Novembro 24, 2008

Fé, esperança e um pouco de sorte

Agora, um minuto da atenção de vocês para um comunicado importante:

With a Little Bit O`Luck / Frederick Loewe (music) & Alan Jay Lerner (lyric) / Alfred P. Doolittle = Stanley Holloway / My Fair Lady, 1964

Abraço fraterno,
Márcio N.

Novembro 20, 2008

Como me tornei um planeta + canção do vácuo

planeta01Na época em que Plutão foi rebaixado da categoria de planeta, pensei em um conto infantil sobre isso; mas, trataria do contrário, de alguém virando planeta. O resultado ficou meio estranho, exageradamente bobo, mas gosto do texto…

Aí vai ele.

Abraço fraterno,
Márcio N.

COMO ME TORNEI UM PLANETA

Márcio Nazianzeno, 2006.

Nos últimos milhões de anos não tenho feito muita coisa além de girar. E, além de girar, não existe nada de muito mais interessante para se fazer aqui no espaço. Giro em torno do meu eixo, o que chamam de movimento de rotação. E giro também em movimento de translação, que lembra a tradição indígena de dançar em volta da fogueira para gravar documentários. Mas isso é pouco comparado à louca dança de ser um planeta. No caso de um planeta, a fogueira é uma grande bola de fogo que chamam de Sol – particularmente, prefiro chamá-la de “boneca”, “gata”, ou então, “Grande Bola de Fogo”.

Saber que movimentos você deve realizar quando está em órbita é muito importante. Primeiro, por ser uma questão educacional básica, e, depois, por medidas de precauções que visam sua segurança. Portanto, muita atenção. Ficar a par dos seus movimentos é de suma importância para o caso de você de repente se ver perdido em pleno espaço, que é um lugar grande, realmente grande, do tamanho do próprio universo. Sabe-se do caso de um planeta que, ainda jovem, foi seduzido pela possibilidade de encontrar novas galáxias mais atrativas e acabou se perdendo. Ninguém sabe exatamente onde ele foi parar e a sua história termina aqui, o que é uma pena, ou eu poderia fornecer mais detalhes.

Ficar zanzando no espaço pode ser perigoso para um planeta. Você pode acabar se chocando contra um meteoro, pode dar de frente em outro planeta, ir de encontro à Grande Bola de Fogo ou até mesmo ser tragado por um buraco negro e se perder para sempre no Vácuo Eterno do Mau e da Escuridão, um lugar muito, muito, muito assustador mesmo. Quando criança, todo planeta já ouviu ao menos uma vez a seguinte cantiga de roda, a canção do vácuo:

        Não fique vagando por aí
        O buraco negro é quem diz:

        ‘Abro minha boca
        mesmo que você corra
        e sugo você pelo nariz’

       Não há no espaço um só lugar
       Onde o buraco-negro não possa estar
       Seja um bom menino, viva de mansinho,
       Eras e eras a girar.

A parte do “sugo você pelo nariz” nunca cheguei a entender direito. São muitos os idiomas falados no espaço e a tradução pode ter sido comprometida (sem contar que em algumas civilização intergaláticas as palavras não são faladas, mas transmitidas por telepatia, e-mail ou MSN). O que ocorre é que, na verdade, a letra de Canção do Vácuo pode ser completamente diferente. Na verdade, uma verdade talvez até mais crível, essa canção possivelmente nunca existiu e talvez eu tenha mentido para você. Portanto, anote isto, que é outra regra básica para quando você está sozinho no Espaço: nunca confie em estranhos, nunca fale com estranhos e, o mais importante: nunca seja você mesmo um estranho.

Uma outra coisa importante a saber sobre um planeta é que eles duram muito e, tirando um planeta que girava tão rápido que teve toda sua história lançada em um livro de bolso, eles podem durar o infinito. E o infinito, caros pontos insignificantes, demora um bocado de tempo para passar se você não tem com o que se distrair. Por isso, se existe uma coisa realmente boa em estar perdido no espaço sideral, é o tempo para se pensar em questões primordiais, como: de onde viemos, para onde vamos, por que giramos tanto, etc. Por milhões de anos, uma das mais intrigantes das questões primordiais seria: por que cargas d`água Saturno insiste em usar aqueles anéis tão fora de moda? Dizem as más línguas que Saturno nunca se adaptou muito bem à rotação, e por isso sofreu por muito tempo com problemas de tontura e acabou ficando meio tantã. Uma pena. Outros planetas, ainda mais maldosos, espalham por aí que ele tem sofrido de sérios problemas com excesso de gases, sendo transferido para uma área mais isolada do Sistema Solar. 

A minha segunda grande questão foi tentar compreender por qual motivo me tornei um planeta. Não pensem que foi fácil. Para chegar a uma resposta satisfatória refleti por alguns milhões de anos, atravessei eras geológicas, cataclismos, guerras e meus ácaros (pequenas formas de vida que estão em todos os lugares, incluindo você quando não toma banho) se tornaram espécies tão evoluídas que já dominam inclusive outros planetas. E, a resposta fundamental ao real motivo pelo qual me tornei um planeta, é: eu jamais poderia saber. Passei tanto tempo focado na questão que acabei me esquecendo inclusive como eu me tornara um planeta. Por sorte, os meus ácaros conseguiram reproduzir em laboratório todo o meu processo evolutivo, de modo que pude acompanhar de perto minha humilde origem.

Eis como tudo sucedeu.

Antes de virar uma enorme massa disforme em mutação eu fui um humano como qualquer outro. Na linha evolutiva, entre todas as espécies que habitavam o até então conhecido planeta de onde vim, os humanos estavam em um nível intermediário entre as amebas e os chimpanzés, o mais evoluído dos primatas. Cada espécie tinha seu diferencial, alguma coisa que desse um tchans. Os chimpanzés saltavam de árvore em árvore e catavam piolhos uns dos outros enquanto pensavam em quão idiota era o homem e porque eles sempre estavam lhes apontando armas. Os peixes nadavam muito bem e eram coloridos, mas de vez em quando cometiam a burrada de morder alguma isca de plástico pensando que era comida e, coitadinhos, morriam sufocados foram d`água apunhalados por um anzol – esse vacilo os deixava atrás dos chipanzés, mas não dos humanos. Os humanos sabiam no máximo escrever livros e operar máquinas, mas tão mal que às vezes acabavam colocando os pés pelas mãos e matavam uns aos outros. Deste modo, ser o terceiro lugar na linha evolutiva não tão ruim para quem fazia tanta besteira. Em situação pior estavam as amebas, que nem sei bem o que fazem, talvez seus professores de ciência possam explicar isso melhor.

