Mossoró _a primeira chocadeira de alienígenas do semi-árido

setembro 22, 2008 § 8 Comentários

Caros conterráqueos,

habitando este luxuoso orifício incrustado na costa do Atlântico sinto-me agora finalmente integrado com o mundo: eis que Mossoró, cidade-irmã, certamente beneficiada por suas condições adequadas de calor veio a se tornar a primeira chocadeira natural de alienígenas que já se teve notícias. Ou pelo menos foi o que li no Jornal “O Mossoroense” da última quinta-feira, que noticiou o aparecimento de um Ovo de ET na casa de Seu Concriz, poeta e comerciante local. A seguir, um resumo do debate que houve entre diversas autoridades em volta do óvulo. Também estaremos lá, graças a este arrojo da tecnologia que é o seu córtex cerebral.

Abraço fraterno,
Márcio N. 

OVULUM MOSSOROENSIS
(por Nazianovski-Szienov II)

Hoje cedo em Mossoró não se falava de outra coisa senão do estranho incidente naquela fervilhante cidade do semi-árido: um ovo de ET, pesando aproximadamente 100 gramas, apareceu do nada na casa de um distinto comerciante, o Seu Concriz, que naturalmente perdeu o sossego com a multidão de curiosos que tomou conta do seu quintal. A saber, neste exato momento ocorre um animado debate entre os especialistas que se aglomeram em volta do ovo.
O primeiro a pedir a palavra foi o Ufólogo, uma vez que era ele a autoridade mais credenciada no assunto. Em um tom de voz passivo e quase didático o homem esclareceu que dependendo da espécie a criatura poderia nascer somente na próxima Era Geológica, tornando inútil aquela euforia infantil, conduta perfeitamente cabível em se tratando de populares ignorantes mergulhados no senso-comum. O Ufólogo mudou um pouco o tom do discurso e passou a falar de um modo mais amigável, quando, retirando do bolso um papel amassado, leu aos presentes um comunicado; explicava que era seu desejo ter o próprio corpo congelado, para que pudesse, num futuro distante, acompanhar o nascimento do ET com a atenção que só um especialista de sua estirpe ofereceria.

Percebendo o disparate no pedido do ufólogo o cientista não se conteve e soltou uma larga gargalhada. – O pedido só não é digno de uma porta – disse – por ser Mossoró uma cidade à frente de sua época, o que poderia obviamente nutrir o ufólogo com ambições científicas; exceto, talvez, por um detalhe: Mossoró é uma cidade tão avançada, e tanto, que está a séculos de vantagem com relação a todo o restante do mundo quando o assunto é aquecimento global. Como se vê, tornamo-nos sem muito esforço, exceto por uma felicidade geográfica, a primeira chocadeira de alienígenas da Terra; e, do mesmo modo que ovos podem aqui ser chocados, é também possível que sejam fritos se expostos no asfalto ao meio-dia; o calor absurdo descarta a mais remota possibilidade de congelamento neste território em nítido estado de ebulição.  – e, dito isso, o cientista soltou outra larga gargalhada de cientista louco e se abanou um pouco.

Sim, o ufólogo tomou um banho de água fria [naquele clima, em outro sentido seria nada mal] e isso muito sensibilizou o veterinário, sujeito sensível e que chupava um pedaço de pedra na ocasião. O veterinário afirmou que o cientista estava redondamente enganado quanto à impossibilidade do congelamento, ou não estaria ele com aquele sorvete em suas mãos. O cientista explicou que aquilo não era um sorvete, e sim uma pedra, e que o veterinário certamente tinha contraído raiva de algum cachorro e por isso beirava a demência completa. O veterinário, ignorando o cientista e cuspindo lascas de pedra no chão enquanto falava, prosseguiu diplomaticamente. Explicou que apesar de nobre não haveria razão para medida tão drástica por parte do Ufólogo em congelar-se, e que, enquanto veterinário experiente, ele resolveria aquela questão à sua maneira; afinal, de chocadeira ele entendia, e pelas suas deduções o ET nasceria dali nas próximas horas. Depois disso acocorou-se em cima do Ovo e cantarolou uma música de ninar antiga e tremendamente penosa, recorrendo a partes obscuras do cérebro onde estavam armazenadas as canções que sua querida mãe lhe ensinara na infância. E foi quando, vinda de algum lugar, uma pedra lhe atingiu em cheio a cabeça.

– Herege, filho de Satã! Apedrejemos o anticristo! – Gritava a fanática religiosa erguendo um volume da “Bíblia Para Radicais” [Limbo Edições, 666 páginas]. Por sorte, nenhuma das pedras lançadas pela fanática atingiu o Ovo, protegido bravamente pelo veterinário que mais tarde precisou ser levado ao setor de emergência do hospital municipal [onde acabou sofrendo uma operação de mudança de sexo por engano e teve seu nome trocado para Úrsula – um desejo pessoal]. A fanática alertou ainda sobre a sorrateira chegada do demônio que brotaria com toda a sua fúria quando chifres perfurassem a casca do Ovo. E então foi interrompida pelo jurista.

