Agosto 11, 2008

Ossétia / Rússia x Geórgia / EUA _apenas bombas

Passei parte do sábado impressionado com a guerra (veja as fotos), a primeira transmitida em tempo-real pela geração youtube, que segue assim: 1) Geórgia aproveita a atenção do mundo para as olimpíadas para bombardear e invadir a Ossétia do Sul, matando 2.000 civis em 1 dia: instaurada Lei Marcial, a Lei do Cão. 2) Rússia bombardeia a Geórgia, e continua explodindo jornalistas, casas e pessoas até que a Geórgia deixe a região da Ossétia do Sul: mais milhares de mortos, outras dezenas de milhares refugiados. 3) A Geórgia, parcialmente destruída, tem o pedido de cessar-fogo negado pela Rússia, que exige a retirada das tropas da Geórgia da Região da Ossétia, temendo um genocídio. 4) Os EUA acusam a Rússia de tentar depor o presidente Georgiano e oferecem apoio à Geórgia, que possui 20.000 soldados, enquanto, a Rússia, mais de 1 milhão.

Mais bombas não param de cair.
Protejam-se, em um bunker ou numa cova, se juntarem os pedaços.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Música: ”A Marcha das Valquírias” >> “‘The Ride of the Valkyries’ from Die Walkure by Richard Wagner performed by the Radio Filharmonisch Orkest Holland conducted by Edo De Waart” – do Youtube. Links: Vídeo do Dia 1 (Russia Today, 18′36”), Causas do Conflito (Folha), Inside The Story (Parte 1, Parte 2).

Agosto 8, 2008

Censura na internet aprovada no Brasil _ a china é aqui

A imprensa oficial do Brasil me deixa cada vez mais puto.

Seguindo a pauta de jornais internacionais, os nossos se limitam a criticar a censura da internet na China, enquanto por aqui mesmo os senadores aprovaram uma lei idêntica. Alguns jornalistas até mencionaram o assunto, mas de forma tímida para não comprometer a audiência [uma das vantagens de ter um blog pouco acessado é não se preocupar tanto com o ibope]. E como não sou nem bundão nem jornalista [olha a redundância, Pasquale], decidi tocar no assunto:

Lei de Cybercrimes, aprovada às escondidas no Senado na noite de 9 de julho, obriga provedores a ceder todas as informações relativas a você. Que páginas acessa, o que escreve, o que lê, o que conversa, onde mora, o que faz, etc. Além do fim da privacidade, ela censura páginas, o acesso Wi-Fi público, comunidades de troca de arquivos, e por aí vai.

Trata-se de uma postura que parecia possível somente em países totalitários como China ou Cuba. Mas, ao que parece, o Brasil passa a integrar o seleto grupo de criminosos.

O que motivou isso.

Era fácil abafar um escândalo na redação de jornais oficiais, mas isso é impraticável em páginas informais na internet, onde não há qualquer controle do Estado. Eles têm medo e tomaram uma atitude covarde: anularam o poder individual do povo, pela exposição, e criaram para o Governo um escudo, que acaba com a possibilidade da pressão pública.

Faça algo a respeito: assine a petição que invalida a Lei de Cybercrime.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Nos próximos dias, novas entradas nesse mesmo artigo.

Agosto 6, 2008

And the oscar goes to… Heath Ledger? _tema velho, assunto novo

Melhor tocar nesse assunto agora, enquanto é coisa nova, do que nos próximos meses quando será ele comentado até a exaustão: a indicação de Heath Ledger ao Oscar na categoria de melhor ator coadjuvante.

Não será a primeira indicação do ator [a última, provavelmente], mas a primeira vez que a premiação será também uma homenagem póstuma a um talento interrompido tão cedo. Quando ele for indicado, o emocional vai pesar na escolha do júri garantindo a estatueta a Ledger. Teremos, em todo caso, a justiça sendo cumprida por fatores como atuação, o impacto do personagem e a própria relevância do ator para o sucesso do filme.

São de Heath Ledger as idéias que formataram o novo Coringa. A maquiagem realista [mais borrada e transtornada que a anterior], o tique-nervoso de réptil com saliva que escorre pela ferida na boca, etc. Seu mérito é tanto, que ele não apenas tomou a patente de um personagem que até então pertencia a Jack Nicholson, como está perto de fazer de Dark Knight a maior bilheteria da história do cinema.

O público endossa. Sente mais carisma pelo antagonista psicopata de Ledger do que pelo Batman de Christian Bale. Falta, agora, só esperar a hora da academia anunciar esse palpite publicamente.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Em uma conversa antiga com ygor, tínhamos pensado em Philip Seymour Hoffman para o próximo Pinguim, e, para o Charada, pensamos em Daniel Day-Lewis. Segundo isto aqui, acertamos no Pingüim, mas para Charada vão escolher Johnny Depp - vacilo… Clique: Heath Ledger no IMDB · Novo filme de Ledger em pós-produção

Agosto 6, 2008

Ataque Urso _natureza selvagem

O que parecia um ataque de urso sem chances para defesa acabou se transformando em uma cena comparável às melhores tiras de Bill Watterson. Na Baía Hudson, Canadá, um habitante flagrou seus cães sendo atacados por um urso polar, mas, para sua surpresa, o urso era um rapaz bem intencionado. Agora ele volta sempre, não para se alimentar, mas para brincar com os novos amigos. A notícia pode ser lida nesse link, com fotos maiores do que as que eu pus aqui.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Agosto 5, 2008

10 ÷ 10 = 0,36 _matemática prato seco

Imagine a seguinte equação: você tem 10 laranjas e precisa alimentar 10 pessoas. O que faz? Resposta: 6 laranjas vão para o lixo e sobram 4 – disputadas no tapa. O brasileiro médio se permite desperdiçar 64% de todo o alimento produzido no país, o equivalente a 70 mil toneladas de comida indo ao lixo, todo ano, segundo relatório da FAO – Food And Agriculture Organization. Isso acontece porque o brasileiro não é bom em cálculo, quando a fome é um problema matemático. Se o brasileiro fizesse contas primárias, como avaliar o quanto deve colocar no seu prato, e com isso evitasse o desperdício, seria o bastante para começar a baratear o preço dos alimentos, reter consideravelmente a inflação e – com as coisas resolvidas por aqui – ainda sobrava uma parte para enviar aos hermanos na América Latina, onde 9% das crianças sofrem de desnutrição crônica.

Mas o cessar fogo não é assim fácil: a inflação vai continuar subindo, miseráveis vão continuar miseráveis e o cidadão médio vai continuar brincando com comida. Porque o brasileiro nunca foi muito de estudar: aprendeu plantar, mas esqueceu de aprender a contar.

Abraço fraterno,
Márcio N.

NOTA: A notícia acima veio à mídia no dia de hoje, mas não há muito aprofundamento. Acessando FAO – Food And Agriculture Organization você conhece este e outros estudos, confere o mapa da fome e se informa sobre como ajudar. Caso você esteja à procura de entretenimento rápido e não-engajado, brinque aqui com a sua comida.

