Maio 18, 2009

O mundo é um moinho

Reencontro de Cartola com o pai, acolhendo o filho endividado e ausente.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Maio 11, 2009

Laerte _drágea047

Laerte, no Manual do Minotauro. Clique na imagem para ver ampliada.

SOBRE DESENHO: “Daniel M. Berman é um super amigo, que vive em San Francisco e é jornalista e ativista na saúde do trabalho e na defesa do meio ambiente, contra os conglomerados que tomam posse da vida e do planeta e reduzem os seres humanos a peças de um jogo insano. Dediquei o desenho dos beijadores a ele assim meio do nada – out of the blue. Mas esse da luta saiu (sem querer) uma citação de um livro dele: «Who Owns the Sun».” – LAERTE.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Maio 11, 2009

Uma tirinha quente

A imagem abaixo tem uns 70Kb e leva alguns segundos para carregar:

Uma das fotos mais medonhas que já vi na internet.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Outras tiras: Rosalina & Oswaldo +  Mãe Dinah, a vidente

Maio 8, 2009

Homem de Firme Destino – Capítulo 17

Versinho popular: ”Abre as janelas e deixa a esperança entrar na tua casa trazida pelo vento da tarde.” Mais um capítulo sem sentido do HdFD.

Abraço fraterno,
Márcio N.

 

CAPÍTULO XVII
(aprendendo a voar num dente-de-leão)

               Algumas histórias os ventos nos trazem; outras, devemos ir nós mesmos atrás delas, montados na corcunda do próprio vento. Descruzemo-nos os braços, pois, para partirmos em busca de mais um extraordinário causo do Homem de Firme Destino; utilizando, em tempo, um dente-de-leão comum de peso e aerodinâmica adequados. Essa magnífica plantinha nos servirá de meio de transporte, a carregar a todos nós através de uma corrente expressa de ar, a rota do acaso de todos os perdidos. Um empreendimento dessa natureza, donde são incertas as condições da viagem, deve se iniciar com um planejamento cuidadoso. Devemos-nos antecipar a qualquer infortúnio – se não para evitá-lo, ao menos para não sermos pegos de surpresa, e, munidos de esperança, procuremos assim um vasto campo de flores de dentes-de-leão, onde a ampla oferta de espécimes possibilite a escolha da melhor nave. Como sabemos, não existe melhor lugar para plantas de qualquer espécie do que as paragens de solo fértil; e qual solo seria mais fértil que o de um cemitério de uma cidade violenta, via de regra e de hábito excepcionalmente bem adubado, a fazer brotar com vigor a vegetação que tem na morte dos outros o seu estrume? No reino dos defuntos, então, convém habituar-se aos percalços da vida. Viagens em dentes-de-leão são, na maioria das vezes, empreitadas excepcionalmente seguras; na medida, claro, que a própria segurança se torna uma exceção: os vôos são, quase sempre, um desastre completo. Despeçamo-nos dos parentes e amigos, portanto; acomodemo-nos agarrados uns aos outros em desespero sadio, e nos façamos tripulantes acreditados de muita fé em uma jornada para além das possibilidades. Cardíacos e sensíveis, congratulem-se como bons companheiros que são ante a chance de seguir o mesmo destino dos aventureiros lançados por solavancos tremendos para fora da nave, quando mergulham eles na escuridão eterna. Animem-se, pois, que não há razão para o pânico, e mui esperançosas são as estatísticas: uma Nave Dente-de-Leão, quando comandada por escrivão experiente, pode assegurar que ao menos uma dúzia de tripulantes chegue ao destino em segurança – contando, aí, o próprio escrivão – dos mais de trinta que embarcaram na missão cientes (mas não totalmente convencidos) dos riscos ofertados pela viagem. Pois bem, posta a limpo a situação, podemos passar para a etapa seguinte – com seu consentimento, obstinado leitor, e sob sua total responsabilidade.

