lágrimas eram também enterradas com os defuntos. Os parentes, por sua vez, aliviavam-se gradualmente da dor, admirados com as trilhas brilhantes das lágrimas na velha face enrugada do altíssimo coveiro.
     Pois fiquem sabendo: as lágrimas do coveiro são o sal da terra, disse o senhor Alcachofra, e uma lágrima solitária partiu-lhe do olho em direção à boca.

[Traduzido por Chico Moreira Guedes]

* † * † * † *

Fotos de Natalia Sahlit. Para ler outra tradução, clique aqui.

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