Agosto 4, 2008

Exper. Nuclear #1 _espirro, pelo bunker

Simulação de espirro realizada em nosso Querido Bunker, no dia 4/10/2008, às 12:03, utilizando uma foto no google, o paintbrush e uma bomba atômica. Conclusão: um espirro gera energia suficiente para esbugalhar uzóio.

Abraço fraterno,
Márcio “constipado” N.

Agosto 1, 2008

Ernest Hemingway _122 assassinatos nas costas [pelo que deu para contar]

LEIA OU ATIRAMOS EM VOCÊ >> Neste artigo: caçada de humanos; cinema clássico; crimes de guerra de Ernest Hemingway (1899 – 1961); e dos perigos do cultivo de ídolos.

Fay Wray em cena de "The Most Dangerous Game" - mais tarde, o cenário seria usado em King Kong, dos mesmos diretores.

A caçada de humanos era um esporte muito popular para o Conde Zaroff, que em sua ilhota saía armado na procura por vítimas de naufrágios, no filme The Most Dangerous Game, de 1932. Foi talvez influenciado por esse roteiro, que Ernest Hemingway escreveu na revista Esquire, em 1936, um artigo com a seguinte frase: “Certamente nenhuma caça se pode comparar à caça ao homem, e quem caçou homens armado, por um longo período de tempo e com prazer, nunca mais se interessou por outra coisa depois dessa experiência“. Talvez não mentisse e quanto a isso, fazendo de sua afirmação um plot virtual de sua vida progressa em que executou dezenas de prisioneiros [122, pelo que contabilizou] durante a II Guerra. Mas existe uma diferença básica entre o Conde Zaroff e Ernest Heminway: enquanto o Conde, embora fortemente armado, ainda oferecia às suas vítimas arco e flecha para a defesa, o escritor e jornalista americano só lhes oferecia mesmo as balas na carne. Se ainda estivessem vivas, serviriam de prova da sua covardia as 122 pessoas assassinadas por ele à altura da Invasão da Normandia, na II Guerra Mundial, quando era Hemingway um jornalista integrante do exército americano na retomada de Paris pelas forças aliadas.

A revelação veio ao mundo por volta de 2006, a partir de cartas encontradas pelo jornalista alemão da Focus, Rainer Schmitz, quando realizava uma pesquisa sobre curiosidades, anedotas e histórias pouco conhecidas de escritores famosos. Foram encontradas 2 cartas, certamente comprometedoras, onde revelava o escritor os detalhes sobre suas atrocidades cometidas na guerra. Em uma delas, datada em 1950, foi enviada a Arthur Mizener, amigo e professor de literatura da universidade de Columbia, há a descrição de Ernest Hemingway sobre como alvejou por trás um “jovem soldado alemão que tentava fugir numa bicicleta e que devia ter a idade do meu filho Patrick”.

Ernest Hemingway posa ao lado de animal abatido. Seu esporte preferido era a caça.

Sabe-se que Hemingway sempre foi cuidadoso em cultivar uma imagem de homem bruto, rude e macho. Como, quando em uma das cartas, ele se gaba por executar um Kraut [chucrute], soldado alemão prisioneiro que haveria desafiado o seu poder citando a Convenção de Genebra: “Você não vai me matar, porque tem medo e pertence a uma raça de degenerados”, teria dito o alemão; Hemingway descreve como foi sua reação – “Você está errado, disse, e atirei três vezes, primeiro no estômago e depois na cabeça, fazendo cuspir seus miolos pela boca”. Além de executar prisioneiros, Hemingway poderia ter sido incriminado pelo simples fato de armazenar armas e granadas no seu quarto de hotel parisiense.

Na carta datada em 27 de agosto de 1947 ao seu editor Charles Scribner (1890-1952), o nosso amigo Ernesto do Rifle [como passou a ser conhecido em Cuba, onde morreu na ocasião de um suicídio com um tiro em 2 de julho de 1961] conta também como se sentia excitado pelos crimes: “sim, tive prazer em matar”. Prazer não, vício. Porque na carta de 1950 ele vai além: “Fiz alguns cálculos e posso afirmar com exatidão que matei 122 alemães”.

Antes da II Guerra, Ernest Hemingway adquiriu experiência em conflitos cobrindo, em Madrid, a Guerra Civil Espanhola. No fim da vida, teria em seu exílio voluntário em Cuba se prostituído à CIA por 500 dólares ao mês vendendo informações ao Governo Americano. O caso dos assassinatos é a mais recente descoberta sobre ele.

Essa não foi a primeira vez que um vencedor do prêmio Nobel de literatura teve sua imagem manchada por falhas cometidas em sua vida pessoal. Recentemente, na autobiografia “Descascando a Cebola”, Günter Grass revela ter feito parte da Juventude Hitlerista e integrado a tropa de elite da Waffen-SS, embora insista jamais ter dado um disparo sequer.

Agora, um minuto para uma mensagem pessoal.

Concurso de sósias de Ernest Hemingway, nos EUA

Deve-se anular qualquer possibilidade de ídolos, seja quem for, porque além de uma idiotice impessoal é também um negócio arriscado. Os rostos que estampam a maioria das camisetas não pertencem a canalhas menores que os anônimos que se encontra em qualquer penitenciária. John Lennon deserdou um filho e acumulou capital enquanto falava em um mundo sem possessões; Ernesto Che Guevara [Clichê Guevara] executou pessoas com a mesma indiferença com que coçava a perna; o maior difusor da maconha, Bob Marley, é suspeito de assassinatos e de envolvimento com o narcotráfico, e por aí vai, sempre descendo, até chegarmos a Ernesto do Rifle. Neste caso, seria prudente distinguir onde termina o escritor e onde começa o homem. O escritor poderia ter assumido sua culpa e de alguma forma se redimido, pois inteligência e sensibilidade não lhe faltavam. Mas o homem, esse não – optou por explodir os miolos, que é mais simples, e mais humano.

Veja, acima, a primeira parte da animação inspirada em “O Velho e o Mar”, de Hemingway.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Leia sobre o tema no Estado de São Paulo. Além desse link não se pode encontrar muito em outros jornais do Brasil. O assunto ainda hoje soa como boato, já que pouca importância foi dada à revelação na imprensa brasileira – reconhecidamente, uma das piores do mundo.

Julho 30, 2008

Do liseu como estado de espírito

[Liseu – subst. fem. sing –  na pindaíba]

É mais rico um homem que vai ao bauru e pede uma fatia extra de queijo por 50 centavos do que o outro que reclamou o preço do cafezinho na última viagem para a Europa.

O liseu é um estado de espírito, e a riqueza também.

Somente uma coisa, cidadão classe-média, define em qual lado da linha da miséria você está: sua forma de encarar as coisas. Você pode ser um otimista, onde a riqueza aparece mesmo na pobreza, ou um pessimista que torna o mais rico dos homens um pobretão - e aqui mora o perigo.

Não há nada mais genuinamente pobre do que reclamar, e, quando de barriga cheia, os ponteiros do detector de liseu se põem a rodar.