Então, eu levava minha vida humana quando as coisas aconteceram.

Primeiro veio uma guerra envolvendo várias das máquinas que os humanos não sabiam utilizar bem. Depois, para completar, veio a destruição completa e com ela o fim do mundo. Com o mundo completamente destruído ninguém tinha onde ficar, de modo que todas as formas de vida como peixes, chipanzés, amebas e humanos foram lançadas ao infinito do espaço. Todos passaram a vagar sozinhos, flutuando na imensidão, e aos poucos foram se adaptando a uma nova realidade: girando, girando e girando até se tornarem algo completamente diferente das formas de vida que conhecíamos. Transformaram-se em planetas independentes, cada qual em seu lugar, como várias pedrinhas insignificantes arremessadas ao alto sem qualquer habilidade especial – exceto, talvez, girar.

E continuamos girando.

∞ ∞ ∞

As imagens curiosas que ilustram o texto são fotos de uma explosão nuclear, retiradas daqui.

Novembro 19, 2008

Propagandinha

Gostaria de agradecer ao autor, Renan Rêgo, por tão comovente homenagem.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Novembro 15, 2008

Ferragens _um conto sobre otimismo

Quando entro no carro às vezes penso na possibilidade de não mais sair dele como entrei: com vida, inteiro, ou os dois. É uma estrutura de ferro se movendo em alta velocidade, a segurança garantida pelo serviço de mecânicos, engenheiros, pessoas comuns que podem cometer algum erro. Em 2006, escrevi um texto que tem um pouco disso como pano de fundo, uma premissa para falar sobre otimismo – um otimismo necessário para quando as coisas não podem, nem devem, ficar piores. Achei por bem ser um texto de humor, porquê o contraste parecia apropriado para reforçar a ironia na idéia. 

Vocês podem achar o texto de mau-gosto; um pouco desagradável, até. Mas se coloco aqui depois de tanto tempo escrito é porque realmente gosto dele. Espero que vocês também gostem, o que na verdade me deixaria bastante surpreso.

Abraço fraterno,
Márcio N.

A LONGA E EXAUSTIVA ESTADIA DE M. EM FERRAGENS

Márcio Nazianzeno, março de 2006


FERRAGENS,  09/10/2006

Querida esposa,
uma coisa aconteceu e preciso ficar na Suécia por mais um tempo.

Finalmente comprei o Lada que havia mencionado na última carta. Viajamos por lugares fantásticos e que você provavelmente gostaria muito de conhecer, mas o Lada capotou algumas dezenas vezes em um barranco e se chocou violentamente contra um pinheiro. Eu estava dentro. Tentei saltar do veículo, mas por algum motivo não consegui desatar o cinto de segurança, de modo que o Lada, o pinheiro e eu nos tornamos um só. Vivemos juntos, desde então. A convivência inicial foi um pouco dolorosa, mas agora me considero uma pessoa feliz aqui em Ferragens, um pequeno lugar, pequeno mesmo, em alguma localidade ao Leste da Suécia.

Criei uma rotina e penso em levar uma vida comum aqui por uns tempos. Tenho até uma pequena horta no que sobrou do banco do passageiro, uma horta que batizei de Hortência. Ela é regada com água da chuva e alimentada com os sais deste fértil solo. Já floriram carrapichos e venho desenvolvendo uma nova técnica para o cultivo de capim. Dentro de alguns anos, penso chegar ao protótipo de um combustível à base desta fabulosa plantinha que é o capim. As pesquisas cansam. E quando não me distraio com Hortência, recorro a Tobi, o meu sangue-suga. Creio que ele veio até mim atraído pelo forte cheiro de sangue e logo viramos como unha e carne. Tobi é uma das criaturas mais dóceis e amáveis que já conheci. Aprendi a me distrair e a dar menos importância às pequenas coisas com o meu fiel amigo. Eu costumava acariciar sua cabeça enquanto ele limpava os ferimentos da minha perna com sua língua mas, por algum motivo, a perna infeccionou e os para-médicos precisaram arranca-la. Melhor assim, com uma perna a menos tenho mais espaço aqui. E depois, eu não a estava usando mesmo. Eu gostaria de poder levar Tobi comigo quando voltasse para casa. Ele pode ficar em algum lugar no quintal, você vai gostar dele. Podemos plantar um pinheiro no quintal. Ou então trazer o nosso quintal para a Suécia, se não tiver mais pinheiros no Brasil. A vegetação aqui é diferente e o clima é frio. E apesar dos pesares, gosto daqui. Não é a casa dos meus sonhos, ou nem mesmo a casa dos seus sonhos, mas o pinheiro me traz sombra e os destroços me protegem do frio. Aqui aprendi a ser um homem simples. Vivo entre a natureza e encontrei a qualidade de vida que tanto falam nos comerciais de imóveis. Certamente, a vida perfeita é essa que acontece por acidente. Acordo com o som dos pássaros, e na minha horta em se plantando tudo se dá pois a terra é fértil, e talvez isso tenha a ver com os pássaros e toda a matéria orgânica que eles lançam ao solo como uma chuva de vida. Às vezes a matéria orgânica também cai em minha cabeça. Capins até já começam a nascer nela. A propósito, este é o novo método para o cultivo de capim que eu havia mencionado.