DECOLANDO

              Estamos precisamente ao lado da lápide de um certo Epaminondas III, cujo epitáfio de letras charmosas muito nos inspira: “Aqui jaz um fracassado”, neste hospitaleiro e excepcionalmente bem adubado cemitério metropolitano, cujo ambiente, impregnado de uma atmosfera mística, enaltece o espírito de maneira peculiar – o canto dos pássaros se misturando aos estampidos dos tiros de uma favela próxima. O cemitério é, além de um cemitério, um vasto campo de dentes-de-leão. Escolhemos aquele de melhor aparência, que brota firme com a ajuda dos sais cedidos pelo bom Epaminondas III, em natural processo de fertitilzação. O vento sopra, abastecendo a nave de energia, e nos lança ao ar. Agarramos-nos a um dos pequenos para-quedas que compõem o conjunto de sementes que se disseminam com o vento. Alguns leitores despencam às migalhas, e findam a se esborrachar no solo que é agora a casa de cada um deles; os que permanecem a bordo da Dente-de-Leão seguem em direção contrária, para cima e cada vez mais para cima – de modo que, a essa altura, já sobrevoamos as lápides a uma boa distância do chão, deixando para trás o bom Epaminondas e seus colegas do cemitério – os mortos sentindo saudades dos que vão embora – e nós, o coração na garganta, seguimos com alguma ansiedade e demasiada instabilidade pela Corrente Expressa de Ar. Ela sopra em direção ao sul, e sempre para o sul, onde mais à frente marcha com segurança e em terra firme o Homem de Firme Destino, um passo atrás do outro, com larga e notável vantagem.

Leitores na decolagem: 36
Leitores depois da decolagem: 15

***

Outros capítulos, aqui.

Maio 6, 2009

Fialhóvski

Carlos Fialho lançará o livro “Mano Celo” nessa quinta-feira (7), às 18 horas, na Siciliano do Midway Mall. O livro, escrito originalmente em russo, foi traduzido pelo próprio autor para o português.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Nota (08/05): Foram vendidos 384 livros em uma noite, e foi o maior lançamento realizado numa Siciliano em Natal até hoje. Fialho publicou por conta própria, sem encalhe e com uma aceitação fora do normal. Numa cidade onde não se lê, conseguir uma coisa dessas não é fácil.

Abril 30, 2009

Gripe Suína _Brasil

O Banco de Saúde está reunindo informações sobre a Gripe Suína no Brasil. É o novo inimigo - ao menor espirro, todo mundo se apavora. Até mesmo a dengue, que mata brasileiros feito praga, ao que parece não assusta mais por aqui.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Abril 29, 2009

Roleta-Russa _continho desportivo

Escrito só pela estranheza da idéia, mesmo.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Confissões de um vencedor

m.n.f. / 09

Eu ocupava o lugar mais alto do podium, que estava vazio exceto por mim, ao término do estimado torneio desportivo, a Copa do Mundo de Roleta-Russa. Venci cento e tantas rodadas, assisti ao tombo de ao menos duas dúzias de adversários diretos; sem contar os outros tantos que sucumbiram pelo caminho nas demais chaves do campeonato. E posso lhes garantir, senhoras e senhores, que foi um espetáculo. Uma das partidas mais emocionantes, recordo bem, foi aquela que durou aproximadamente três horas sem que fosse efetuado um único disparo. Tantas vezes os  adversários puxaram o gatilho que seus dedos tremiam mais de fadiga do que pelo nervosismo, a agulha nunca encontrando a bala – em determinada hora, porém, e com os nervos já não mais suportando a tensão, o juiz interveio carregando o revólver que, como constatou, estava vazio de munição. A iniciativa levou um dos participantes a abandonar a partida, e, o outro, impaciente que estava, não pôde fazer outra coisa senão atirar às costas do primeiro, que fugia correndo. A arquibancada, antes silenciosa e apreensiva, nessa hora foi tomada por um colorido alegre e todos reagiram animadamente; arremessaram flores brancas, vermelhas, e não se sabe se festejavam a vitória de um ou lamentavam derrota do outro, e como vibraram os torcedores. Este é um esporte para poucos: a cada dois jogadores apenas um mantém a cabeça no lugar – os derrotados espalham-na pela parede ou pelo chão; são péssimos perdedores, como dizem, quando o sucesso de um é invariavelmente o fracasso do outro, e esse é o espírito do esporte. De todo modo, atletas do mundo inteiro se reúnem para a disputa dos jogos travados sobre a encarnada neve de São Petersburgo, a capital da roleta-russa, num intervalo de dois e dois invernos – tempo necessário para que as delegações possam repor as baixas da última edição e realizar o treinamento das equipes – nessa parte, o treino, há um fato curioso: tradicionalmente, o atleta vencedor é utilizado em benefício do seu país de origem, selecionando ele próprio os atletas de melhor desempenho; atividade das mais desgastantes: a certa altura o vencedor será fatalmente derrotado por um iniciante, que de imediato passa a posição de líder nas próximas etapas da classificatória; a partir daí, todos saem atirando contra a própria cabeça e o que sobreviver será o representante do seu país na competição. Não se tem registro de um único campeão que tenha competido duas edições do torneio – da participação recorrente de fracassados sabe-se de apenas uma, um homem perdeu a metade do cérebro num ano e, na edição seguinte, foi-se o outro hemisfério – há de convir que apesar de pouca vocação para o sucesso, o infeliz, duplamente derrotado, era obcecado pela vitória. Tentou, tentou, e não desistiu – mas deveria. De certo, são conhecidas algumas das razões para se tornar vencedor: o torneio, televisionado neste e em outros continentes, é um dos mais populares do globo, e ao término de cada edição, eleva um homem comum à categoria de ídolo; o escolhido goza de instantânea popularidade, é reverenciado nas ruas como eram antes os reis, e, dado o temperamento expansivo dos amantes do esporte, acontece ainda de ser alvejado por disparos de atiradores anônimos – o que, no entanto, é considerado um fim digno à alcunha de herói (ao menos na opinião do atirador escondido na multidão). E assim a conquista individual é comemorada em grupo, e o vencedor saudado por aqueles que nunca ganharam coisa alguma. Nas tabernas, o vencedor tem seu nome ovacionado por senhores de narizes vermelhos cheirando a vodka; seu glorioso nome ecoa pelos bares, e os senhores, de porte de uma pistola descarregada, reproduzem com muito empenho os lances memoráveis da partida. Mas, quando a vodka bate muito forte, há sempre o risco de alguém negligenciar a retirada das balas da pistola, o que ocasionalmente leva o fã ao invés de reproduzir as jogadas do campeão, a prestar derradeira homenagem ao derrotado – uma humilhação desnecessária, e bem-vinda ainda assim, já que ao derrotado nunca ofereceram nada além de flores. Tem ainda aqueles que, embora descarregando a arma das balas, descarregam-na nos freqüentadores da taberna com saudosos disparos em estupor hipnótico. Este é o mundo da roleta-russa e o de qualquer esporte conhecido. E, em consideração a vocês, cuja vitória nunca se fez presente, eu, nunca tendo amargado uma derrota, prestarei minha homenagem com uma exibição gratuita de espantoso talento na modalidade que me rendeu fama e glória. Pois bem, deixe-me girar o tambor… isso… agora eu vou ………………………………………