Encontrei um amigo que sempre gostou de reclamar. Reclamava na escola, seguiu resmungando na adolescência. Casou no civil, reclamou durante o casamento e agora se queixa dos honorários do advogado de divórcio.

Alguns fatores certamente agem em favor do liseu.
Acho que um deles é o casamento.

Lembro-me da máxima: “casou-se, reiou-se” – lida na camisa do cidadão flagrado outro dia na Praia dos Artistas. Sim, aquele homem podia ter a alma empertigada pelo liseu, mas soube juntar suas moedas para deixar uma mensagem ao mundo.

Eu gostaria de deixar também o meu recado:

DISTINÇÕES ENTRE LISO EM ESPÍRITO E O RICO EM INTENÇÃO

·O liso em espírito reclama do aumento do pão.
·O rico em espírito entra em dieta e deixa o pão.

·O liso em espírito compra um carro em 60x e instala um tanque com gás natural.
·O rico em espírito compra um Audi A3 e instala 3 loiras e 1 morena nos assentos.

·O liso em espírito deixa o carro em casa pra economizar no combustível.
·O rico em espírito deixa o carro em casa, mas por consciência ambiental.

·O liso em espírito tem mulher, filhos, contas e a ração do cachorro.
·O rico em espírito também, mas evita tocar nesse assunto em público.

·O liso em espírito reclama.
·O rico em espírito reflete.

· O liso em espírito sempre pede embrulho para viagem no restaurante caro.
· O rico em espírito vai ao boteco do bairro e oferece por conta uma rodada de cachaça.

E por aí vai, sempre na banguela.

Tenho um bom exemplo de cidadão liso em espírito, desembargador, com salário de mais de 20 mil por mês.

Ele adora assistir filmes. Mas o DVD é sempre pirata [ainda assim, se não conseguir baixar pela internet]. Cinema, só vale mesmo na promoção das quartas-feiras. Leva a pipoca de casa, e pede à moça do balcão pra ceder a manteiga. Nas férias só viaja para lugares onde tem um amigo para oferecer hospedagem. Isso, aliás, não é problema nenhum. Porque o pobre em espírito é tão chato, mas tão chato, que nunca viaja nem muito menos tem amigos.

Há o caso do pobre em espírito e também em corpo. Pois saiba que nunca desgraça é pouca que não possa ficar pior: o liso em corpo e espírito pode vir a se tornar um novo-rico em espírito. Nesses casos prestação e dívida são assuntos recorrentes em seu universo, cujo alegria é um crediário nas Casas Bahia ou, se você morar no Nordeste, nas lojas Insinuante. O novo rico em espírito tem uma televisão de plasma pesando no crediário.

Um fator determinante é que o liso em espírito não sabe o valor das coisas.

Gosta de camarão, mas para poupar prefere comprar carne, por mais que camarão em Natal custe metade do preço. O rico em espírito é um pouco diferente. escolhe a comida pelo lado direito do cardápio – “eu não como preço”, por mais que para isso seja necessário virar o livro de cabeça pra baixo.

Um minuto.

Sinto o cheiro de caviar vindo de algum lugar. Ou seria merda?
Um rico em espírito sabe a hora de se retirar.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Julho 28, 2008

Vista da Cidade Alta _Natal

Clique certeiro de Ana, ontem mesmo, em frente à Igreja do Rosário.

É curioso ver como a maioria das nossas construções ignoram a presença do Rio Potengi, que sangra despercebido através da cidade – os prédios foram erguidos de costas para ele, e uma das poucas excessões é o mirante que existe próximo ao local da foto acima.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Julho 28, 2008

Logo mais: correspondência de guerra

Logo mais, um artigo sobre literatura e a estupidez da guerra. Confiram hoje mesmo – mais tarde – ou, mais seguramente, amanhã às 14h quando eu tiver arrumado tempo de escrever a coisa toda.

Notícia velha, assunto novo.

abraço fraterno,
Márcio N.

Publicado 3 artigos acima.

Julho 25, 2008

Fernando Pessoa _quem vence perde + piada sobre aparição de Nossa Senhora de Fátima

A ilustração abaixo veio do livro Obra em Prosa, Editora Nova Aguillar, 1986.

Segue um texto extraído d’O Livrão. Ipsis litteris, adiante:

ESTÉTICA DA ABDICAÇÃO

[dat. 1913?]

CONFORMAR-SE é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidade de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar. O império supremo é o do Imperador que abdica de toda a vida normal, dos outros homens, em quem o cuidado da supremacia não pesa como um fardo de jóias.

[Fernando Pessoa, em "O Eu Profundo"]

Vou tentar colocar mais outros trechos aqui, futuramente. São muitas as imagens para escanear [capas originais, ilustrações e de heterônimos, esboços etc.], e, quase 800 páginas de textos.

 ‹‹ Este aqui, ao lado, é o livro.

Há edições mais recentes, pois editoras se motivaram com a liberação da obra de Fernando Pessoa, que agora é Domínio Público [leia]. Quando os direitos eram mantidos, dificilmente se encontrava, a Máfia do Scanner.

Um outro ponto curioso sobre Fernando Pessoa é, certamente, a descoberta de um texto inédito onde faz uma sátira à Aparição de Nossa Senhora de Fátima, apresentado em julho deste ano por um historiador português. O texto começa assim:

“Fátima é o nome de uma taberna de Lisboa onde às vezes… eu bebia aguardente. Um momento… Não é nada d’isso… Fui levado pela emoção mais que pelo pensamento e é com o pensamento que desejo escrever”.

E por aí vai.

Para ler um artigo mais sério sobre o texto encontrado, clique aqui.

Abraço fraterno,
Márcio N.

† MdS

Julho 24, 2008

Como se locomover de um bar a outro em tempos de Lei Seca (beber, bater e atropelar)

O Bunker resoveu investigar a fundo a Lei Federal que vem prejudicando donos de bar e de agências funerárias, e testamos os métodos mais populares para driblar a restrição de álcool no trânsito. Aqui estão alguns deles, ou pelo menos os que conseguimos lembrar.

Política do suborno

“Se a lei é seca, a mão do guarda é molhada.” Já diziam os saudosos amigos Aleatório e Anônimo, que conheci na ocasião da primeira vez em que fui atropelado. São eles, certamente, uma ameaça seriíssima nas ruas (eventualmente calçadas), e se os seus processos fossem empilhados em um dia de pouco vento alcançariam facilmente a lua. Somente duas coisas habitam a manga da camisa de seda de Aleatório: manchas de batom barato e suborno. Se numa blitz pedirem para que faça o teste do quatro, Aleatório diz que esse é pra amador e esnoba fazendo o teste do quarenta mirréis. O outro amigo, Anônimo, não enfrenta tantas implicações legais mais sérias, uma vez que seu nome verdadeiro ainda não foi desvendado, invalidando, assim, qualquer retaliação judicial maior. Eis que procurei avaliar o método do suborno (não mais chamado de ajuda da cervejinha: agora é do cafezinho, que é pra dar exemplo), e com 10 reais no bolso e uma garrafa de Pitú a tira-colo voei no meu Celta 1.0 pela Avenida Roberto Freire. Passei por uma blitz sem qualquer problema maior, atropelando fatalmente dois policiais de plantão e mais tarde utilizando os 10 reais num lava-jato para tirar manchas de sangue do capô.

