Homem de Firme Destino – Capítulo 2

junho 15, 2008 § Deixe um comentário

CAPÍTULO II

(Em que o herói persegue uma formosa moça na beira da estrada, é chicoteado em praça pública e cai nos gracejos de um vaso de formas incrivelmente curvilíneas)

 

Um cachorro farejava alguma coisa no mato como um detetive pouco eficiente. Lento, o sol se punha, banhando de dourado as casinhas de taipa ou de ouro que se aglomeravam na bucólica paisagem de interior. Se o cenário estivesse em um filme, os ventos que flanam por aí assobiariam aos ouvidos uma trilha sonora muito suave e comovente, os créditos tomariam conta da tela e as luzes se acenderiam acordando quem estivesse no cinema. Todos estariam sãos e salvos com suas vidas encantadoras e… bem, mas as coisas não são assim tão simples.

 

As casinhas de taipa, assim como a tarde caindo e o cachorro caçando eram tão reais quanto nítida era a imagem Homem de Firme Destino ficando cada vez maior e maior e maior, em um zoom lento e cheio de suspense. Caminhava com graça, o nosso herói, como se pisasse em minúsculas rodinhas de rolimã. A aldeia mais próxima a cada deslize. Aplicou mais força às pisadas impondo velocidade à marcha, o Homem de Firme Destino, ao avistar uma formosa moça na beira da estrada. Isto é, uma formosa mancha na beira da estrada foi tudo o que viu pelos seus olhos esgazeados; ainda assim, uma mancha acinzentada de formas arrebatadoras e de espantoso charme. A mancha acinzentada continuou atraente inclusive quando se pôs a correr em pânico, as mãozinhas grudadas na bochecha, e a boca aberta a berrar, enfática: lembrava um quadro muito famoso em que uma mancha soltava um grito em pavor comparável, talvez pelo choque de visão semelhante. De acordo com o estado de humor sempre perspicaz do Homem de Firme Destino, manifestações espontâneas de desespero eram reações saudáveis de donzelas muitíssimo alegres&eufóricas, admitindo ele, somente, que talvez tenha a moça exagerado um pouco na dose daquela vez. Partindo de um ponto de vista um pouco mais realista, isto é, o da pobre jovem, fugir aos berros era o mínimo que se podia fazer ante a imagem de um intruso em claro estado de euforia carnal lhe encarando com olhos insanos, livre de qualquer pudor ou mesmo livre de qualquer vestígio de contato com a civilização que fosse. Sendo assim, ela corria de forma tal que nuvenzinhas de poeira se lançavam no seu encalço; e era com tanto empenho que ela corria que chegava a martelar ritmicamente os calcanhares nas nádegas arredondadas, despertando, sem perceber, um interesse ainda maior pelas suas formas. O Homem de Firme Destino também se pôs a correr, o coração saltitando como todo o resto, o rosto vermelho como o de um jovem apaixonado, ou de um jovem tísico – já que ele tossia furiosamente por causa da poeira e etc. Detritos eram lançados na fuga sob a forma de uma densa nuvem lhe penetrava qualquer cavidade: os olhos, a boca, as narinas, os ouvidos, os poros – cada um deles. Talvez por isso, ou para conferir maior efeito dramático, o herói corria com ambas as mãos levadas ao rosto e, de olhos cerrados, era obrigado a confiar cegamente no seu instinto que, rijo feito uma rocha, lhe indicara desde sempre qual melhor direção a ser tomada. Além disso, o cof-cof pulsante das tosses emulava um predador implacável, o que piorava consideravelmente o pavor da moça. O cachorro que outrora caçava algo no mato, também corria; embora corresse em direção oposta – se tanto o cachorro quanto o homem tivessem mantido o ritmo teriam eles dois esbarrado em algum ponto perdido antes de completar uma volta completa ao eixo da Terra. Mas em algum ponto o cachorro parou para descansar e inspecionar o mato, ainda com pouca eficiência. Quanto ao Homem de Firme Destino, basta saber que a perseguição se estendeu por entre as ruas&ruelas de barro daquela cidadezinha pacata de interior, conseguindo, sem muito esforço, atrair a atenção dos habitantes para o incidente; conseguindo, sobretudo, atrair a atenção dos habitantes para o curioso forasteiro.

 

 Com os holofotes voltados para si, o Homem de Firme Destino foi recebido pelo vilarejo com honrarias das mais animadas. Claro que nos referimos à ostentosa festa conferida somente a grandes autoridades e a criminosos, uma cerimônia regada a bebida, quitutes e música popular da melhor qualidade (um coral de virgens que tocava forró raiz usando harpas) foi celebrada para entreter os convidados que, confortavelmente instalados em cadeiras de plástico na praça pública, puderam assistir o nosso herói sendo chicoteado brutalmente. Espetáculos públicos de tortura eram a principal atividade de lazer do pacífico vilarejo, sendo chicote era a punição costumas para atentados sexuais; negado, contudo, àqueles que curtiam um sadomasô pesado – e aquele, infelizmente, não era o caso. Ocorreu ao Homem de Firme Destino que precisava contornar a situação ou seria a situação que o contornaria inteiro, refletiu, revelando nos olhos uma expressão particularmente ridícula. Lá pelas tantas, as costas roxas de tanto apanhar, decidiu desfazer o mal-entendido. Articulando algumas poucas palavras estropiadas justificou a investida contra a jovem como “uma atividade recreativa muito popular de onde eu venho”, o que, para sua decepção, e êxtase do público, foi recebido com mais chicotadas.

 

Estava fraco, o Homem de Firme Destino, àquela altura nem mais tão firme assim, quando resolveu atender aos seus instintos mais imediatos: soltou um grito estridente parecido com o de um porco, pelo nariz, e logo em seguida pediu em casamento a mão (e não só a mão, como todo o resto) da doce, bela e espectral mancha acinzentada – a mesma moça da beira da estrada linhas acima e causa de tanta desventura. Sua oferta foi aceita de bom grado, pois a perspectiva do matrimônio de alguma maneira demonstrava que suas intenções eram nobres. Soltaram-no do cabresto, enfim. E foi tamanha a comoção e a alegria do Homem de Firme Destino em estar livre que, tomado pelo entusiasmo, logo tratou ele de se congratular calorosamente com as trinta e duas mulheres do vilarejo, incluindo nas comemorações uma cabrita chamada Tânia e um vaso de barro de formas incrivelmente curvilíneas*.

 

Sendo assim, após ter depositado seus votos de esperança em boa parte da população – isto é, toda a cidadezinha com exceção do vulto cinza que lhe fora prometido em matrimônio e que fugiu a tempo – o homem prosseguiu com a sua missão de povoar o mundo, sempre rumo ao Sul, e eventualmente a Sudeste, e para onde mais os ventos soprarem nas velas das suas andanças. O mastro da nau continuava de pé.

 

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