Abril 27, 2009

Desenhos à venda

Daniel está vendendo os desenhos dele para ajudar no pagamento de um transplante. Interessados devem escrever para dliberalino@yahoo.com.br.

Abraço fraterno,
Márcio N.

A imagem tem 400kb e leva algum tempo para carregar:

Mais ilustrações em:
http://disfuntorerectil.blogspot.com

Abril 23, 2009

O barão, o uísque e a mulher ranzinza

Outro texto de Apparício Torelly, o Barão de Itararé.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Uísque e Mulher Ranzinza
Barão de Itararé

Eu tinha doze garrafas de uísque na minha adega e minha mulher me disse para despejar todas na pia, porque se não…

— Assim seja! Seja feita a vossa vontade, disse eu, humildemente. E comecei a desempenhar, com religiosa obediência, a minha ingrata tarefa.

Tirei a rolha da primeira garrafa è despejei o seu conteúdo na pia, com exceção de um copo, que bebi.

Extraí a rolha da segunda garrafa e procedi da mesma maneira, com exceção de um copo, que virei.

Arranquei a rolha da terceira garrafa e despejei o uísque na pia, com exceção de um copo, que empinei.

Puxei a pia da quarta rolha e despejei o copo na garrafa, que bebi.

Apanhei a quinta rolha da pia, despejei o copo no resto e bebi a garrafa, por exceção.

Agarrei o copo da sexta pia, puxei o uísque e bebi a garrafa, com exceção da rolha.

Tirei a rolha seguinte, despejei a pia dentro da gar­rafa, arrolhei o copo e bebi por exceção.

Quando esvaziei todas as garrafas, menos duas, que escondi atrás do banheiro, para lavar a boca amanhã cedo, resolvi conferir o serviço que tinha feito, de acordo com as ordens da minha mulher, a quem não gosto de contrariar, pelo mau gênio que tem.

Segurei então a casa com uma mão e com a outra contei direitinho as garrafas, rolhas, copos e pias, que eram exatamente trinta e nove. Quando a casa passou mais uma vez pela minha frente, aproveitei para recontar tudo e deu noventa e três, o que confere, já que todas as coisas no momento estão ao contrário.