Animais orientais exóticos como meio de transporte

Um método bastante eficaz seria substituir o seu veículo convencional por um outro de tração animal, ou somente pelo próprio animal, como é o caso do Método Camelo de Embriaguez Responsável. Para aqueles que procuram uma opção mais em conta, o Dromedário é um modelo que, embora menos anatômico e de menor capacidade, pode também quebrar um senhor galho. Pois bem. Uma vez em posse do seu animal, invista no design do conjunto: vista um turbante de boa seda, tenha um livro de Mallanâga Vâtsyâyana e carregue uma espada árabe bem lustrada. Se você é homem, a indumentária é algo que pode realmente impressionar as mulheres. Provo. Um teste rápido pela orla da praia de Ponta Negra foi o suficiente para que eu montasse meu próprio harém, com todas as escravas empilhadas nas costas do animal e também nas minhas. O harém quase me leva a ruína, já que cada uma das esposas custava R$ 99,90 a hora. Se você é mulher, é aconselhável substituir a indumentária anterior por uma simples túnica no rosto, o que pode ajudar nos casos onde a beleza é exígua.

Consumo de leite
 
Uma vez li numa camiseta a seguinte frase: “Nunca fiz amigos bebendo leite”. Mentira, e deslavada. Pois substituindo bebida alcoólica tradicional pelo mais puro leite, facilmente fiz algumas amizades. Foi quando adentrei chutando a porta de um bar, esmurrei o balcão e disse: “Desce um copo de leite, major, desnatado!”. Feito isso, logo apareceram os novos amigos, todos eles muito paramentados, com gel no cabelo e lantejoulas coloridas na roupa. Eram na verdade tão gentis que eu precisei fugir do bar às pressas, constrangido que estava e temendo ser ordenhado lá mesmo. Na volta para casa o meu Celta 1.0 derrubou um poste e, com exceção de uma velhinha, ninguém se feriu gravemente. Ponto positivo: O leite fortalece os ossos em colisões. (Leiteja apóia esta idéia)
 
Coma Alcoólico
 
Método que requer disciplina e pouco amor próprio. De posse da carteirinha do seu plano de saúde e em jejum, comece o processo. Primeiro invista nas bebidas fermentadas, e depois vá saltando violentamente para os destilados. Cachaça, vodka, uísque, absinto, gasolina. Subindo o teor alcoólico a cada novo pedido, e atenção: procure manter um ritmo. É também importante que você conheça o seu limite, e ultrapasse. Certifique-se de que não consegue se locomover com as próprias pernas. Recorra ao dedo indicador para pedir mais uma dose, e permaneça na mesa até que a vista se apague. Sua consciência será encoberta por um manto negro cheirando a piúba de cigarro e fluídos internos, e então, se iluminará magistralmente à sua frente uma enfermaria de posto de saúde. A partir daqui, concentre-se em se manter vivo.

Namorados que não bebem (para mulheres)
 
A lei seca no trânsito é um catalisador para o amor. Piriguetes de todo o país finalmente decidiram dar mole ao cara que senta na carteira da frente na faculdade, ao rapaz introspectivo do escritório, ao coroinha da igreja, sim: a exemplares de macho que não bebem. Disfarcei-me de namorado sóbrio por uma noite e, de posse de R$ 99,90, logo consegui uma namorada de 16 anos na praia de Ponta Negra. Fomos ao seu bar preferido, que mais parecia uma festa de fim de ano da ONU, onde pessoas de todas as etnias bebiam, dançavam e trepavam calorosamente. Enquanto minha namorada se bebericava doses de campari, e antes mesmo que nosso namoro terminasse com o contrato de 1 hora, adormeci como um bebê. Alguém me acordou vomitando em minhas costas, e então descobri que a minha namorada de 16 anos havia saído com um novo namorado espanhol que tinha conhecido no bar. Temo pela sua segurança, pois o homem foi visto carregando uma caipirinha. Que ela seja feliz, ora.

Namoradas que não bebem (para homens)

Miakóva, em sua terra natal, nas comemorações dos 76 anos de Boris Yeltsin.

Decepcionado com as mulheres brasileiras trarei de comprar uma esposa russa pela internet. Seu perfil: 1,74m de altura, 62kg, 90cm de busto e 60cm de quadril, de nome Miakóva e à procura alguém legal. Iniciei o download e, em um mês, ela estava nos meus braços. Neste tempo improvisei uma cerimônia de casamento simples em um motel próximo para que nos conhecêssemos melhor. Ensinei à minha esposa russa os segredos da minha língua, assim como os segredos dos meus dedos e dos meus órgãos genitais. Decidimos estender a lua-de-mel em um bar, e antes me assegurei que estabelecimento jamais oferecesse vodka à Miakóva, a única bebida que conhecia. E a noite foi ótima. Mostrei os ornamentos das minhas bebidas tropicais, o que muito impressionou minha esposa. Contei sobre as maravilhas do Brasil, o que muito impressionou minha esposa. Apresentei-lhe a um amigo da faculdade, o que muito impressionou minha esposa.

Beber e dirigir não bebendo

Haviam mencionado o método em um programa de televisão evangélico, o que muito me animou, sobretudo porque eles cantavam músicas alegres que mudaram meu astral para melhor. Decidi ir a um bar para não beber, e lá permaneci completamente imóvel até que o garçom me expulsasse. Segui para outro bar e, devidamente maceteado, pedi um copo d’água com bastante gelo e lá permaneci, a beber o meu Water On The Rocks, a fitar o horizonte e a cantarolar baixinho a música do programa evangélico. O gelo derreteu e meu drink virou Water on Water, uma versão mais tropical do anterior. Fui ao banheiro algumas vezes, bebi mais alguns copos d’água, saquei um rifle semi-automático e metralhei as pessoas das outras mesas.

Mi casa, su farra

Para beber em casa você precisa apenas de um motivo, uma geladeira e um amigo gay que é DJ. Preparamos a festa no Bunker, e cada vez mais pessoas chegavam carregando suas cervejas. Uma coisa interessante de fazer festas em casa é que seus convidados realmente se sentem em casa, e por isso fazem o que não fariam se bebessem fora. Como por exemplo vomitar no seu sofá, pendurar-se no lustre, transformar a mesa em um palco de stand-up show e incitar o sexo grupal em conversas inofensivas. Mas o melhor de beber em casa é que você não pega na direção depois. Seus amigos podem até pegar o carro na volta e se arrebentar feio. Mas você não.

Márcio N.
Direto do Bunker

Julho 23, 2008

Próximos Posts _do Bunker

Por hora cumprindo tarefas de cidadão-responsável que me asseguram tocar a vida. Nesse meio tempo, venho pensando em coisas para jogar aqui, algumas já escritas.