Sobre o Lada e os danos materiais com o acidente, creio que não há com o que se preocupar. Hoje em dia todo bem é tão perecível quanto recuperável, de modo que nada é seu e tão logo ninguém precisa arcar com o que não tem. No caso, o Lada que eu nunca tive, mas que é o meu lada. O rapaz do seguro me explicou essa coisa mas sinceramente não vi muito sentido. O fato é que ele me prometeu, com um ar cheio de entusiasmo, que por eu ter quase perdido a vida, adquirido seqüelas irreversíveis e destruído completamente o meu antigo carro que na verdade tinha um problema no freio, eu ganharia um outro carro como indenização. Eu disse que não preciso de mais um carro se eu não consigo sair do que eu tenho, mas agradeci assim mesmo com uma banana depois de algum tempo de esforço sobre-humano para fazê-la. É assim que as pessoas se cumprimentam na Suécia, com uma banana. O rapaz do seguro foi embora e logo depois já haviam outras pessoas conversando comigo. Como um grupo de hippies que apareceu por aqui outro dia, e que queria expandir a consciência nas imediações de Ferragens. Expliquei que em Ferragens por motivos de racionamento de espaço não era permitido expandir nada, nem mesmo consciência, e os mandei à merda e mais uma vez tive um bom trabalho para improvisar a banana. Outras visitas vieram, mais visitas foram embora. Os suecos são muito atenciosos, realmente. Mas os para-médicos são os únicos que estão por aqui na maior parte do tempo. No começo foi legal, a companhia. Mas agora já sinto falta da antiga privacidade. Outro dia eu queria defecar e precisei fazer isso em público e para alguns milhões de pessoas, que assistiam a uma transmissão ao vivo da imprensa. Desde que me mudei para meu exílio particular em Ferragens me tornei um homem notório e exílio não foi exatamente o que eu encontrei, sobretudo particular. Mas agora está tudo bem. Digo, neste EXATO momento está tudo bem. Os para-médicos saíram para almoçar e a imprensa foi cobrir alguma coisa. Parece que descobriram um escândalo no senado, e eles atrasados foram cobrir. Nunca gostei desse pessoal da imprensa. Mas ainda na primeira semana que me descobriram (e eles cobriram) resolvi vender uma entrevista a eles. Porque para imprensa eu não dou nada, só vendo. Segue abaixo uma transcrição da entrevista, devidamente traduzida ao português, e onde abri mão de maiores descrições e detalhes dos jornalistas para poupá-la, querida, de qualquer dano ao seu córtex arrojado.

— A LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA DO HOMEM PRESO NAS FERRAGENS DE UM CARRO CONTINUA! ESTAMOS AQUI COM ELE, QUE VAI NOS CONCEDER UMA ENTREVISTA EXCLUSIVA DIRETO DO LOCAL DO ACIDENTE! BOM DIA! COMO É ESTAR PRESO ENTRE AS FERRAGENS DE UM CARRO?

— Um pouco chato no início, mas a gente acaba se acostumando.

— MUITA DOR?

— Sim, mas a gente também acaba se acostumando.

— ”ACABAR SE ACOSTUMANDO COM A DOR”. QUE LIÇÃO DE VIDA, GENTE! O SENHOR PODE DESCREVER O QUE ESTÁ SENTINDO?

— Bem, na verdade eu estou com um pouco de sono porque não tenho conseguido dormir bem. Está cada vez mais difícil encontrar uma posição confortável com essa enorme barra de ferro atravessando meu abdômen. Tirando isso acho que estou em perfeita ordem.

— IMPRESSIONANTE! O SENHOR QUER MANDAR ALGUMA MENSAGEM PARA SEUS FAMILIARES NO SEU PAÍS? A NOSSA REDE DE TV É TRANSMITIDA PARA TODO O MUNDO!

ferragens06— Não. E se a senhora me permite eu vou dormir. Passar bem.

Depois da entrevista a imprensa não voltou a me dar voz. Melhor assim. Gostaria que os para-médicos não voltassem e me deixassem apenas em companhia de Tobi, Hortência e meu Pinheiro. Mas se eles não voltarem jamais posso saber se estou vivo. E eu preciso ter certeza de que estou vivo realmente. Preciso deles me ressuscitando e me aconselhando a não morrer. Não morra, disse uma voz feminina outro dia. Não morrer é basicamente o que tenho feito há pelo menos 58 anos, mas ainda assim as pessoas precisam dizer isso ou acabo me esquecendo. Ao contrário de todas as outras funções, viver é uma coisa que se desaprende com a prática.

Fiz bons amigos em Ferragens. Hoje fui apresentado a um profissional da igreja. Como jamais fui religioso conversamos sobre assuntos de outras correntes, como a filosofia de Kant, política internacional, astrofísica, ocultismo e futebol, um assunto que ele parecia dominar bem. Ele insistiu que eu me confessasse e eu disse não tenho crimes a confessar. O meu amigo é um homem erudito, mas um grande idiota também. E ser idiota o torna perfeitamente suportável.  Transcorri sobre planos futuros. Mas logo ele disse é melhor não ter essas idéias e enfiando as mãos nas ferragens me deu tapinhas amigáveis nas costas. E assim ele foi embora. Disse que voltava, com um aceno entusiástico. As pessoas sempre vêm cheias de compaixão e vão embora com pressa, se fazendo parecer animadoras.  Depois que me mudei para Ferragens, sem uma perna, com uma barra de ferro perfurando o abdômen e escoriações em todo o corpo, cheguei à conclusão de que sou um homem de sorte. Tudo convergiu para que eu continuasse vivo. Durante o acidente, por exemplo. O carburador estourou justo ao lado do meu rosto queimando minha pele mas me dando este precioso líquido que é a água, a mesma água que me manteve vivo por dias e noites até que algum mal-educado me cutucasse. Ele me acordou com uma vareta, e quando abri os olhos e pedi mais água o intrometido deu um pulo pra trás e correu feito um louco. Depois voltou acompanhado de mais pessoas, e mais pessoas, e tantas pessoas que eu precisei mandar todos ao inferno e implorar por privacidade. Eles pensam que eu sou louco e não param de aparecer de todos os lugares. 

Tobi agora há pouco ficou meio quieto e ele só faz isso quando alguém se aproxima. 

Devem ser os para-médicos, preciso me despedir… Até logo…

Com amor,
M.

(continua…?)

A foto do carrinho de brinquedo amassado faz parte de um projeto chamado crashbonsai. As demais imagens, dos carros destroçados, são fruto de uma pesquisa rápida e extremamente desagradável no google images.