Para maior segurança, vou conferir tudo mais uma vez, contando todas as pias, rolhas, banheiros, copos, casas e garrafas, menos aquelas duas que escondi e acho que não vão chegar até amanhã, porque estou com uma sede louca…

***

Ler mais em: ReleiturasWikipediaCulturabrasil

Abril 23, 2009

Conselho médico _barão de itararé

Texto do Barão de Itararé extraído do projeto releituras. Trata-se de um artigo pela administração responsável de medicamentos com cerveja, ou da cerveja como remédio – ou, ainda, do remédio como remédio. Da coletânea “Máximas e Mínimas do Barão de Itararé” , Ed. Record, 1986.

Abraço fraterno,
Márcio N.

CONSELHO MÉDICO
(Como devemos tomar nossos remédios)

Quando estamos doentes, afinal não temos outro remédio senão tomar remédio.

O remédio, aliás, sempre faz bem. Ou faz bem ao doente que o toma com muita fé; ou ao droguista que o fabrica com muito carinho; ou ao comerciante que o vende com um pequeno lucro de 300 por cento.

Mas apesar do bem que fazem, devemos convir que há remédios verdadeiramente repugnantes, que provocam engulhos e violentas reações de repulsa do estômago.

Como devemos tomar esses remédios repugnantes? Aí está o problema que procuraremos resolver para orientar os nossos dignos e anêmicos leitores.

O melhor meio de vencer as náuseas, quando temos que ingerir um remédio repelente, consiste em recorrer à lógica dos rodeios, adotando os métodos indiretos, até chegar à auto-sugestão, transformando assim o remédio repugnante numa coisa que seja agradável ao paladar. Numa palavra, devemos tomar o remédio com cerveja, por exemplo.

Como devemos proceder para chegarmos a esse magnífico resultado?

É indispensável comprar, antes do remédio, uma garrafa de cerveja. Depois, é necessário bebê-la devagar, saboreando-a, para sentir-lhe bem o gosto. Liquidada a primeira garrafa, pedimos outra cerveja. Esta vamos tomá-la de outra forma, também devagar, mas com a idéia posta no remédio, cuja lembrança naturalmente nos provocará asco. Para voltarmos ao normal, encomendamos uma terceira garrafa, com a qual, lembrando-nos sempre do remédio, iremos dominando e vencendo a repugnância. Na altura da quinta ou undécima garrafa, nós já estaremos convencidos de que o gosto do remédio deve ser muito semelhante ao da cerveja e, assim, já poderíamos beber calmamente o remédio como cerveja. Mas, como não temos o remédio no momento e já não temos muita força nas pernas para ir à farmácia, então continuamos a beber a infusão de lúpulo e cevada, até chegarmos a esta notável conclusão: se é possível chegar a se tomar um remédio tão repugnante como cerveja, muito mais lógico será que passemos a tomar cerveja como remédio, porque a ordem dos fatores não altera o produto, quando está convenientemente engarrafado.

Barão de Itararé - 1895/1971

:)

“Antes Duque, num gesto de humildade rebaixou-se para Barão”. Leia mais aqui.

Abril 23, 2009

Biblioteca Digital Mundial _unesco

Operations Against the Japanese on Arundel and Sagekarsa Islands; Bushemi, John; 1943 - BIBLIOTECA DIGITAL

E-mail que recebi hoje:

“A Unesco lançou oficialmente, nesta terça-feira (20/04), o site da Biblioteca Digital Mundial, em que é possível navegar pelo excepcional acervo de livros, manuscritos e documentos visuais e sonoros procedentes de bibliotecas e arquivos do mundo todo. Reproduções das mais antigas grafias e fotografias estão entre os vários documentos raros apresentados em sete idiomas (árabe, chinês espanhol, francês, inglês, português e russo). O lançamento aconteceu na sede parisiense da Unesco, na presença de seu diretor-geral Koichiro Matsuura, e de James H. Billington, diretor da Biblioteca do Congresso Nacional dos Estados Unidos, idealizador do projeto.” 

 

 

Abraço fraterno,
Márcio N.

Abril 15, 2009

Ataulfo Desmembrado

Texto novo:

Comovente fim de Ataulfo Desmembrado

por márcio nazianzeno

Quando Ataulfo acordou deu por falta da perna esquerda. Havia sido cortada, se é que fora realmente cortada, à altura da coxa – ao que parece, uma incisão perfeita. Uma inspeção cuidadosa revelaria a inexistência de qualquer ferimento, marcas ou cicatriz; como se desde o sempre jamais existisse ali perna ou coisa parecida, somente a protuberância mínima em forma de punho fechado e medindo pouco menos de um palmo de cumprimento. Confuso encontrava-se Ataulfo naquele estado em que, acabando de acordar, não tinha ainda despertado por completo; um aditivo ao tormento perfeitamente cabível à natureza inóspita do acontecimento. Configurava-se, assim, uma confusão mental completa. Considerou, esperançoso, a possibilidade de ser aquele um sonho de muito mau-gosto. Belisco-se, deu tapinhas no próprio rosto; primeiro devagar, depois com mais empenho. Foi a tal ponto na tentativa de escapar do pesadelo ao qual estava confinado que passou a esbofetear a própria cara; com força tamanha que não espantaria se, além da perna, perdesse ali mesmo a cabeça que poderia muito bem sair rolando pelo quarto ante a violência dos golpes. Quase isso. A cabeça foi o que perdeu, em sentido mais figurado, quando, apalpando a face dolorida, encontrou somente uma superfície plana e macia qual uma nádega. Imaginem vocês o desalento que sentiu Ataulfo ao constatar a perda também do nariz – o único que tinha. Foi um arremate cruel. Assustado, saltou da cama sem ao menos atentar a perna ausente, que, noutros tempos, lhe garantia o equilíbrio que faltaria no instante seguinte – de maneira torpe e desengonçada, girou num compasso antes de estatelar os ossos no chão, sonora e dolorosamente; arrastou-se na extensão do quarto, tão inconformado quanto perplexo, esbravejando com aquela voz nasal de alguém que fala com o nariz tampado (ou mesmo, de alguém não tem um nariz), e, agarrando-se furiosamente a um guardachuva de estilo inglês que muito veio a calhar, improvisou com ele uma bengala e pôs-se de pé quase com dignidade. Ataulfo partiu dali em direção ao banheiro – primeiro mancando decidido, vacilante logo mais, quando de frente para o espelho. Entre a boca e os olhos havia um vão imenso a ser preenchido. Sem o nariz para lhe conferir equilíbrio às feições, o rosto parecia não mais o de a uma pessoa. Era a fisionomia de um animal estranho, de aspecto dócil, até: uma caricatura humana de um desenho animado que, olhando bem, lembrava um boneco da Lego – amarelo sempre foi, mas sem nariz… isso não. Ante pavorosa figura, o nauseado Ataulfo lançou-se para trás abrupto. Foi um choque. Sentindo as mãos formigarem e um frio na barriga de estralar os ossos (incluindo aí o de galinha que desceu acidentalmente no jantar), com curiosidade e pavor aproximou o rosto ao espelho, e de perto avaliou o rastro deixado pelo nariz fugidio. Ou ainda, a ausência de qualquer rastro. Identificou, contudo, um padrão: era aquela incisão, assim como a da perna, perfeita. Sem ferimentos, marcas, nem cicatriz. Em resumo, sem explicação.

***

Chegaram em casa acompanhados do médico da família. O mais preocupado era Seu Pereira, o pai, alternando seus pensamentos entre o destino do filho, as atribulações e pendências na firma e a desolação admirável da esposa. Bem verdade era a de que, no fundo, não estava tão preocupado assim com a preocupação toda – visto que preocupar-se era somente a conduta normal e mais apropriada para a imagem de decência e austeridade, tão necessárias ao papel de homem sério. Preocupado, portanto, estava tranqüilo. Dona Florência, por sua vez, fazia o da matriarca sofredora, de maneira tal que ao menor alerta assumia uma expressão vazia de perda irreparável. Melindrosa, não sofria tanto quanto aparentava, e pelo contrário: gostava. Sentia-se mais respeitável e bondosa, e quanto mais quisesse sê-la, mais chorava. Era católica praticante. Doutor Tomás, o médico, ocupava-se de tranqüilizar a família e para isso conjeturava com seus botões um laudo tenebroso, anunciado somente dali ao anoitecer, durante o jantar. O fato é que as roupas de Ataulfo foram encontradas perto do portão, onde ficavam as pimenteiras.

***

Ataulfo estava mais para moço do que para velho, não sendo no entanto nem uma coisa nem outra. Era imberbe, mirrado e extremamente tímido. Sua aparência atribuía à personalidade avoada um semblante ainda mais infantil e, portanto, de total descrédito. Não fosse por isso, quem sabe, tivesse sido outra a providência imediata tomada por Doutor Tomás, médico da família, ao telefonema do amedrontado Ataulfo. O médico atendeu sério, rotundo, assumindo uma expressão grave quando ouvia em silêncio as tentativas de Ataulfo em esclarecer, no tom mais sóbrio e plausível que conseguia encontrar, como havia sem qualquer explicação razoável sido destituído de perna e nariz – assim, do nada, em sua própria cama. O resultado como se pode imaginar foi desastroso. Havia ainda o problema com a dicção, terrível, comparável somente a de um gago falando grego embaixo d’água. Freqüentes ainda eram as manifestações espontâneas de euforia, quais palavrões cabeludos, respiração ofegante, frases atropeladas, desconexas, berros e urros alucinados ou chorosos. Ataulfo estava, na melhor das hipóteses (e a exemplo das exiladas partes do seu corpo), completamente fora de si. Constitui-se, assim, o mais curioso telefonema recebido por Tomás em toda a sua carreira como médico e como homem.

