‘Giros, Notas’ _o conto de igor santos, agora na íntegra

setembro 16, 2008 § 4 Comentários

Agora sim: o conto completo, com a ajuda de uma ferramenta do wordpress que eu desconhecia.

Pois bem, ‘Giros, Notas’ é a estória de um homem permanece consciente apesar de morto – tudo com um jeitão detetivesto e sobrenatural. Eu gostei do texto, e agora que vocês podem ler inteiro, aproveitem aí.

Abraço fraterno,
Márcio N.

GIROS, NOTAS
(Sobre como Ross Gitano percebeu que estava morto e tentou inutilmente se safar)

Ross Gitano ficou deitado no chão, sem saber o que fazer.

Ele estava morto. Havia pouca dúvida disso, havia um enorme e horrível buraco em seu peito, mas o sangue que antes se esvaia de dentro dele recedeu e agora apenas pingava. Além disso, nenhum outro movimento provinha de seu tórax. Ou de qualquer outra parte sua.
Ele olhou para cima e para os lados e tornou-se claro para ele que qualquer que fosse a aquela parte dele que estava se movendo, não era parte alguma do seu corpo.

A névoa rolou suave e vagarosamento por sobre ele e explicou nada.
A alguns poucos metros dele, sua espingarda jazia, fumaçava quietamente na grama.
Ele continuou ali deitado, como alguém na cama às quatro da manhã sem conseguir dormir, incapaz de relaxar a mente e paralelamente incapaz de achar algo para fazer com ela.
Ele compreendeu que acabara de passar por um momento de choque, o que explicaria sua inabilidade de pensar claramente mas explicaria de forma nenhuma a sua capacidade de ainda pensar.

No grande certame, travado por séculos, sobre o que, se alguma coisa, acontece com quem morre (seja julgamento, travessias, batalhas, purgatório ou extinção), de uma coisa nunca duvidou-se; saber-se-á a resposta depois de morto.
Ross Gitano estava morto, mas simplesmente não tinha a menor idéia do que deveria estar fazendo sobre isso. Não era o tipo de situação com a qual ele já havia se deparado.

Ele sentou-se.
O corpo que se sentou parecia tão real para ele quanto o corpo que permanecia caído, esfriando lentamente no chão, perdendo o calor de seu sangue em nuvens de vapor que se mesclavam com a névoa do gelado ar noturno.
Experimentando um pouco mais, ele tentou levantar-se, vagarosamente, penosamente, sem confiança.
O chão parecia dar-lhe suporte e tolerou seu peso, apesar de, logicamente, não parecer ter ele peso algum que precisasse ser tolerado.

Quando ele se debruçou para tocar o solo, ele sentiu nada, salvo uma espécie de resistência borrachuda, como a sensação que se tem quando se tenta segurar algo quando o braço adormece.
Seu braço não estava dormente, estava morto.
Também as suas pernas e seu outro braço e seu tronco e a sua cabeça.
Seu corpo estava morto.
Ele não conseguia dizer porquê sua mente não estava.

Ele se postou ali, num tipo de terror insone congelado, enquanto a névoa se encaracolava lentamente através dele.
Ele olhou para baixo, para o ele, para aquela coisa subitamente apavorada que tinha sido ele, retorcido no chão, e quis estremecer.
Aliás, quis carne e ossos que pudessem estremecer.
Ele quis carne, ossos e um corpo.
Ele tinha nenhum.
Um súbito grito de horror escapou de sua boca, mas era nada e foi lugar nenhum.
Ele se mexeu e sentiu nada.

Música e uma poça de luz vazavam de seu carro. Ele andou naquela direção.
Ele tentou andar com firmeza, mas conseguiu apenas um tipo de andar fraco e apagado, incerto e insubstancial. O chão parecia frágil sob seus pés.

A porta do carro permanecia aberta do lado do motorista, como ele a havia deixado quando pulou para fora para lidar com a tampa do porta-malas, pensando que voltaria em dois segundos.
Isso foi dois minutos atrás, quando ele ainda estava vivo.
Quando ele ainda era uma pessoa.
Quando ele pensou que pularia de volta para dentro e sairia dirigindo para longe.
Dois minutos e toda uma vida atrás.

“Isso é uma loucura! Certo?”, pensou ele abruptamente.
Ele arrodeou a porta e se abaixou para espiar o retrovisor.
Sua aparência era exatamente a mesma, aliás, a mesma aparência que ele teria depois de ter se envolvido numa briga terrível, o que era de se esperar, mas aquilo era ele, aparentemente normal.

Isto deveria ser algo que ele estava imaginando, sonhando acordado.
Uma espécie terrível de sonho.

Uma idéia veio à sua mente e ele soprou no retrovisor.
Nada. Sequer uma gotícula se formou.
Isso satisfaria um médico. O espelho não embaçou, o paciente estava morto.
Ele virou-se lentamente e mirou novamente, apreensivo, para o corpo imóvel no frio asfalto, com metade de seu peito em pedaços.
Aquilo certamente satisfaria um médico.

A visão seria assustadora o suficiente se fosse o corpo de outrem.
Mas era o seu próprio. Ele estava morto.
Morto.

Morto.

Ele tentou fazer a palavra soar dramaticamente em sua mente, mas não conseguia.
Ele não estava em um filme, não existia trilha sonora ali.
Ele apenas estava morto.