Pois bem, o Bunker tem atualização hoje à noite. Eis algo do que vem por aí nos próximos dias:

· Como se locomover de um bar a outro em tempos de lei seca. Um tratado com dicas e testes feitos nas ruas da cidade. (no post acima)
· Um texto psicografado de Fernando Pessoa, coladorador do Bunker (2 acima)
· Conto detetivesco de Igor Santos, este cara aqui.
· Jornalismo investigativo nos melhores restaurantes temáticos do mundo.
· Quantos escritores são necessários para trocar uma lâmpada? (publicado)

E, também, esquemas que aparecem entre um assunto e outro. Tinha tomado a liberdade de escrever um epitáfio para Fábio Faria, que havia num mundo mais justo morrido com um holofote despencando sobre sua cabeça, mas desisti publicar, que não quero contaminar um recinto limpinho como esse falando da morte alheia.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Julho 21, 2008

1 clipe + 2 músicas novas _Bonnies

Agora, gostaria de um pouco da distração de vocês para promover a banda de uns amigos.

Clicando aqui e aqui você baixa as 2 músicas que formam o single novo, “Tão Calmo”.

E o vídeo que segue é um clipe, um pouco diferente dos anteriores, agora utilizando uma tecnologia nova para a banda, que é a videofilmadora.

Quem gostar, e quiser mais, é só baixar no site deles clicando aqui.

Para marcar um show com os Bonnies, até agora bons patrocinadores do seu entretenimento gratuito, anote o seguinte: osbonnies@gmail.com / (84) 9118-0645. A banda toca em qualquer evento, quais festas de casamento, festivais internacionais, aniversários de 15 anos ou não, churrascos e até mesmo em funerais se o cachê justificar.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Julho 17, 2008

House of Cards _do Radiomarketing

Radiohead, a empresa de marketing que mais entende de música, fez dessa vez algo de novo em vídeo.

No último clipe, lançado dia desses e que vem causando furdunço no youtube, um efeito interessante foi alcançado ao não se utilizar câmeras convencionais, mas uma tecnologia que mapeia objetos através de uma leitura a laser de superfícies. Como entendo isso: para produzir as imagens não há captação de luz, mas informações geradaras a partir do volume das coisas.

Dr. Google, o que você acha disso?

· Na Scientific American tem um artigo falando do assunto → Tcharam! 
· Neste site você pode brincar de fazer sua própria versão do clipe → Uau! 
· E, aqui, algo sobre o diretor do vídeo, James Frost → Quem?

Pode ser um esquema parecido com o de ultrasom, o que explica em parte a aparência de feto do pessoal do Radiohead no clipe. No mundo real, é só acidente genético mesmo.

Logo mais, abaixo, o making off do vídeo.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Julho 17, 2008

Monty Python_ Sobre funerais, Graham Chapman e a eulogia de John Cleese

G. Chapman

G. Chapman

Graham Chapman deixou o Monty Python quando, em 1989, precisou ir ao dentista, teve identificado um sinal na garganta, que era na verdade um câncer maligno, e morreu. Quando bateu as botas, John Cleese precisou ser retirado do quarto, chocado que estava em ver o amigo morrendo.

Foi John Cleese quem fez a eulogia [leia] no funeral de Graham Chapman, em 6 de dezembro de 1989, no memorial do St Bartholomew’s Hospital, um evento que foi coisa fina. Assim começou discurso de Cleese: “Graham Chapman, co-autor de ‘Parrot Sketch’, já era! Bateu as botas, esticou as canelas…” e por aí seguiu, parodiando um quadro de Chapman, tentando tirar da fossa os amigos vivos – naquela ocasião, homenageou o amigo sendo o primeiro a dizer “Fuck” em um funeral britânico.

Além de John Clesse, estavam presentes os outros integrantes do Monty Python. Michael Palin, Terry Jones, Eric Idle e Terry Gilliam – rindo com a vista mareada de chorar. Foi esse o clima do funeral, e daí por diante: Eric Idle, que ao lado de Chapman cantou Always Look on the Bright Side of Life no filme Life of Brian, na cena final em que estão ambos crucificados à espera da morte, repetiu a apresentação no enterro do amigo, que acabou indo primeiro.

Veja o vídeo do funeral - com o discurso, as graças e tudo mais:

Em vida, Graham Chapman costumava impressionar barmans apalpando o próprio pênis, como flagrou Douglas Adams uma vez, e além disso era um homem que vivia bêbado desde os tempos mais imberbes. Virava o copo com Ringo Star e Keith Moon, teve delírios alcoólicos na filmagem de Holy Grail, e, em 1977, decidiu pegar leve depois de pisar na bola com os amigos na revista New Musical Express. Outro ponto importante é ter co-fundado o Monty Python, o que não é pouca merda. Antes disso, bem antes disso, estudou medicina em Cambridge sem que nunca chegasse a salvar ou matar alguém profissionalmente, porque escrevia sketches pra BBC com Clesse, que era um amigo de faculdade.

Da direita: Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam, Michael Palin and Terry Jones.

Agora, um fato legal: os asteróides 9617, 9618, 9619, 9620, 9621 e 9622, descobertos pelo European Southern Laboratory, em 1993, foram batizados com os nomes dos integrantes do grupo. O asteróide Grahamchapman era um asteróide binário.

É isso…

Lançaram recente no Brasil 4 temporadas do Flying Circus. Comprei na Livraria Cultura, e vocês podem encomendar por aqui, quando a greve dos correios acabar. Li por aí que vem sendo lançado algumas compilações de roteiros, programas de rádio e blocos de Chapman. Inclusive textos dele com Douglas Adams. Mas, acho, que por aqui vai demorar um pouco pra ser lançado.

“Voltaríamos a nos reunir se Graham Chapman voltasse da morte. Bom, estamos negociando com seu agente.” (Eric Idle)

Abraço fraterno,
Márcio N.

Julho 15, 2008

I Mostra Pornô Independente

Aí vão algumas resenhas resumidas dos melhores filmes da I Mostra de Cinema Pornô Independente.

Na medida que novos filmes forem sendo exibidos, e as taxas de Vitamina C voltarem ao normal, vou incluindo aqui mais apontamentos.

Travessuras no Jardim do Éden

Abre com cena do pecado original, com Adão caindo de boca em uma maçã. Enquanto isso, Eva se diverte realizando brincadeiras com outras frutas e acaba se apaixonando por um pepino chamado Valtenor. Corte seco para cenas de perversão entre Adão, um cacho de uvas e uma tangerina chamada Tânia, que está sendo chupada com afinco. Mais tarde, Valtenor e Tânia são surpreendidos juntos em uma horta – e, para nosso choque, ambos são violentamente esquartejados e transformados em salada. Adão e Eva se beijam, uma cobra aparece e o filme acaba.