“Ataulfo, seus pais estão em casa?”
“Não”
“Quando alguém chegar, diga para me ligar.”

***

A casa era rodeada de um bonito jardim caprichosamente bem cuidado por Dona Florência, a mãe, mulher de inegável competência na arte de cultivar ambientes familiares utilizando vegetação exótica. Havia no jardim plantas frutíferas e ornamentais, quais orquídeas, pimenteiras, um pé de acerola, um limoeiro, couve, capim-santo, hortaliças, trepadeiras; brotando no fértil solo revestido pelo gramado por onde Ataulfo se arrastava sofregamente, ao modo dos soldados abatidos num campo de batalha. Estava sem a perna esquerda, sem o nariz e nessa contagem subtraía-se ainda um braço – o direito. Ataulfo, o discreto e mirrado rapaz, não parecia mais tão retraído. Gritava com toda a força dos pulmões que, ao que tudo indica, ainda estavam lá. Em compensação, sem nariz, braço e, alto lá, agora sem as duas pernas, estava àquela altura tão mirrado quanto jamais esteve. Era um pedacinho de homem a se arrastar pelo chão – inserido na horta de Dona Florência, parecia um saco de batatas em fuga. Com algum esforço girou o que restava do corpo, e lá permaneceu: a barriga para cima, as costas deitadas no gramado, um tronco somente. Fazia um dia claro, e sob o céu azul de nuvens brancas, as folhas das pimenteiras balançavam suavemente.

 

 Natal,  14/04/2009

 

 ¤¤¤¤

Ilustrado por Elsita.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Abril 15, 2009

Sonambulismo em cães afeta jovens

Cachorro enfrentando sérios distúrbios no sono:

Jovem nerd enfrentando sérios distúrbios mentais:

Abraço fraterno,
Márcio N.

Abril 10, 2009

Gato Ninja

Um dos vídeos mais legais que eu já vi na internet toda.

Tem mais no Moire, site totalmente dedicado ao gato e feito pelo dono.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Abril 9, 2009

Odete, a Ordinária

Ode Caprichosa

Cálida tarde primaveril. Mergulhando lentamente, no céu crepuscular encandescente, encarnado, o sol dourado, se punha solenemente - por trás dos verdes montes delineados; quando, sob o frondoso jatobá de folhas cadentes, o fanático por adjetivos se masturbava loucamente.

***

Abraço fraterno,
Márcio N.

Abril 8, 2009

Etiópia é uma festa

Achei muito massa esse clipe.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Abril 2, 2009

Animação boa

Essa animação tá aqui por atrapalho meu – eu ia colocar no noad e acabou saindo na página errada. Tudo bem.

E, por acaso, lembrei agora de um causo de hoje que fez eu se sentir dentro de um comercial de televisão ruim. Um velho entrou na banca e pediu a raspadinha tal, como não tinha ele saiu reclamando que não era mesmo o dia de sorte dele. Nem o meu.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Março 30, 2009

As aventuras do homem sem pênis

Tirinha surrupiada de Perry Bible Fellowship.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Março 29, 2009

Sambinha fanfarrão

Um… dois… três…

 João Fanfarrão

João Fanfarrão é um fanfarrão
Sem um só arranhão escapou
Quando atropelado por caminhão

João Fanfarrão é um fanfarrão
Ao fugir da escola, a vida fez-lhe lição:
Que saiu, saiu, mas esqueceu do calção

João Fanfarrão é realmente um fanfarrão
De vez em quando mente, mas só por diversão

João Fanfarrão é um fanfarrão
Outro dia se perdeu, estabanado,
E quando foi encontrado,
Tinha passado a perna em Alemão

João Fanfarrão é fanfarrão de fato
Deu a volta por cima, e veja que engraçado:
Foi pela contramão

João fanfarrão é um fanfarrão
Pediu pra lavar a própria roupa
Cueca, camisa, meia, bermuda, calção
E como fez, todo molhado, bolas de sabão

 João Fanfarrão é um fanfarrão
Quando gripado bebe remédio
Quando sarado come feijão