Novembro 11, 2008

Little Joy _ todas as músicas para ouvir

Pelos comentários que li por aí os fãs do Los Hermanos estão em fervorosa com o álbum do Little Joy, banda de Rodrigo Amarante. Além dele, o grupo tem o baterista dos Strokes, o que abre as portas e as orelhinhas de um público mais amplo. O disco é o que se esperava, tem um pouco de uma banda aqui, um pouco de outra ali, trazendo arranjos com uma atmosfera retrô que, tem horas, lembram algumas coisas do Pet Sounds - soa bem moderninho, até, tanto que beira o abuso. Uma surpresa, eu acho, são as músicas mais puxadas pra um reggae esculhambado e também as sessentistas com a menina cantando, Binki Shapiro, ela tem aquele jeitinho jovem na voz que é uma coisa, ui.

Vocês tem 3 opções para ouvir o disco inteiro do Little Joy:

· A maneira legal, on-line pelo myspace, clicando aqui;
· A maneira ilegal, fazendo um download do disco, clicando aqui;
· A meneira antiga, sendo uma pessoa decente e comprando o disco.

O vídeo acima acabou de ser jogado no youtube. É tão novo, mas tão novo, que o contador hoje acusa menos acessos que esse blogue tão exclusivo.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Leia dança do esfíncter, outro artigo sobre Little Joy.

Novembro 10, 2008

He-Man, por uma geração sem traumas

“She-Ha e eu queremos falar com vocês sobre uma coisa muito pessoal: o seu corpo.  Lembrem-se, o corpo é seu e ninguém deve tocar em você de modo que sinta que está errado.”

“Se você for tocado deste modo não se acanhe: conte para alguém de sua confiança, como: os seus pais, o seu médico, a sua professora ou algum parente mais velho. Certo, Gorpo?”

Esse é um assunto realmente pesado, he-man, mas é preciso reconhecer a importância da tua campanha. E, também, com o que se via na TV, né, Meneguel

Abraço fraterno,
Márcio N.

Novembro 7, 2008

Mismatches _tiras de palitos de fósforo

Quando vi essa campanha de anúncios impressos lembrei de uma série de tiras que gosto muito, Mismatches, premiada em 2006 no 33º Salão de Humor de Piracicaba. A seguir:

O autor é Acácio Geraldo de Lima, que fez apenas duas pranchas com a série.

Da mesma forma que lembrei das tiras quando vi os anúncios linkados lá em cima, pensei em anúncios quando vi a série pela primeira vez – esse é um hábito desagradável que adquiri trabalhando com publicidade; tentar sempre enxergar uma finalidade comercial em entretenimento. O que não é ruim, em todo caso.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Novembro 4, 2008

Animal Collective _vídeos, clipes e videoclipes

Caros e sofríveis detentores da 5ª pior banda larga do mundo: a custo de muita espera, e quando sua conexão terceiromundista carregar, vocês poderão assistir a estes três clipes muito doidos de uma banda massa:

As músicas, na ordem: “For Reverend Green”, clipe não-oficial feito por alguém que gosta da banda; ”Peacebone”, o deles mais popular no youtube; e, o último, “Who could win a rabbit”, uma fábula violenta e loucona.

Animal Collective é talvez a banda que me parece agora mais nova e “atual”, se esse é o termo… ainda assim, tem umas coisas que lembram Syd Barrett, da primeira fase do Pink Floyd - é a impressão que tenho. 

Se gostou da banda leia sobre no wikipédia e escute outras músicas no myspace.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Outubro 31, 2008

Dicas úteis para quebrar o relógio _atribulações/escoriações

A vida é cheia de responsabilidades, alguém pode dizer. Mas falar isso é meio sem sentido, porque viver é basicamente tudo aquilo que você faz quando deveria estar sendo responsável – uma coisa, ou outra…

***

Você pode tentar colocar as coisas em ordem com uma agenda de compromissos. Eu tenho um pedaço de papel, que serve para anotar minhas pendências. Sempre que quero me sentir mal eu olho para essa lista de coisas que não fiz. Da mesma forma, quando eu quero me sentir bem, ou útil, tento resolver algum item da lista. Interferir no meu estado de humor foi a única função dela até aqui.

***

Algumas coisas não fazem muito sentido, por exemplo: no escritório eu sigo uma pauta, e essa é uma lista de obrigações dentro do item “trabalho” de uma outra lista, uma lista maior. Sozinho, o item “trabalho” ocupa a maior parte do meu dia. Passo em média 10 horas no escritório e, dormindo, 6. Para todas as outras coisas, sobram apenas 8 horas – e eu preciso me virar bem com elas.

***

O trabalho danifica o homem.

***

Quando eu era criança e ficava de férias os meus dias eram simplesmente lotados. Sem agendas, listas, nem responsabilidades; eram dias inteiros pela frente, um atrás do outro, num ciclo-viciante de irresponsabilidade e descompromisso, e a vida era assim. Agora, uma pergunta: o que acontece hoje para alguém se ver com nada para fazer quando chega o fim-de-semana?

***

Continho com final triste

Era uma vez um homem que perdeu a memória. Ele então viajou, viveu aventuras, encontrou o amor da sua vida; casou, teve filhos, e foi uma pessoa relativamente feliz. Um dia, em algum lugar, ele encontrou sua agenda de compromissos antiga. Recobrou a memória, esquartejou a esposa, queimou os filhos e voltou para o escritório.

~ FIM ~

***

Uma pessoa fabulosamente bem de vida tem muitas responsabilidades. São tantas, mas tantas, que a primeira providência é, então, contratar uma secretária. Ela vai atender o seu telefone, agendar os seus compromissos, administrar o seu tempo. Você vai se sentir livre, porque alguém vai mandar em você. Algumas pessoas são fabulosamente bem de vida.

***

Alguém uma vez me disse que em Buenos Aires as pessoas têm o costume de, no reveillon, rasgar suas agendas de compromissos. Assim, último dia do ano, todos os anos, as ruas são tomadas por folhas soltas de papel, e as pessoas andam contentes entre elas, felizes que estão com a sensação de liberdade e de dever cumprido. Então, no dia seguinte, o primeiro do ano, elas acordam preocupadas, compram agendas novas e começam a escrever seus compromissos novamente.

***

Agora, uma verdade: não se vive o bastante para se dar ao luxo de desperdiçar o tempo com merda. No lugar de uma lista de compromissos, as pessoas deviam fazer uma lista de possibilidades; e nela escreveriam todas as coisas que realmente gostam, para não esquecer. Uma hora podem precisar.