Aventuras Sexuais na Arca de Noé

Apesar de pouco fiel ao Antigo Testamento, o filme não perde sua ternura. Sim, há animais. E, sim, há um barco. O filme começa com a seqüência de uma aristocrata inglesa em uma jangada copulando animadamente com uma lontra, mais tarde assassinada por um pescador árabe. A cena seguinte são mulheres sendo ordenhadas por vacas. Depois, temos um macaco-prego mantendo relações homossexuais com um pastor alemão que, numa passagem reveladora, se apresenta como amante secreto de um sacerdote. Uma cena de sexo grupal que rendeu atuações memoráveis, como a do homem-tamanduá, é subitamente interrompida por uma rajada de metralhadoras no estilo gângster, disparada por um grupo de alienígenas em expedição ao planeta para uma orgia com cadáveres. O filme acaba com todos os atores de mãos dadas, cantando Andrea Bocelli – “Con te Partira (Time to Say Goodbye)” no casamento da aristocrata inglesa com um javali – o que confunde um pouco o público, já que o javali não havia aparecido em momento algum do filme.
 
Um anão no meu jardim

O filme abre com a cena de uma flor sendo fecundada por uma abelha e lentamente a imagem se funde com a de uma turista sueca sendo fecundada por um escravo. Um anão de jardim decide entrar na dança e, a partir daí, a cena é habilmente administrada pelo diretor que usa e abusa dos closes, propiciando aos espectadores cenas de rara profundidade e poesia. A próxima parte do filme apresenta a chegada de um grupo de forasteiros, que são na verdade hippies viciados em sexo, e que acabam por se amarrar pelo gnomo anão. No fim do filme todos participam de um suicídio coletivo, com exceção do escravo, que foge com a abelha.

Maria Antoniteta

Antoniteta é uma história de amor que se passa no período colonial e que tem sérias restrições no orçamento. Por conta disso, os personagens não usam roupas de época ou mesmo qualquer peça de vestimenta, as substituindo por fluidos em geral. Também não há charretes no filme, mas mantiveram os cavalos. Na cena final, há uma inversão de papéis muito interessante onde no lugar de uma mulher a cavalgar um animal, é o animal que cavalga a mulher. O filme peca na produção, mas devemos reconhecer o esforço do elenco perante as dificuldades. Sobretudo o de Rosângela, atriz iniciante que deslocou o glóbulo ocular esquerdo na fatídica cena do bondinho.

Um quartinho e um violão

Biografia não autorizada da Música Popular Brasileira. O filme abre com sussurros suaves enquanto Elza Soares manda ver num ré-maior-sentado. João Gilberto entra em cena, pedindo silêncio, tem a idéia de inventar a bossa-nova e todos comemoram. Na próxima cena, o que temos é um inspirado clipe de Vinícius de Moraes e suas 9 esposas, com participação de Chico Buarque e Tom Jobim, que entram no quarto para se juntar a Vinícius. Em uma cena tocante, Roberto Carlos conhece Wanderléia que, prontamente, pede para conferir a famosa perna de pau, mostrada sem cerimônia. O filme segue em ordem cronológica até que temos um improvável dueto entre Maria Carolina e Ângela Rô Rô, com Ney Matogrosso entrando com um falsete, desafinando, e botando tudo a perder.

Conde DráCula

Neste filme temos uma mistura entre o expressionismo alemão e o contorcionismo italiano. No Castelo do Conde DráCula, a rotina de uma madrugada de horror é interrompida por uma visita inesperada. Trata-se de uma stripper que perdeu a roupa e precisa desesperadamente de abrigo. Ela conta sua história enquanto faz sexo oral em um mordomo sem cabeça, uma cena curiosa. Vamos então conferir a vida de um prisioneiro que vive no sótão do castelo, e que é atormentado por forças ocultas que ele julga serem fantasmas de antigas atrizes pornô para quem se masturbava na adolescência. Conde DráCula entra em cena, envolvendo a stripper com sua capa. Daí para frente o filme não varia muito em sua essência, havendo espaço apenas para as pirotecnias do contorcionismo italiano. Uma surpresa se revela no final, quando a stripper morre de hemorragia e então reaparece em uma cena com as fantasmas do sótão, o que acaba por solucionar o mistério do prisioneiro.

 

Abraço fraterno,
nunca aperto de mão,
Márcio N.

Leia aqui a II Mostra Pornô Independente.

Julho 14, 2008

Feist _Mushaboom

Abaixo, dois clipes que vi nesse fim-de-semana. São da mesma música.


Legal, essa Feist.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Julho 11, 2008

Leiteja = leite + cerveja

No departamento de manipulação genética do Bunker, nossos camundongos trabalham nas pesquisas da LEITEJA – inicalmente uma arma química envolvendo Leite e Cerveja, mas que vem sendo largamente utilizada para fins recreativos.

← O mascote já está pronto.

Além de reduzir substancialmente a embriaguez, Leiteja fortalece os ossos de motoristas em eventuais acidentes de trânsito – e mais: pedestres que bebem Leiteja também se beneficiam em casos de atropelamento.

©©©

Daniel Liberalino, designer do mascote, defende a sua idéia:

São Nazianzeno diz (15:20)
rapaz, gostei do desenho do cara com uma furadeira

He’s got a fatal erection diz (15:22):
o cara do leite, chegando na porta de uma casa

São Nazianzeno diz (15:23):
pq ele tem uma furadeira?

He’s got a fatal erection diz (15:23):
e ele está drogado, aparentemente…
essa expressão dele eu tirei do comercial do guaraná dolly e congêneres… esses mascotes costumam estar drogados

São Nazianzeno diz (15:24):
sim, e pq ele tem uma furadeira?

He’s got a fatal erection diz (15:24):
ele vai matar a pessoa, imagino

©©©

Para quem conhece o site de Daniel a ilustração não é novidade, mas aí está assim mesmo.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Dê Leiteja ao seu filho

Julho 10, 2008

Provisória _Da arte de escolher berinjela

Ontem fui ao supermercado comprar mantimentos para o bunker. Como venho tentando reverter os danos no cigarro, as escolhas foram meio estranhas.

← Eis a lista.

A moça do caixa tinha um crachá, onde era lido:

♣ PROVISÓRIA ♣

Provisória me ensinou algumas coisas sobre a vida quando perguntei o seguinte:

— Que tipo de alface é esse?
— Não é alface, é escarola.
— Ah…
— É a mesma coisa, só que mais amargo.
— Tranqüilo, então… É do mesmo jeito que prepara?…
— É só lavar… E essas outras coisas?
— O que tem?
— Você escolheu essa berinjela direito?
— Eu peguei a mais brilhosa…
— Né assim não. Tá vendo aqui? Se tiver uns buraquinhos, assim, pode ter minhoca dentro.
— Ixe…

Parece que virou moda tentar viver muito tempo. No trabalho, algumas pessoas querem parar de fumar.

