Homem de Firme Destino – Capítulo 4

junho 19, 2008 § 2 Comentários

Capítulo do HdFD que acabei apagando daqui por engano .
Algumas partes se perderam, acho.
Valeu, Igor, por ter salvado :)

Abraço fraterno,
Márcio N.

CAPÍTULO IV

(Escoriações sérias em uma jornada mística para além da razão)


Centenas de pedrinhas rolaram o desfiladeiro anunciando a chegada do Homem de Firme Destino naquele território rico em granitos, pedras, rochas e toda aquela areia que não passava de fragmentos de mais granitos, pedras e rochas. Além disso, podia-se destacar o solo ocre e, embora isso não fosse algo particularmente interessante, aquilo era o melhor que se tinha em mãos, ou nos pés – como era naquela ocasião. O Homem de Firme Destino circunvagava o precipício a passos escorregadios, os calcanhares afundando nas britas. Ouvia a mórbida canção assobiada pelo vento. Eram silvos longos, pausados e carregados de tristeza – o equivalente ao blues dos primórdios do mundo. Além disso, não havia muita coisa. Há pelo menos duas eras geológicas nada se movia naquele lugar, sendo o recente deslizar de pedrinhas o evento histórico mais importante da região desde o Big Bang. Pena que, de tão deserto, não havia ali mais ninguém além do Homem de Firme Destino para presenciar o fenômeno. Era aquele um dos territórios mais inférteis que a terra já teve o desprazer de hospedar. Não fossem tão desgraçadamente inférteis todos aqueles granitos, pedras e rochas teriam eles certamente sido germinados em frações de segundos, tamanha era a solidão que se encontrava o nosso herói em sua dura prova, emitindo rajadas de sêmen aonde quer que passasse. Pelo bem da verdade, pois os ventos tratam de banir qualquer incerteza para além de a perder de vista, aquela era sua mais dura prova: encontrar-se consigo mesmo em uma jornada mística para além da razão. O sol se pronunciava como um guia espiritual, compondo uma paisagem arroxeada que provocava em sua mente visões das mais curiosas, e íntimas. Eis que em uma dessas lucubrações, enquanto agonizava de sede e de tédio, o Homem de Firme Destino se viu caminhando ao lado de um animal grotesco com quem tentara estabelecer algum diálogo. Uma criatura disforme, sem cabeça, apenas tronco, que de algum modo emitia sons apesar das veias que lhe percorriam o corpo e selavam sua boca. Observou melhor, erguendo a cabeça à altura dos seus olhos, e constrangeu-se ao se dar conta de que na verdade havia fitado sem qualquer discrição uma parte de um semelhante que não lhe dizia respeito, de um clone seu, idêntico – um duplo qual um espelho colocado à sua frente. Havia, irremediavelmente, encontrado o seu Eu (o dele… o dele… passou). Então era aquele o seu rosto, pensou, era pior do que imaginava. Devia ter feito aquela cirurgia de desvio de septo quando teve oportunidade, pensou novamente, mas o charme parece que tem funcionado, continuava pensando, desconectado de tudo o mais. O duplo encarou-lhe com olhos sombrios, e disse: “acorda, homem, à sua frente!”. Neste instante o Homem de Firme Destino teve a sensação do mundo desaparecendo sob os seus pés, como um lençol que lhe é puxado por baixo das canelas, e passava a flutuar, e junto a ele as centenas de pedrinhas que lhe sugeriram que rota tomar. Rolaram, rápidas e saltitantes, as pedrinhas. O desfiladeiro tinha uns dois quilômetros de extensão, com uma angulação pouco amigável, de maneira que a providência imediata foi encontrar a posição mais confortável para enfrentar a brutalidade da queda e dela sair vivo: encolheu-se à maneira dos caracóis, rolando e trepidando em movimento livre e desenfreado, capotando sem controle, a tragédia fluindo loucamente, deixando lascas de pele e farrapos de roupa pelo caminho (não era possível distinguir uma coisa da outra), e o principal: garantindo ainda que suas partes mais sensíveis estivessem devidamente protegidas, no núcleo do caracol. Ouviu sinos a badalar sobre os seus córneos, e por um momento veio o à sua lembrança a canção das virgens de Cachoeira tocando harpas.  O ponto máximo da viagem mística foi a viagem astral causada quando, durante a queda e por causa do impacto, sua alma se desprendeu de seu corpo, capotando logo atrás, e só voltando a ele na base do penhasco, quando pôde finalemente retomar o controle da situação. Tal evento fora classificado pelos ventos que nos maltratam a paciência como o terceiro fato histórico mais importante do lugar. Ficava atrás apenas do Big Bang e das pedrinhas que rolaram o desfiladeiro poucas horas antes. A propósito, àquela altura a odisséia já ultrapassa com larga vantagem a casa das oitenta horas de caminhada. Escoriações sérias, muito sérias.

Anúncios

§ 2 Respostas para Homem de Firme Destino – Capítulo 4

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

O que é isso?

Você está lendo no momento Homem de Firme Destino – Capítulo 4 no Querido Bunker,.

Meta

%d blogueiros gostam disto: