Leitão Assado _nuances da cozinha húngara

julho 8, 2008 § 7 Comentários

Sziasztock*,

recebo de Chico Guedes um conto ainda sem tradução oficial no Brasil, portanto inédito. Chico, que encontra-se em missão na Hungria, vem investigando alguns escritores por lá.

O que segue é informação confidencial, de modo que não seria exagero esclarecer que, a exemplo de Leitão e alguns amigos de Puff, após a leitura deste texto suas vidas correm sérios riscos (não que antes fosse diferente).

Abraço fraterno,
Márcio N.

LEITÃO ASSADO
András Cserna-Szabó, 1974

       Ursinho Puff acordou num dia daqueles em que não há nada pra fazer. Não teve nem vontade de se levantar. Lá fora, na Floresta das Cem Luas rugia a tempestade de neve. Depois baixou um tédio urso de ficar rolando na cama e finalmente levantou-se. Colocou seu disco favorito de Judit Halász  no gramofone, e foi para a despensa atrás de mel. Colocou o pote na mesa, sentou-se, e meteu uma gostosa patada na doce substância. Levou a esquerda ao focinho e com uma única enorme lambida deu conta de toda aquela viscosa delícia.
       — Ééca! – rosnou Puff furioso, cuspindo o mel no assoalho. Se eu continuar assim com essa alimentação monótona acabo pegando uma escarlatina.
       Ou seja, Puff detestava mel. Na verdade, detestava todos os estereótipos. Então, por ter nascido acidentalmente como urso, por que era obrigado a adorar mel? Só porque escritores de estórias idiotas esperavam isso dele? Não, não e não!, explodiu, e depois quebrou o pote de mel no chão. Pegou o boné, o cachecol, depois tentou puxar o blusão para baixo para cobrir a barriga, mas não deu: ele usava tamanho G, mas sua pança de urso pedia mesmo era GGG.

Puff, instantes antes de atacar distinto senhor, no Império do Estômago

       — Também daria umas vulcanizadas no nariz desse cara, que, além de fazer o herói da estória morar numa floresta gelada, ainda o desenha com esta maldita barriga descomunal — fumegou Ursinho Puff, e pôs-se a derrubar as tábuas de sua cabana.
       Tomou o rumo da casa do Leitão. Seu rosto franzido tinha um ar contrariado, e seu estômago roncava de fome. Quando chegou à casa do amigo foi entrando sem bater. Com uma patada arrombou a porta decrépita. Leitão tinha acabado de sentar-se na poltrona e estava seriamente enrolado.
       — Que diabo estás fazendo, Leitão? — gritou Puff.
       Leitão estava tentando chupar uma laranja havia horas, mas ora a fruta caía-lhe da mão, ora cortava o dedo com a faca, ora o suco espirrava-lhe os olhos. Sua mão estava sangrando, o rosto todo melado do suco da fruta.
       — Que estou fazendo, Ursinho Puff? Me enrolando. Como sou azarado, sabe. Baixinho, deficiente, e mais os meus complexos. Por acaso tu não conheces um bom psiquiatra? Realmente não dá mais…
       — Cala a boca, seu leitão mamote! Não vou te ajudar. Para mim basta. Não tenho tempo na vida a perder com um insuportável porco pigmeu aleijado. E tem mais, acaba aqui este mundo idiota de divã de couro. Vem aí a lei do lobo! Que vença o mais forte! Abaixo a ilusão do mel e do amor! O poder do coração dá lugar ao império do estômago. Vem aí o Superurso!

Tempos de paz na Terra das Cem Luas.

Tempos de paz na Floresta das Cem Luas.

 

       E dizendo isso Ursinho Puff escancarou a gaveta da cozinha do porquinho e pegou logo um facão de carne com cabo de madeira. O porco anão tremia tanto na poltrona quanto as folhas de olmo nos romances russos. Com uma talhada certeira Puff cortou fora a roupinha listrada do amigo, enquanto matutava sobre que personalidade estranha podia ter desenhado um porco vestido como uma vespa.
       Três horas depois o aroma de carne assada ao timo e à manjerona serpentevoava porta arrancada afora, e espalhava-se por toda a floresta. Para começar foi Tigrão que saltitou em direção à casa de Leitão, mais parecendo uma bola de borracha vermelha lavrada. Foi o primeiro a sentir o cheiro, porque, como todos bem sabem, o tigre tem as melhores ventas do mundo.
       — Que magnífico leitão assado, é um milagre não ter sido preparado por um tigre, pois de assados ninguém entende melhor no mundo que os tigres, isso é notório — exclamou Tigrão.
       — Para mim chega de cenoura, quero carne! — bradou fremente o coelho Abel.
       — Os miúdos dariam um bom guisado — ponderou Corujão.
       — Posso dar as orelhas ao meu nenê aqui na bolsa? – perguntou timidamente Can com um risinho maternal.
       Assim começou o festim; empanturraram-se com a carne suculenta, sem darem uma palavra, apenas entupindo suas fuças ficcionais. O único a falar foi Bisonho, quando já estava ligeiramente saciado:
       — Não chamamos Leitão para comer? — perguntou sem convicção.
       Os bichos se entreolharam, depois berraram todos de uma vez para Bisonho:
       — Sua anta!

Ornado em folhas tropicais, leitão-maravilha esbanja charme e simpatia.

     — Não, burro — murmurou Bisonho arrasado, pois o lobo já rosnava irritado.
       Resumindo, o que se passou depois foi: o império do estômago estabeleceu-se firmemente na Floresta das Cem Luas. Certo, não durou muito tempo. Poucos dias depois Tigrão provou que os tigres sabiam preparar a melhor coruja à milanesa do mundo. O Abel com ensopado de cenoura do tigre fez grande sucesso com seus pequenos amigos. Ursinho Puff brilhou com sua lebre à páprica e mel. Bisonho, por sua vez, tomou muito gosto pela caçarola de urso. Se não tem cavalo, burro também vai bem disse o bebê-canguru, ao ver as lingüiças picantes de carne de Bisonho penduradas na despensa. Can deu total apoio a essa tese, segundo a qual nem só as revoluções devoram seus próprios filhos…
       No mais, só Cristóvão saberia contar detalhada e saborosamente como fica, preparada na brasa, a bisteca de canguru bem passada.

[Tradução de Chico Guedes Jr.]

* Szia = “Oi”, em húngaro.  Mas se for para mais de uma pessoa vira “Sziasztock” = “Ois” .

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