João Fanfarrão é um fanfarrão
De nariz resfriado parece vulcão
Noutro dia pousou nele um canário:
Morreu, o coitado, de causa erupção

João Fanfarrão é o craque fanfarrão
Nunca aprendeu a jogar bola,
E quando o juiz não olha
Vai lá e faz gol de mão

João Fanfarrão é um fanfarrão televisivo
Aprendeu artes marciais ninja do inimigo
De tanto ver televisão

João Fanfarrão é um fanfarrão querido
Tem tudo que quer,
do jeito que quer,
sem gastar um tostão:
Os pais é quem lhe dão

João Fanfarrão é um fanfarrão
Não quer ser astronauta,
Nem bombeiro, nem cirurgião
Só pra não fazer a lição

João fanfarrão é um fanfarrão,
No aniversário foi um pagode:
De tanto enfiar o dedo no bolo
Findou fraturando o dedão

João fanfarrão, eu quero ser fanfarrão
Quando a vida não era, você erra por ela
Levando tudo leve, assim, é bom

E João, o que ele é?
É fanfarrão!
Fazendo um monte de besteira,
Ganhou uma canção
A canção do Fanfarrão
Que é João

Abraço fraterno,
Márcio N.

Março 29, 2009

Emir Kusturica & TheNoSmokingOrchestra

Feliz descoberta a desse grupo de Sarajevo. Formado em 1980 e sobrevivendo à onda de genocídios na Iuguslávia dos anos 1990, mantém forte as raízes bálcãs e vem escapando imune à incontinência anal popidêmica de ultimamente.

A imagem ao lado, com alguns integrantes amarrados a um Jatobá, realmente não quer dizer muita coisa… mas é muito boa.

A seguir, música para assassinato neste vídeo alegre e dançante:

The No Smoking Orchestra traz nos vocais o fundador dr. Nelle Karajic, que teve sucessivos problemas com o regime por causa da língua frouxa. Um dos discos, Dok čekaš sabah sa šejtanom (“Esperando pelo Sabá com o Diabo”, frase do folclore muçulmano da Bósnia-Herzegovina), rendeu tamanha rejeição que a Ochestra sofreu alterações significativas, sendo uma delas a entrada de Emir Kusturica, cineastazão, que já tinha o filho nas baterias do conjunto. O clipe com uma direção absurda, por exeemplo, é por causa disso, eles têm um Palma de Ouro na banda.

O resto da formação: Nenad Gajin Goce (guitarra), Her Dralle Draugentaller (teclados), Glava “O Cabeça” Markovski (baixo e balalaika baixo), Alexander “O Grande” Balaban (tuba), Nesho “Melro” Petrovic (saxofone), Zoki Miloshevic (acordeão) e Dejan Sparavalo (violino)… Além de agregados mil; como a árvore, na foto.

Agora,  mais uma cortesia gentilmente cedida pela internet.

• Sobre a banda 
• Site oficial
• Baixar disco (pass: www.pcmuzik.com)
• Show apoteótico (argentina)

Abraço fraterno,
Márcio N.

Março 18, 2009

Bruno Aleixo _pra lá de além-mar

Eis que surge em Portugal algo completamente diferente e inovador em termos de humor, por um tal Bruno Aleixo, criador de sketches veiculados no SIC, canal fechado da televisão portuguesa, de estranheza e graça que para mim são uma pérola. Abaixo, os sete vídeos disponíveis da série “Escola”, com diálogos entre um aluno de primário e uma professora.







Além dos demais vídeos relacionados pelo google, aconselho-vos ainda as séries curtas de Aleixo: Mensagens que deixo para você e Conselhos que vos deixo, donde se extrai o seguinte adendo: “Nunca durmas todo nu. A casa pode arder e depois ficas de fora, pelado, enquanto os bombeiros apagam o fogo”.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Bruno Aleixo no Wikipédia, aqui.

Março 13, 2009

Casais felizes entristecem juntos

A imagem abaixo tem 276k e leva alguns segundos para carregar.

Resolvi fazer essa espécie de tira porque achei a foto assustadora, de verdade.

abraço fraterno,
Márcio N.

Outra tirinha, no mesmo esquema, aqui.

Março 11, 2009

BROADCAST + jovem simétrica

Gostei bastante desses vídeos para as músicas do Broadcast, banda inglesa. São reedições de imagens do rosto de Edie Sedgwick, modelo doidona dos anos 1960, fazendo brincadeiras nas cores e interferências diversas.

Colour me in / broadcast ↑

Goodbye girls / broadcast ↑

Arc of journey / broadcast ↑

É estética pura. A beibe, o tratamento, as músicas.
Os vídeos são desse canal pessoal no youtube – lá tem mais.

Abraço fraterno,
Márcio N.

Broadcast no myspace, aqui / Warp Records, aqui.

Março 10, 2009

Sobre paranóia

Algo preocupante.

Não bastasse a pressão costumeira do ambiente de trabalho, desde que li isso passo o dia com a impressão de que estou sentado sobre explosivos. Circula a história de que, na China, um rapaz de 14 anos morreu em decorrência de uma hemorragia com ferimentos no reto provocados por estilhaços de aço, quando, fatidicamente, o cilindro de gás da sua cadeira ajustável explodiu. Episódios como esse da China acontecem o tempo inteiro, e são alertas pontuais sobre como o mundo é um lugar inseguro. E, na cidade, tanto mais. A vida urbana é constituída de medo e, a paranóia, o sentimento geral. Medo é o que faz alguém optar por um carro com air-bag, por exemplo; mas é a Paranóia que faz alguém perscutar o acento do cinema, na possibilidade de ter ali uma agulha contaminada com vírus H.I.V (ou mesmo, um cilindro de gás explosivo, nas reclináveis). Isso, administrado com cuidado, é das melhores estratégias para uma vida saudável – uma vez que, o segredo para a longevidade, é essencialmente manter-se vivo por muito tempo. Quando vemos um velhinho sentado em um banco de praça, não estamos a ver um velhinho sentado em um banco de praça. Ele é um homem que, há um tempo razoável, tem escapado ileso a todos os riscos de morte que a vida oferece. Quase firme, àquela altura do campeonato, provavelmente cumpriu premissas básicas, como: não fumar ou beber em excesso; não caminhar por ruas de pouca iluminação, ou mesmo olhar para os dois lados antes de atravessar uma; não discutir com estranhos, sobretudo no trânsito ou em bares; dirigir devagar, e sóbrio, usando cinto de segurança ou capacete, ou os dois; evitar caixas eletrônicos em áreas desertas; não andar com objetos de valor; comer uma quantidade aceitável de gordura e carne vermelha; jamais reagir a um assalto, ou mesmo praticar um; evitar o vício em drogas e o contato com o tráfico; não seguir pelo caminho do crime etc. Definido isso, podemos tomar as devidas precauções, e, com um pouco de sorte, nos mantermos… na medida do possível… inteiros.
A ameaça das cadeiras, realmente, quanto a isso não sei o que fazer.

Abraço fraterno,
Márcio N.


Foi assim que ela ficou.

Março 9, 2009

Inform. desnec. nº4325

Coisas que, se você não compartilha, podem realmente comprometer seu dia.

Propaganda enganosa que funciona de verdade
“Dinheiro Grátis”

Boa causa
E você, companheiro… já fez o seu auto-exame de próstata hoje?

Acidente
Ontem atropelei um carro estacionado na calçada. O veículo passa bem.

Mensagem corporativa
“Pirata: neste carnaval fuja dos canhões.”
[outdoor do Rum Montilla nas adjacências de Recife]

Piada ruim e de mau gosto [lida num blog ruim e de mau gosto]
P: O que é um pontinho branco nos pentelhos de Marcelo Camelo?
R: Um dente-de-leite de Mallu Magalhães.

Piada boa e de bom gosto [I e II]
P: O que Aristóteles faz quando está com muita fome?
R: Come num Platão.

— Garçom, sivuple, le note!
— Dóóó.

Orkut
Imbecis catalogados por cidade, sexo e preferências.

REGISTRO

Glorioso momento de agente infiltrado instantes antes de surpreender o inimigo. [da esquerda p/ direita: o quinto, em pé] 

Foi no entanto capturado e levado ao paredão, o pobre homem.

Honestidade [por uma frase de msn]
80% das bactérias não estão na boca. Estão nos pés.

Censurado

Sobre miséria e safadeza numa blitz policial na madrugada
Tudo em ordem? Tudo. Tem uma ajudinha pro guaraná? Tenho R$ 1,20. Ajuda.

Amnésia do macho no Dia Internacional da Mulher
08 de março. Domingão.

Lençóis freáticos 
Fazendas de coliformes fecais cortando o bunker à altura de Natal.

Actívia
Giselle Bundchen, como você mantém essa forma? ”Defecando”. Surpreendente.

***

Perdão pelo deslize.
Se tudo correr bem, podemos encontrar uma pá e cavar mais baixo.

Abraço fraterno,
Márcio N.