O jurista, homem racional, apaziguou a situação com um cruzado nos queixos da fanática religiosa. – Agora podemos continuar a discussão de forma democrática – falou o jurista enquanto massageava os dedos. – Algumas questões muito me intrigam neste caso, continuou. – Se o “alienígena” nascido em solo terrestre, como tende a ser o caso, como deveríamos então nos referir a esta criatura inominável? De alienígena, certamente não; porque para isso ele deveria atender básica a premissa de nascer fora do nosso planeta. Seria ele então uma besta icorrigível, um estrangeiro, imigrante ilegal? Ou o adotaremos como filho de nossa pátria conferindo a ele todos os direitos e deveres que nos são oferecidos, admitindo assim a criatura como uma cidadã mossoroense? Poderia a besta votar e eleger seus líderes, exercendo sua plena cidadania? Dito isso, alguém toma a frente; era um político.

Waltenor 4933220, como ele mesmo se apresentou, começou um discurso delirante em ritmo mecânico. A impressão que dava era que um teleprompter havia sido instalado em seu cérebro. Em um nível rasteiro e longas pausas, ele dizia que o Ovo de ET era um marco definitivo que inaugurava uma nova era para Mossoró. – Sim, além da cidade ser a primeira e única chocadeira intergaláctica do mundo, Mossoró será a primeira a importar Vida de outros planetas; fomentaremos o turismo, e vamos integrar o Ovo de ET aos festejos juninos. – propôs o político. E diria ainda que a encenação anual que reproduz a resistência dos mossoroenses à invasão do bando de Lampião ganharia um novo ato: ao lado do povo, alienígenas com pistolas a laser iriam combater o cangaço num espetáculo de luz, magia e emoção. Era um homem cheio de idéias, o Waltenor 4933220, que seguiu apertando mãos e desaparecendo na multidão.

Alheio ao discurso do político estava o obstetra, profundamente obcecado no processo de amolar um bisturi num pedaço de pedra. – Cesariana. – respondeu obstetra, por mais que ninguém houvesse lhe feito pergunta. – Basta uma incisão superficial, de maneira a não comprometer a estrutura citoplasmática do óvulo e teremos uma visão mais precisa do estado de gestação do feto, se assim podemos chamar este filho de chocadeira. E então, como selando um acordo, o obstetra rasgou o ar com golpes violentos de bisturi, fazendo zunir um zunido agudo e gritar desesperadamente um curioso que observava a tudo perto demais.

– Minha orelha! – gritou o curioso enquanto procurava algo no chão. – Sem ouvidos estou arruinado! Arruinaaaado! – e então colheu um pedacinho misesável de carne no chão, alguma parte do que um dia foi sua orelha esquerda, e fugiu em disparada.

A violência com que o obstetra partiu a orelha do curioso deixou o gourmet profundamente chocado [ao contrário do ovo alienígena, que permanecia incólume], de modo que o homem decidiu intervir. – Calma, calma, foi apenas um acidente envolvendo uma lâmina afiada – amenizou o Gourmet se, aproximando do ovo. – E depois, não podemos fazer omelete sem quebrar uns ovos, não é? – O gourmet, que estava mais para comediante ruim, recebe do público somente um silêncio constrangedor. – Pois bem, o meu forte é a cozinha, re-re. Que tal aproveitarmos este evento raríssimo para fazer de Mossoró um destino gastronômico obrigatório? Faremos dos ovos a bandeira da nossa culinária típica. E se me permitem, adianto que minha especialidade são ovos; ninguém os prepara melhor que eu. Cozidos, mexidos, fritos… até mesmo omeletes. Sim, com sal e manteiga na medida certa podemos fazer um milagre com ovos. – Mais uma vez o gourmet recebeu um silêncio constrangedor do público. Procurando por alguém que lhe apoiasse, tentou identificar o político na multidão, mas ele já havia ido embora.

Uma bióloga, claramente decepcionada com o que via, decide esboçar uma pequena aula sobre ovos. – Caros, do ponto de vista da biologia Ovo é o mesmo que Zigoto. É uma célula que se forma após a fusão do núcleo do óvulo [pronúcleo femilino, haplóide] com o núcleo do espermatozóide [pronúcleo masculino, haplóide] por cariogamia, o que dá origem à célula diplóide denominada ovo ou zigoto. Não importa de onde ele veio, é apenas um ovo, e não devemos nos desviar da realidade. O que quero dizer: é só a porra de um ovo.

Assim, com cada um dando sua opinião, o dia segue sem muitos avanços. O sol percorre o céu mossoroense de lado a lado, enquanto torra em terra a paciência de todos: dos especialistas, de Seu Concriz e até mesmo a nossa. Lá pras seis da tarde a noite cai. Seu Concriz se despede dos visitantes, que partem um a um e aos poucos, cabisbaixos, mas saem sem comprar um artigo qualquer oferecido pelo comerciante. Mais tarde, na madrugada, podia-se ver apenas o manto de silêncio e escuridão a enconbrir o ovo, aquela casa e todas as outras casas; as ruas, becos, praças e o sono inocente de cada habitante da cidade onde as impressões deste dia extraordinário serão para sempre esquecidas. Amanhã, quando o sol subir, não mais se tocará no assunto. Pelo menos, não nesse; em outro, talvez.

Direto do Bunker, Natal.
22 de setembro de 2008.

Clicando aqui vocês podem ler um texto de Fialho sobre o mesmo assunto.

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