É isso.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Outubro 29, 2008

Fotos de Deus _segundo um jornal sensacionalista

Nas imediações do Bunker circulava a seguinte manchete num jornalzinho de bairro que precisava melhorar as vendas:

“Fotos de Deus fumando crack vazam na internet.”

Acredite se quiser, irmão ou irmã.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Outubro 28, 2008

barbada_ livros da cosac naify

Da 0h até as 23h59 de hoje, a Cosac Naify está vendendo todos os títulos do seu site com 50% de desconto.

É uma das editoras mais finas do Brasil se vendendo a preço de LPM – então, vai lá.

Abraço fraterno,
Márcio N.

“O Africano”, Le Clézio, Nobel de 2008: de R$42 por R$21.

Outubro 27, 2008

Lucky Three_ elliott smith + links para ouvir sem se sentir enganado

Vídeo de 1996 para apresentar o americano Elliott Smith (1969-2003), que fez algumas das músicas mais bonitas que já ouvi, e continuo ouvindo, ao longo dos anos.

↑ Músicas: 1. Instrumental version based on what became “Baby Britain”, at the beginning and between the last two songs + 2. “Beetween the Bars” (take 3), live on film version here, LP version available on Either/Or (1997) + 3. “Thirteen” (live Big Star cover), also available on the Thumbsucker soundtrack (2005) + 4. “Angeles” (take 1), live on film version here, LP version available on Either/Or (1997) .

Há uma diferença crucial entre o que existe no vídeo acima e tudo o mais que tem sido feito na música pop - cada vez mais artificial, fria, baseada em virtuosismo de estúdio; ao contrário disso, as músicas de Elliott Smith realmente colam, são verdadeiras e você acredita nelas, porque são feitas por alguém de verdade.

Ia escrever mais sobre ele, aqui, mas você pode ler sobre quase tudo nesse texto que saiu no Dying Days. Neste outro site, o sweet adeline, você tem acesso a mais músicas e vídeos. Algo que a matéria do D.D. não cita, por ser antiga, é o segundo álbum póstumo, ”new moon”, lançado recentemente, em 2007.

As músicas para mim parecem mais melancólicas quando vinculadas a figura de Elliot Smith, que sem dar satisfações foi embora do mundo, aos 34 anos, na hora mais animada da festa.

abraço fraterno,
Márcio N.

Outubro 23, 2008

Para conter crise, vereadores de Natal multiplicam próprio salário

Enquanto o Governo Federal prevê cortes no orçamento, em Natal a Câmara dos Vereadores corre para assinar uma reforma ao seu modo: aumentando em muito o salário de secretários, vereadores e até o da prefeita eleita. Leia aqui.

$$$

Aumento de 105,11% para a prefeita eleita.
De R$ 10.780,00 para R$ 22.111,25.

Aumento de 136% para secretários
De R$ 7.000,00 para R$ 16.583,43.

Aumento de 185% para procuradores
De 7.000 para R$ 19.955,40.

Aumento do teto salarial de vereadores para R$ 18.000,00
Assim, ninguém duvida que eles vão votar pelo aumento.

Subsídio diferenciado para Presidente da Câmara para R$ 20.000,00
A proposta é do próprio presidente da Câmara, Dickson Nasser, candidato à reeleição.

$$$

Se me permitem.
Encontrem um abrigo seguro, decente e limpo, que é sempre prudente.
Uma chuva de merda tende a desabar sobre Natal.
Abraço fraterno,
Márcio N.

Outubro 20, 2008

Pessoas em ordem _0 a 100

O vídeo abaixo é aparentemente simples, mas tem algo nele que cativa as pessoas. Eu achei no mínimo leve, divertido, bonito… e filosófico, também.

Quem quiser se aventurar, tem outros no Portable Film Festival.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Outubro 13, 2008

II Mostra Pornô Independente _Sci-Fi

Ventosas em Fúria, uma das revelações da Mostra.

É com muito prazer e as mãos em carne que incluo aqui somente o crème de la crème da II Mostra Pornô Independente, que reuniu neste respeitoso recinto os melhores filmes da Pornografia Geek.

1. Anais de Saturno

Este filme na verdade não se passa em Saturno, mas em Marte. Ao que parece, a tradução brasileira desprezou totalmente a coerência científica em detrimento de exigências comerciais; e, apesar do título desastroso, é um filme dos melhores: cientistas da NASA descobrem que rochas vulcânicas são estimuladas sexualmente quando observadas por satélites espaciais. O voyeurismo, imagino, é a idéia chave desta estória que retrata a rotina de cientistas habituados ao exercício solitário da masturbação para pedaços de pedra, via esverdeados monitores da agência espacial americana. Numa tentativa de driblar a rigidez da censura e ampliar a classificação indicada, em momento algum do filme há penetração, não configurando o ato sexual clássico. Os bastidores revelam ainda outras curiosidades: para interpretar as rochas vulcânicas foram utilizadas atrizes com problemas de frigidez, e o tempo inteiro elas se comportam como pedras, imóveis e inexpressivas. Razoável, mas meio morno.

2. O Buraco Negro de Samanta

Samanta é uma advogada bem sucedida que descobre ter um buraco negro alojado na vagina. Apesar de não muito bonita, Samanta exerce uma forte atração por onde quer que passe, isso porque a estranha força gravitacional atrai para suas regiões genitais toda e qualquer massa encontrada ao seu redor: homens, mulheres, jovens, velhos, objetos cônicos (quais hidrantes e postes), cavalos etc. Samanta, aflita com a maldição lançada sobre seu senso de decência, parte numa empolgante jornada em busca do único homem que poderia solucionar seu problema: um cientista marroquino cujos dotes lhe serviriam para vedar o buraco negro à maneira das rolhas. Por fim, o marroquino e Samanta copulam animadamente, o planeta é salvo e tudo termina bem.