· AMIGO 1 - Decidiu parar e comprou uma caixa com 20 maços de Carlton. Não entendi, é como o “Pare de fumar fumando”.
· AMIGO 2 - Fuma demais há alguns anos e todo dia diz que está fumando demais.
· AMIGO 3 – Pára todos os dias, e chama os outros de fracos porque não conseguem parar.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Julho 8, 2008

Leitão Assado _nuances da cozinha húngara

Sziasztock*,

recebo de Chico Guedes um conto ainda sem tradução oficial no Brasil, portanto inédito. Chico, que encontra-se em missão na Hungria, vem investigando alguns escritores por lá.

O que segue é informação confidencial, de modo que não seria exagero esclarecer que, a exemplo de Leitão e alguns amigos de Puff, após a leitura deste texto suas vidas correm sérios riscos (não que antes fosse diferente).

Abraço fraterno,
Márcio N.

LEITÃO ASSADO
András Cserna-Szabó, 1974

       Ursinho Puff acordou num dia daqueles em que não há nada pra fazer. Não teve nem vontade de se levantar. Lá fora, na Floresta das Cem Luas rugia a tempestade de neve. Depois baixou um tédio urso de ficar rolando na cama e finalmente levantou-se. Colocou seu disco favorito de Judit Halász  no gramofone, e foi para a despensa atrás de mel. Colocou o pote na mesa, sentou-se, e meteu uma gostosa patada na doce substância. Levou a esquerda ao focinho e com uma única enorme lambida deu conta de toda aquela viscosa delícia.
       — Ééca! – rosnou Puff furioso, cuspindo o mel no assoalho. Se eu continuar assim com essa alimentação monótona acabo pegando uma escarlatina.
       Ou seja, Puff detestava mel. Na verdade, detestava todos os estereótipos. Então, por ter nascido acidentalmente como urso, por que era obrigado a adorar mel? Só porque escritores de estórias idiotas esperavam isso dele? Não, não e não!, explodiu, e depois quebrou o pote de mel no chão. Pegou o boné, o cachecol, depois tentou puxar o blusão para baixo para cobrir a barriga, mas não deu: ele usava tamanho G, mas sua pança de urso pedia mesmo era GGG.

Puff, instantes antes de atacar distinto senhor, no Império do Estômago

       — Também daria umas vulcanizadas no nariz desse cara, que, além de fazer o herói da estória morar numa floresta gelada, ainda o desenha com esta maldita barriga descomunal — fumegou Ursinho Puff, e pôs-se a derrubar as tábuas de sua cabana.
       Tomou o rumo da casa do Leitão. Seu rosto franzido tinha um ar contrariado, e seu estômago roncava de fome. Quando chegou à casa do amigo foi entrando sem bater. Com uma patada arrombou a porta decrépita. Leitão tinha acabado de sentar-se na poltrona e estava seriamente enrolado.
       — Que diabo estás fazendo, Leitão? — gritou Puff.
       Leitão estava tentando chupar uma laranja havia horas, mas ora a fruta caía-lhe da mão, ora cortava o dedo com a faca, ora o suco espirrava-lhe os olhos. Sua mão estava sangrando, o rosto todo melado do suco da fruta.
       — Que estou fazendo, Ursinho Puff? Me enrolando. Como sou azarado, sabe. Baixinho, deficiente, e mais os meus complexos. Por acaso tu não conheces um bom psiquiatra? Realmente não dá mais…
       — Cala a boca, seu leitão mamote! Não vou te ajudar. Para mim basta. Não tenho tempo na vida a perder com um insuportável porco pigmeu aleijado. E tem mais, acaba aqui este mundo idiota de divã de couro. Vem aí a lei do lobo! Que vença o mais forte! Abaixo a ilusão do mel e do amor! O poder do coração dá lugar ao império do estômago. Vem aí o Superurso!

Tempos de paz na Terra das Cem Luas.

Tempos de paz na Floresta das Cem Luas.

 

       E dizendo isso Ursinho Puff escancarou a gaveta da cozinha do porquinho e pegou logo um facão de carne com cabo de madeira. O porco anão tremia tanto na poltrona quanto as folhas de olmo nos romances russos. Com uma talhada certeira Puff cortou fora a roupinha listrada do amigo, enquanto matutava sobre que personalidade estranha podia ter desenhado um porco vestido como uma vespa.
       Três horas depois o aroma de carne assada ao timo e à manjerona serpentevoava porta arrancada afora, e espalhava-se por toda a floresta. Para começar foi Tigrão que saltitou em direção à casa de Leitão, mais parecendo uma bola de borracha vermelha lavrada. Foi o primeiro a sentir o cheiro, porque, como todos bem sabem, o tigre tem as melhores ventas do mundo.
       — Que magnífico leitão assado, é um milagre não ter sido preparado por um tigre, pois de assados ninguém entende melhor no mundo que os tigres, isso é notório — exclamou Tigrão.
       — Para mim chega de cenoura, quero carne! — bradou fremente o coelho Abel.
       — Os miúdos dariam um bom guisado — ponderou Corujão.
       — Posso dar as orelhas ao meu nenê aqui na bolsa? – perguntou timidamente Can com um risinho maternal.
       Assim começou o festim; empanturraram-se com a carne suculenta, sem darem uma palavra, apenas entupindo suas fuças ficcionais. O único a falar foi Bisonho, quando já estava ligeiramente saciado:
       — Não chamamos Leitão para comer? — perguntou sem convicção.
       Os bichos se entreolharam, depois berraram todos de uma vez para Bisonho:
       — Sua anta!

Ornado em folhas tropicais, leitão-maravilha esbanja charme e simpatia.

     — Não, burro — murmurou Bisonho arrasado, pois o lobo já rosnava irritado.
       Resumindo, o que se passou depois foi: o império do estômago estabeleceu-se firmemente na Floresta das Cem Luas. Certo, não durou muito tempo. Poucos dias depois Tigrão provou que os tigres sabiam preparar a melhor coruja à milanesa do mundo. O Abel com ensopado de cenoura do tigre fez grande sucesso com seus pequenos amigos. Ursinho Puff brilhou com sua lebre à páprica e mel. Bisonho, por sua vez, tomou muito gosto pela caçarola de urso. Se não tem cavalo, burro também vai bem disse o bebê-canguru, ao ver as lingüiças picantes de carne de Bisonho penduradas na despensa. Can deu total apoio a essa tese, segundo a qual nem só as revoluções devoram seus próprios filhos…
       No mais, só Cristóvão saberia contar detalhada e saborosamente como fica, preparada na brasa, a bisteca de canguru bem passada.

[Tradução de Chico Guedes Jr.]

* Szia = “Oi”, em húngaro.  Mas se for para mais de uma pessoa vira “Sziasztock” = ”Ois” .

Julho 5, 2008

Funny Games Remake _Da importância da capenguice

Violência Gratuita (Funny Games), Michael Haneke, 97-07

Soube hoje que fizeram uma revisão americana de “Violência Gratuita”, filme que teve seu original em 1997, em que dois amigos muito educadamente aterrorizam uma família e entretém o público. Como até então era um filme que vivia na bolha das sessões de arte, algumas pessoas ficaram profundamente ofendidas com a possibilidade de uma versão mais popular – tinha gente tão ressentida que parecia mais que tinham feito um remake de vossa mãe, e não dum filme. Mas a versão de 2007 foi feita pelo mesmo diretor, com orçamento melhor e um elenco milionário. Pelo pouco que pude ver, está muito parecida com a original.

