Homem de Firme Destino _Capítulo Apócrifo

junho 26, 2008 § 1 comentário

Mais um capítulo do HdFD: relato sobre as glórias e fracassos de um homem que, acometido por uma ereção espontânea e duradoura, segue jornada na direção para onde o pênis aponta.

Neste capítulo nada de mais acontece, exceto por um infeliz que tem o crânio partido ao meio por causa de um coco que lhe acerta a cabeça, e mesmo assim acho que vale a pena ler – eu, pelo menos, gostei muito.

Abraço fraterno,
Márcio N.

CAPÍTULO APÓCRIFO

(Onde nada acontece, para profunda decepção do narrador e possível acesso de tédio no desocupado leitor)

 

O tempo estava parado e tudo estava parado. Naquela paragem onde os ventos não mais sopravam, eram como altas e estreitas torres os coqueiros que se multiplicavam pelo areal; pincelando em tons de verde e cinza a paisagem aparentemente pacífica, ligeiramente bonita e, não importando a época do ano, invariavelmente ensolarada e absolutamente enfadonha.

De tão enfadonha, aliás, era praticamente impossível para um visitante não ser surpreendido por uma leve e agradável sensação de dormência nas extremidades do corpo, tais como as palmas das mãos, o solado dos pés e, em especial, o cérebro. Era justamente aquele estado de espírito pleno, quase zen-budista, que exercia uma atração irresistível para turistas de origem as mais diversas e improváveis. Partiam em procissão trajando suas camisas de motivos florais só não mais chamativas que os vibrantes guarda-sóis empunhados com orgulho – os guarda-sóis que pareciam com grandes e constrangedores cogumelos –, e tudo era decadência

Sons breves, abafados, algo a se estatelar no chão. Os cocos desabavam a todo instante – depois de passar a vida considerando a idéia de cometer suicídio, profundamente aborrecidos que estavam, se lançavam em intervalos regulares do alto das torres, dos coqueiros, da desilusão ou da forma que preferissem enxergar a situação.

Aqui e ali, traçando pequenas parábolas no ar entre um coqueiro e outro, estavam estendidas as redes. Ou os casulos. Os casulos hospedavam um contingente cada vez maior de dementes – até agora todos que por lá aportavam, seja por acidente ou de feita premeditada, com exceção talvez do Homem de Firme Destino, que somente agora nos presenteia com a graça de sua presença, acenando de longe e se distanciando a passos rápidos, em ritmo tal, que parecia dar pequenos pulinhos na areia escaldante.

Um observador mais atento, caso não tivesse ele entrado em coma no exato instante em que pôs os pés formigantes no referido lugar, concluiria que aquelas pessoas só sairiam dos seus casulos na iminência de um compromisso realmente sério, como, por exemplo, a morte. E muito embora não aparentassem qualquer pressa em honrar tal concordata, em alguns casos além de irremediável a morte se apresentava também inadiável, propiciando aos turistas um fim ameno, tranqüilo e tropical ali mesmo, no conforto do areal. Nota necessária: Os cocos eventualmente atingiam algumas cabeças. Partiam em duas partes, as cabeças, em uma simetria perfeita e no mínimo curiosa. Além disso, eram vazias. Vazias de maiores preocupações, vazias de qualquer recheio que fosse. De maneira não menos particular, os cocos nada sofriam e se acomodavam na areia para murchar e apodrecer naturalmente, os cadáveres ao seu lado lhes servindo de adubo. Ramos brotavam de sua crosta enrugada e se transformavam em, adivinhem vocês, mais e mais coqueiros. Enquanto no areal se erguiam cada vez mais torres, apareciam cada vez mais hóspedes – velhos, jovens, cadáveres, esqueletos decapitados, húmus e assim por diante: a ordem natural das coisas.

A razão desse ciclo de vida e de morte ninguém jamais poderá saber. Nem mesmo o Homem de Firme Destino que, incorruptível na busca dos seus nobres objetivos (o sul, sempre o sul), ignorou solenemente as armadilhas impostas pelo areal ao seguir somente no retumbante futuro que se pronunciava à sua frente. Nem mesmo o observador mais atento poderia nos fornecer qualquer informação mais reveladora, sobretudo porque foi ele um dos infelizes a ter o crânio partido em dois e de onde não se extraiu mais que um lamentável bloco de notas em branco. E nem mesmo os ventos que nos trazem as boas notícias sabem sobre qualquer coisa, que nunca eles se deram ao trabalho de castigar a paisagem a fim de extrair a verdade. E nem mesmo vocês sabem de qualquer coisa, a menos que em uma demonstração de raro ímpeto, assumindo conta e risco, decidam organizar uma expedição a fim de tomar uma conclusão qualquer sobre o referido lugar – o que em todo caso, além de empreitada das mais arriscadas, configura perda de tempo ainda maior que as linhas que nos trouxeram até aqui. Apresentadas as mais abstrusas circunstâncias, e não sem antes atentar para o ar tristonho dos leitores, concluo como sendo de concordância mútua não escrever mais absolutamente vírgula sobre este lugar inútil.

 

O escrivão.

Os primeiros capítulos estão aqui no bunker. Os próximos vou soltando na seqüência.

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§ Uma Resposta para Homem de Firme Destino _Capítulo Apócrifo

  • Igor Santos disse:

    De tão enfadonha, aliás, era praticamente impossível para um visitante não ser surpreendido por uma leve e agradável sensação de dormência nas extremidades do corpo, tais como as palmas das mãos, o solado dos pés e, em especial, o cérebro.

    That’s fucking gold!

    Curtir

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