3. Ventosas em Fúria

Em expedição ao Planeta Clitorium tripulação de astronautas enfrenta sérios problemas ao se deparar com uma civilização de ventosas que se alimentam de sêmen. Como se percebe, este é um filme repleto de ação, com muitos efeitos especiais e cenas de combates espaciais com tiros de jatos a laser. A trama, revelada entre cenas de sexo entre ventosas e humanos (o que provavelmente muito choca as pessoas sensíveis, acometidos pela ejaculação precoce), mostra uma população dividida em três grupos: orais, anais e vaginais – a raça dominante e que vem perdendo sua hegemonia nos novos tempos. Tortuosas batalhas são travadas entre os povos, sugando até a última gota de energia das vítimas, pobres homens aflitos. Após muita peleja, o enredo toma novo rumo, agora mais panfletário, com um tratado de paz estabelecendo o convívio harmônico entre orais, anais e vaginais. O que sucede: Astronautas integram a população de Clitorium, ventosas vivem tempos de bonança e o filme encerra com um inspirado discurso pacifista proferido por uma genitália. Esta é, a meu ver, uma mensagem educativa para as crianças que por ventura venham a assistir ao filme escondidas dos pais.

4. A Mulher Elástica

Como não poderia deixar ser este filme começa com uma incrível seqüência de abertura (e este é um início e tanto) colocando à prova os limites da resistência humana e sobretudo os limites da própria razão: o filme dispensa efeitos especiais mesmo nas cenas em que a mulher elástica explora toda a sua flexibilidade, em momentos de pura tensão. Uma crítica: a utilização de enquadramentos que não dão a menor chance para a imaginação comprometeram a sensualidade do filme, que erra a mão na medida entre pornografia e ciência – esta sim, bastante explorada no campo da anatomia humana. Por sorte, e para alívio dos pagantes da mostra, o filme conta com um bom argumento: um acidente nuclear na cidade de Chenabill confere habilidades especiais a Chuparova, uma camponesa russa de 18 anos de idade, seios convincentes e um intenso furor uterino. Se você ainda não viu, provavelmente não verá jamais: ele tornou-se uma raridade quando a atriz que interpreta Chuparova admitiu ter 70 anos quando as filmagens foram realizadas, o que levou ao recolhimento das cópias.

5. A vida íntima dos robôs

Atendendo aos fetiches mais obscuros dos mais perversos geeks, este filme de mecânica pesada mostra sem qualquer constrangimento as mais explícitas cenas de parafusos sendo inseridos em roscas, placas encaixadas em plots, luzes e leds frenéticos, algoritmos complexos, bips sensuais etc. Na cena de maior apelo, e que produziu um urro conjunto nas gordurosas salas do Bunker, um antigo PC 486 era totalmente formatado ali mesmo, em frente às câmeras. Obrservação: Desaconselhável para pessoas com vida sexual ativa.

6. Time Machine – Travessuras através do tempo

Em um colégio interno japonês estranhos incidentes ocorrem quando é encontrado um misterioso vibrador capaz de fazer as pessoas viajarem no tempo. A meu ver este foi apenas um recurso dos roteiristas para explorar fantasias inéditas ao longo da História; porque as seqüências seguem um padrão: numa hora uma colegial brinca em sua cama e, no instante seguinte, está em um contexto totalmente novo em algum lugar sujo perdido na História. Na idade média, no período colonial, na civilização maia, e, na cena da caverna, temos uma colegial japonesa mandando ver com o primeiro Homo-Erectus. Mais adiante, em um mundo futurista dominado pelas máquinas, temos pistas substanciais sobre a origem do estranho brinquedo.

7. Abduza-me, por favor

De longe, o mais divertido filme da mostra: num sábado à noite, grupo de alienígenas adolescentes decide perder a virgindade no Planeta Terra e logo se tornam uma grande novidade para as garotas. Conhevenhamos: se carros importados impressionam algumas mulheres, espaçonaves com luzes multicoloridas e design arrojado são sucesso garantido – sem contar que, mesmo quando a fêmea não é atraída à espaçonave por livre-vontade, ela pode ser abduzida facilmente ao mínimo toque de um botão. Agora, uma curiosidade do filme, talvez a que mais tenha rendido bons momentos, são os desencontros ocorridos entre as duas espécies durante o sexo. Cuidado, portanto: embora o filme mostre o contrário, ouvidos e narinas não estão aptos para a penetração.

8. Tentáculos & Tentações

Neste clássico do pornô moderno uma bióloga se apaixona por um polvo modificado geneticamente e que se chama Valtenor. Com claras referências a “20.000 Léguas Submarinas” e “Garganta Profunda”, o filme rende cenas de tirar o fôlego nesta comédia romântica para maiores. Efeitos especiais primorosos dão um tom único ao filme, sendo o Polvo interpretado por um molusco de verdade e a mulher feita totalmente por computação gráfica. Alguma cenas do filme você pode conferir aqui, salvo, claro, se você não estiver usando o computador em um cantinho todo seu.

9. O Homem Elefante

Original dos anos 1940, este longa-metragem provocou uma onda de constrangimento nas videolocadoras nos últimos anos. Não foram poucas as pessoas que, ao procurar pelo filme de David Lynch, acabaram por esbarrar com este clássico do Pornô–B. Acontece que o filme de D.L. é um plágio descomunal, diga-se, tão descarado que copia sem o menor pudor os mínimos (perdão pela injustiça do termo) detalhes do original: o filme do surrealista também tratava de uma aberração cuja tromba grotesta se acentuava no rosto, como se por estar alguns metros deslocada ninguém perceberia a semelhança. Sim, o plágio está na cara.

10. O homem invisível, a mulher invisível e o cavalo invisível

No País das Pessoas Invisíveis todos fazem sexo o tempo inteiro e, por mais que neste lugar seja impossível se enxergar qualquer pessoa, o filme tenta mostrar as mais obscenas perversões sexuais praticadas por qualquer homem, mulher ou equino. Sem utilizar qualquer ator ou atriz durante as duas horas de filme, onde tudo o que podemos ver são paisagens desérticas (onde teoricamente pessoas invisíveis estão trepando) ambientadas com o áudio extraído de filmes pornô antigos. Mas o filme dá conta do recado ao cativar a imaginação dos espectadores. Por exemplo: na cena do sexo na cachoeira tudo o que vemos é uma cachoeira, e o áudio de alguém se divertindo; na suruba da universidade tudo o que vemos são carteiras universidade vazias, e o áudio de duzentas pessoas se divertindo; na cena da aberração em um celeiro tudo o que vemos é o celeiro, e o áudio de um filme do Zorro. Para mim, ver este filme foi como assistir a uma daquelas telas um videokê – mas ao invés de uma música fodida, eu ouvia o som de pessoas fodendo.