Nos dois filmes, muitas cenas tem exatamente o mesmo enquadramento, como se pode observar vendo os traillers de 1997 e 2007 lado a lado, ou embaixo a embaixo, como é aqui o caso.

Versão de 1997

Versão de 2007

Agora, numa coisa eu concordo: com atores desconhecidos alguns filmes são mais convincentes - vejamos uma situação do mundo real:

·Uma mulher aleatória diz que se chama Sílvia. Você acredita.
·A Rainha Elizabeth diz que se chama Sílvia. Você não acredita e acha que ela está louca.

Quando em Violência Gratuita aparece Michael Pitt dizendo que é um psicopata, ou Tim Roth e Naomi Watts fingindo serem uma família, não é bem isso que você enxerga: você vê atores atuando em um filme. Talvez seja essa impessoalidade a distinção principal entre as versões de 1997 e a de 2007, não sei.

Vou procurar a versão nova. A antiga é mais fácil, tem em qualquer locadora.

Abraço Fraterno,
Márcio N.

Julho 4, 2008

Bonnies _músicas novas

Está em processo de restauração as fitas encontradas com 13 faixas inéditas d’Os Bonnies, banda formada em 1958 e que caiu no ostracismo após tumulto com stripper em apresentação. Aí vai alguma coisa do single novo, que adianta o CD. Para ouvir, basta clicar na faixa e esperar carregar o mp3.

01. Venha pra mim / 02. Tomando Café / 03. Voei, voei / 04. Todas as noites

E, abaixo, um videoclipe feito no paintbrush.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Julho 2, 2008

WALL-E _Material de bônus

Espinhas não param de florir no meu rosto e tenho me sentido como um daqueles viciados em Startrek desde que anotei essas impressões sobre WALL-E. Na eclosão de mais um eczema luminoso, incluo outras coisas sobre o filme aqui mesmo.

 

 

Agora, as considerações:

 

· Os humanos agem como máquinas, não como pessoas. Os robôs agem como pessoas, não como máquinas.

 

· Pilhas de lixo formam estruturas que parecem um conjunto de edifícios.

 

· WALL-E encontra caixinha com um anel, recicla o anel e fica com a caixinha – ela parece mais útil e interessante do que um anel.

 

· Os humanos não programam as máquinas. São as máquinas que programam os humanos.

 

· Os humanos estão presos a cadeiras flutuantes (uma variação da cadeira de rodas) da mesma forma que estão presos a carros.

 

· Humanos vestem a mesma roupa na cor vermelha. Uma mensagem anuncia que o “azul” é o novo “vermelho”. Todos os humanos vestem a mesma roupa na cor azul. 

 

 

· Um monitor cobre o campo de visão dos humanos a todo tempo. Eles se comunicam por monitores da mesma forma que se comunicam pela internet.

 

· Por conta disso, humanos são alienados e deformados.

 

· Uma barata possui o mesmo comportamento e relevância que um cão.

 

· Na ausência de gravidade, humanos não têm estrutura óssea firme. Eles parecem lontras e agem como lontras.

 

· Monitor de uma mulher desliga por acidente. Mulher então percebe que tem uma piscina.

 

· Mulher toca no braço de um homem por acidente. Homem e mulher se apaixonam.

 

· Acidentes são falhas de programação. E a trama evolui nesses acidentes.

 

· A comunidade de humanos é asséptica: o que é natural é sujo e o que é sintético é limpo. A sujeira humaniza.

 

· Sujeira é identificada por nave como “areia”. Capitão pede para computador definir “areia”. Capitão fica fascinado por “areia”.

  

· A automatização torna os humanos obesos, deformados e inúteis. Um homem tem dificuldade em alcançar copo sobre mesa.

 

· WALL-E tem a mesma voz de E.T. de Spielberg. A fala “minha casa” é substituída por “Terra”, o planeta.

 

· Não há humanos na primeira parte. Mas há uma música de Louis Armstrong. A primeira parte do filme é a mais humana.

 

 

· O design de EVE lembra um equipamento da APPLE. Jonathan Ive, designer da APPLE, trabalhou no filme. A APPLE é a empresa de computadores mais desastrosa ambientalmente, e quer reverter essa imagem.

 

· WALL-E pisa fora de casa pela manhã e uma luz branca cega o espectador. A sensação é a mesma de você saindo de casa pela manhã.

 

· Robô repete movimentos que foi programado para repetir. WALL-E acena para esse robô que repete movimentos, o robô então aprende a acenar e a ser gentil.

 

Abraço fraterno,

Márcio N. 

 

Julho 1, 2008

WALL-E _Bonito é pouco

Sempre tive uma queda por robôs. Mas não é por causa disso que vim aqui dizer que vocês precisam assistir WALL-E.

Chego do cinema com a impressão de que esse é de longe o melhor e mais bonito filme feito pela PIXEL. A história é brilhante, esteticamente também é desnivelado, extremamente plástico, com trilhas e seqüências de partir o coração. A idéia central de WALL-E é a seguinte: os humanos são desumanizados e os robôs são humanizados. Mas há esperança.

WALL-E (‘Waste Allocation Load Lifter, Earth-Class’) é uma peça remanescente de uma série de máquinas desenvolvidas para solucionar o acúmulo do lixo. Sem condições para a vida na Terra, os humanos se refugiam no espaço até que o problema seja resolvido. Séculos se passam e as únicas criaturas conscientes no planeta são WALL-E e uma barata. A rotina muda quando chega uma sonda espacial com uma robô homicida que se chama EVE.

Na primeira parte do filme prevalece o sentimento de solidão, com um cenário desolador em que pilhas de lixo formam estruturas que parecem os edifícios de hoje. Em meio disso, duas criaturinhas perdidas. Na segunda parte conhecemos a comunidade de humanos. Eles vivem em cadeiras flutuantes com monitores que concentram sua atenção. São gordos, inúteis, sem vontade própria e mal conseguem se mover. Numa das cenas, um humano cai da cadeira e máquinas vêm para recolhê-lo.

O personagem WALL-E é o que mais parece estar vivo, inclusive fora das telas: tão icônico quanto Darth Vader ou Indiana Jones e, fisicamente, é uma mistura entre o E.T. de Spielberg e Johnny 5 de “Um robô em curto-circuito”. Também está cheio de cenas que marcam. A seqüência de um balé no espaço, por exemplo, é genial. Uma outra, onde vemos um manicômio para máquinas defeituosas, de tão engraçada vai afrouxando o nó na garganta que o espectador trazia desde o início do filme.

Mas vou parar por aqui, senão estraga. Vejam no cinema. Assisti no moviecom, mas também deve passar no cinemark.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Avaliação pessoal: 10/10 • Avaliação do Internet Movie Database: 9.3/10