Espiando seu corpo com uma fascinação atroz, ele gradualmente se tornou incomodado pela expressão ridiculamente estúpida em seu rosto.
Perfeitamente compreensível, claro.
Era precisamente o tipo de expressão que alguém que se encontra no meio do ato de ser alvejado com sua própria espingarda por uma pessoa que se escondia no porta-malas de seu carro deveria estar usando.
De toda maneira, porém, ela desgostava da idéia de que alguém poderia achá-lo daquele jeito.

Ele ajoelhou-se ao lado daquilo na esperança de conseguir rearranjar suas feições em uma semelhança qualquer de dignidade, ou pelo menos inteligência básica.
Provou-se ser quase impossivelmente difícil.
Ele tentou moldar a pele, pele doentiamente familiar, mas, de alguma forma, ele não parecia conseguir um contato necessário nela, ou em qualquer coisa.
Era como tentar moldar massinha quando seu braço está dormente, mas ao invés da mão escorregar para fora do modelo, escorregava através dele.
Neste caso, sua mão escorregou através de seu rosto.
Raiva e horror nauseante o varreram por causa da estúpida, idiota impotência e ele se espantou ao se flagrar batendo e sacudindo seu próprio corpo morto com uma pegada firme e furiosa.
Ele cambaleou para trás em um choque incrédulo.
Ele conseguiu apenas adicionar, ao inefável olhar estúpido do cadáver, uma boca torta e um olho entreaberto e ferimentos, que agora afloravam em sua pele.

Ele começou a soluçar, quase chorando, e desta vez som pareceu sair, um uivo estranho, vindo do fundo do que quer que essa coisa tivesse se tornado.
Tapando o rosto com as mãos, ele se retirou, tropeçando até o carro e se jogou em seu assento, que o recebeu de uma forma fria, meio solta e distante, como os braços de alguém que desaprova os últimos quinze anos de sua vida e o acolhe com um carinho básico, mas se recusa a lhe olhar nos olhos.

Conseguiria ele levar seu corpo a um médico?
Tentando evitar a absurdidade de tal idéia, ele segurou fortemente o volante, mas suas mãos passaram direto por dentro dele.
Ele tentou lutar com o câmbio, mas o máximo que conseguiu foi um esbarro, falhando ao tentar puxar ou empurrar a manivela.
O som ainda estava ligado, tocando uma suave música de orquestra.
Em cima do banco do passageiro estava seu telefone, que até então ouvia pacientemente a tudo o que ocorria.
Ele o fitou e percebeu, com uma febre ansiosa de excitação, que ainda estava conectado com a secretária eletrônica de Júlia, do tipo que simplesmente continua gravando até que se encerre a ligação.
Ele ainda estava em contato com o mundo.
Ele tentou desesperadamente segurar o aparelho, mas acabou se reduzindo a se dobrar sobre ele.
“Júlia?”, disse ele. Sua voz um sussurro mínimo, perdido no vento
“Júlia, Júlia, pelo amor de deus, me ajude, me ajude, eu estou morto. Morto! Estou morto e não sei o que fazer!”
Ele surtou novamente, chorando em desespero e tentou agarrar-se ao telefone como um bebê se agarra ao seu paninho para se confortar.
“Júlia, me ajude!”, disse ele novamente, entre soluços.
Um som veio do telefone.

« BIP »

Ele notou que havia sido desconectado, pois, ao tentar afagar o aparelho, apertou involuntariamente o botão de encerrar.
Fervorosamente ele tentou agarrar o objeto novamente, que constantemente lhe passou direto pelos dedos e eventualmente repousou imóvel sobre o assento.
Ele não podia tocá-lo, ele não podia apertar-lhe os botões.
Enfuriado, ele tentou tocar qualquer coisa.

Em vão.

Por vários minutos ele se manteve sentado ali, sem reação, a não ser um leve balançar de sua cabeça, quando o terror começou a aplacar, se transformando em desolação vazia.

Dois ou três carros passaram, mas notariam nada estranho, apenas um carro parado no acostamento.
Perturbando muito pouco da escuridão noturna, os faróis provavelmente não enxergariam o corpo deitado no mato atrás do carro.
Eles certamente não notariam o fantasma, sentado dentro, chorando para si mesmo.
Ele não sabia quanto tempo ficou ali prostrado, ele não estava exatamente contando o tempo, mas sabia que não parecia estar passando rápido o suficiente.
Havia muito pouco estímulo externo para marcar sua passagem.
Ele não sentia frio. Na verdade, ele mal conseguia lembrar a sensação ou o que Frio significava, mas apenas sabia que isso era algo que esperava sentir num momento como esse.

Ele sabia que precisava fazer algo, ocupar a mente com alguma coisa pelo menos até o fim da noite. Ele só precisava chegar até ao fim daquela noite. Por enquanto, isso bastaria.

Depois de alguns minutos, ele tomou coragem e se levantou de seu berço patético, decidido a alcançar, da maneira que fosse, sua casa.
Já em pé, ele voltou à traseira do veículo, para olhar uma última vez para o seu corpo defunto.
Como se a noite já não houvesse produzido horror e choque suficiente, ele tremeu ao ver a depressão úmida e vazia no mato.

Seu corpo não estava mais lá.

Igor escreve artigos sobre ciência nos sites 42 e lablogatórios. Vai lá.

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