Abraço fraterno,
e com o devido respeito,
Márcio N.

Confira a I Mostra Pornô Independente, aqui.

Outubro 8, 2008

Festival de cinema alternativo _tudo pronto para a grande festa

Cinéfilos, zoófilos, amantes das artes em geral: a custo de muito esforço, e não sem a compreensão das autoridades, resgatamos os rolos perdidos com o melhor da pornografia alternativa. Contamos com a presença de vocês.

↑ Imagem extraída de Tentáculos & Tentações, 1984.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Confira as resenhas da primeira edição do evento, aqui.

Outubro 6, 2008

As Pérolas do Coveiro _instruções para enterrar defuntos

Uma correspondência de Chico Moreira Guedes acaba de chegar do leste trazendo mais uma de suas traduções. O texto, ainda sem versão oficial em língua portuguesa, e portanto inédito, integra uma coletânea de contos húngaros a ser lançada em meados de 2009 pelo próprio.
† “Leiam sem pressa de chegar ao fim, que é como se deve levar a vida antes de tudo ser aplainado sobre nós.” - O Coveiro.

Abraço fraterno,
Márcio N.

AS PÉROLAS DO COVEIRO
Dudás Attila, 1968

      Conheci um coveiro, disse-me uma vez o senhor Alcachofra, cuja altura era exatamente a mesma que a fundura de uma cova: um metro e oitenta e nove. Pois a lei estabelece que todas as covas devem ter exatamente essa profundidade. O nosso homem (cujo nome não revelarei, pois, por um motivo ancestral inescrutável, não nos é permitido saber o nome daquele que deixará tudo bem aplainado depois de nós) era, em resumo, o melhor coveiro que jamais vi. Destacava-se dos demais, e, santa verdade, não apenas por sua estatura. Em meio aos pranteadores encurvados pela dor, ele parecia positivamente enorme, quase um gigante. Seu trabalho (que não se ensina em lugar nenhum – é preciso nascer com o dom de coveiro), ele executava de maneira verdadeiramente especial, pois sempre media as covas pela sua própria altura. Podemos afirmar tranqüilamente, portanto, que, de certa forma, ele, em realidade, cavou sua própria cova a vida inteira.
      E como amava a terra!
      Sobretudo aquela argilosa e bem escura, pois tinha a santa convicção que foi com essa terra argilosa que o Senhor Deus modelou o primeiro homem-de-lama, e exultava em saber que da mesma matéria formadora do homem, podia fazer o leito para o seu honroso suspiro final. Esta terra negra, repetia sempre, é “divinal, é o que digo, divinal!”, e em meio ao trabalho gostava de provar da terra “divinal”, pois nenhuma outra tinha um gosto tão bom como o dessa pura terra negra. Estava firmemente convencido de que mesmo para além do túmulo era preciso buscar o melhor; ou seja, não é indiferente, em absoluto, o sabor da terra de que nossa boca estará cheia décadas depois da nossa morte. Exatamente por isso apreciava menos os solos pedregosos, pois esses, ele, fazendo uma careta, considerava “imprestáveis” para o paladar humano. O solo arenoso, por sua vez, ele francamente não podia suportar, porque em sua opinião, esse tipo de terra simplesmente “escorria como a vida entre os dedos do homem”, e no final, nosso próprio túmulo podia ruir sobre nós, “como uma espécie de pesado firmamento negro”.

      Bem, mas ele não era o melhor dos coveiros apenas devido ao seu amor pela terra. Mas sim, por causa de suas pérolas! Porque todos os coveiros ganham o pão com o suor do seu corpo; e eu me admirava de como suas gotas de suor escorriam para a terra negra. No caso do nosso comprido coveiro, no entanto, escorriam-lhe pérolas não apenas da fronte, mas também dos olhos. À medida que envelhecia, pranteava continuamente os mortos, embora geralmente não os conhecesse.  Em pé, no seu palco por cima da cova, segurando a pá como um barqueiro taciturno que remasse, o velho coveiro empurrava a terra sobre o caixão, enquanto as lágrimas vertiam silenciosamente dos seus olhos. Primeiro uma única lágrima deslizava pela sua face sulcada, imediatamente dissolvida num sorriso que a inundava; depois daquela, seguiam-se outras, desenhando caminhos caprichosos no rosto empoeirado, então se misturavam com suor e escorriam para o chão, e para a cova, como verdadeiras pérolas; assim suas lágrimas eram também enterradas com os defuntos. Os parentes, por sua vez, aliviavam-se gradualmente da dor, admirados com as trilhas brilhantes das lágrimas na velha face enrugada do altíssimo coveiro.
     Pois fiquem sabendo: as lágrimas do coveiro são o sal da terra, disse o senhor Alcachofra, e uma lágrima solitária partiu-lhe do olho em direção à boca.

[Traduzido por Chico Moreira Guedes]

* † * † * † *

Fotos de Natalia Sahlit. Para ler outra tradução, clique aqui.

Outubro 6, 2008

Cena Social Quebrada _cause=time

Aprenda a se vestir decentemente com este clipe do Broken Social Scene:

Cause = Time / Broken Social Scene / 2001

BSS é uma banda canadense de formação flutuante com em média 12 integrantes que variam a cada disco, show e gravação. A exemplo de Feist, vez por outra algum membro do grupo destaca em carreira solo.

Se você gostou pode ler sobre no wikipedia, ouvir mais no myspace e assistir a outros vídeos no youtube.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Outubro 1, 2008

Pare de fumar fumando _gabriel novaes

Esse desenho foi pintado por Gabriel, que também está dando uma diminuída no cigarro.

Outro dia estávamos no trabalho falando sobre o vício:

— Márcio, rapaz, ontem tentei ir dormir sem fumar.
— E aí?
— Quando deu 7 da manhã eu fui no posto, comprei uma carteira, fumei e dormi.

Acho que amanhã vou na Vidraçaria Yang, a mais barata do mundo, e colocar uma moldura nesse quadro.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Setembro 29, 2008

Centenário de Machado de Assis + língua portuguesa renovada

Machado de Assis (1839-1908)

Hoje, 29 de setembro de 2008, completam-se 100 anos da morte de Machado de Assis. Em virtude dessa data a Folha de São Paulo preparou um especial sobre ele, aqui.

É também hoje que presidente da República Federativa do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, que provavelmente nunca leu Machado de Assis, assina com sua impressão digital o decreto para a implantação do acordo ortográfico entre os países de língua portuguesa. Mas assina a contragosto: era sua vontade que o idioma oficial do Brasil fosse agora a língua do “P”. 

aprabrapaçopo frapatepernopo,
Máparcipiopo N. (?)

(?) Dialeto falado no meu bairro antigamente, o “P” do gueto. Será que alguém ainda conhece a língua do “P” formal, nas normas clássicas?

Setembro 25, 2008

2 pra lá, 2 pra cá _dança do esfíncter

!?  ?!
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Com o fim dos los hermanos o público da banda se dividiu em dois grupos: uns seguem Marcelo Camelo por uma onda mpb madura e outros vão, com Rodrigo Amarante, rumo a um pop dançante. São caminhos opostos, cada um para o seu lado. Agora, uma coisa que venho pensando já faz tempo: tem coisa mais chata que fã dos los hermanos? Talvez só fã de legião urbana.
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Abraço fraterno,
Márcio N.
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Setembro 24, 2008

Joshua Allen Harris, NY, EUA _it’s alive!

Sacos plásticos fixados em tubos de ventilação de metrô reproduzem formas que parecem ter vida própria. O efeito surpreende a pedestres, que acabam cruzando com minotauros, gigantes, ursos polares, dragões etc em plena calçada.

A idéia foi reaproveitada nessa campanha de conscientização contra o aquecimento global. Gostou? Tem mais aqui.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Setembro 22, 2008

Mossoró _a primeira chocadeira de alienígenas do semi-árido

Caros conterráqueos,

habitando este luxuoso orifício incrustado na costa do Atlântico sinto-me agora finalmente integrado com o mundo: eis que Mossoró, cidade-irmã, certamente beneficiada por suas condições adequadas de calor veio a se tornar a primeira chocadeira natural de alienígenas que já se teve notícias. Ou pelo menos foi o que li no Jornal “O Mossoroense” da última quinta-feira, que noticiou o aparecimento de um Ovo de ET na casa de Seu Concriz, poeta e comerciante local. A seguir, um resumo do debate que houve entre diversas autoridades em volta do óvulo. Também estaremos lá, graças a este arrojo da tecnologia que é o seu córtex cerebral.

Abraço fraterno,
Márcio N. 

OVULUM MOSSOROENSIS
(por Nazianovski-Szienov II)

Hoje cedo em Mossoró não se falava de outra coisa senão do estranho incidente naquela fervilhante cidade do semi-árido: um ovo de ET, pesando aproximadamente 100 gramas, apareceu do nada na casa de um distinto comerciante, o Seu Concriz, que naturalmente perdeu o sossego com a multidão de curiosos que tomou conta do seu quintal. A saber, neste exato momento ocorre um animado debate entre os especialistas que se aglomeram em volta do ovo.
Clique para continuar lendo.

Setembro 17, 2008

Como matar amigos com agendas de celular _vida social

— E então, rapaz, como foi a vida?
— Mais ou menos. 

***

Ontem encontrei minha agenda telefônica velha. Para se ter idéia de como é velha, ela é do tempo em que as pessoas ainda usavam agenda telefônica. Isso era antigamente, antes do celular. Agora as agendas estão no celular, e isso é ótimo, porque toda vez que troco de aparelho eu perco com ele a maioria dos meus contatos; depois, sem que você perceba, a agenda está cheia denovo.

***

Minha agenda telefônica velha está cheia de fantasmas. São nomes de defuntos, aparecendo em ordem alfabética, um após o outro. A maioria não são nomes de pessoas de verdade, porque elas provavelmente nem existem mais, e quando digo que não existem mais é porque geralmente o tempo as transforma em estranhos; é o que acontece.

***

Uma vez alguém disse que o mundo era como uma panela com água fervendo. Nessa panela as bolhas de ar são as pessoas, e a trajetória que uma bolha traça, do fundo da panela até o topo, é a história da vida de um indivíduo. São várias bolhas surgindo, se debatendo e estourando, tudo de forma muito confusa. O livro era Quincas Borba ou Brás Cubas, não sei direito, e esse raciocínio hippie ilustra bem como relações sociais são algo absolutamente casual e sem sentido.

***

Mas nem tudo é uma merda, e algumas pessoas viram cervejas e cafés eventuais, num esbarrão qualquer. Senti vontade de ligar para algumas pessoas da agenda – pensariam que eu tava doido, ou ficariam assustadas com uma ligação sem motivo aparente [deve ter sido por isso que inventaram os aniversários].

***

Acabo de elaborar um plano: quando eu tiver bem velho, e se tiver comido fígado suficiente pra não sofrer de atrofia cerebral na velhice [entenda], vou pegar um telefone e discar alguns números da agenda. As conversas já têm um começo: “E então, rapaz, como foi a vida?”.

É isso aí, pessoal. Esse foi o texto de auto-ajuda da semana.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Setembro 16, 2008

‘Giros, Notas’ _o conto de igor santos, agora na íntegra

Agora sim: o conto completo, com a ajuda de uma ferramenta do wordpress que eu desconhecia.

Pois bem, ‘Giros, Notas’ é a estória de um homem permanece consciente apesar de morto – tudo com um jeitão detetivesto e sobrenatural. Eu gostei do texto, e agora que vocês podem ler inteiro, aproveitem aí.

Abraço fraterno,
Márcio N.

GIROS, NOTAS
(Sobre como Ross Gitano percebeu que estava morto e tentou inutilmente se safar)

Ross Gitano ficou deitado no chão, sem saber o que fazer.

Ele estava morto. Havia pouca dúvida disso, havia um enorme e horrível buraco em seu peito, mas o sangue que antes se esvaia de dentro dele recedeu e agora apenas pingava. Além disso, nenhum outro movimento provinha de seu tórax. Ou de qualquer outra parte sua.
Ele olhou para cima e para os lados e tornou-se claro para ele que qualquer que fosse a aquela parte dele que estava se movendo, não era parte alguma do seu corpo. clique para continuar lendo