— E então, rapaz, como foi a vida?
— Mais ou menos.
***
Ontem encontrei minha agenda telefônica velha. Para se ter idéia de como é velha, ela é do tempo em que as pessoas ainda usavam agenda telefônica. Isso era antigamente, antes do celular. Agora as agendas estão no celular, e isso é ótimo, porque toda vez que troco de aparelho eu perco com ele a maioria dos meus contatos; depois, sem que você perceba, a agenda está cheia denovo.
***
Minha agenda telefônica velha está cheia de fantasmas. São nomes de defuntos, aparecendo em ordem alfabética, um após o outro. A maioria não são nomes de pessoas de verdade, porque elas provavelmente nem existem mais, e quando digo que não existem mais é porque geralmente o tempo as transforma em estranhos; é o que acontece.
***
Uma vez alguém disse que o mundo era como uma panela com água fervendo. Nessa panela as bolhas de ar são as pessoas, e a trajetória que uma bolha traça, do fundo da panela até o topo, é a história da vida de um indivíduo. São várias bolhas surgindo, se debatendo e estourando, tudo de forma muito confusa. O livro era Quincas Borba ou Brás Cubas, não sei direito, e esse raciocínio hippie ilustra bem como relações sociais são algo absolutamente casual e sem sentido.
***
Mas nem tudo é uma merda, e algumas pessoas viram cervejas e cafés eventuais, num esbarrão qualquer. Senti vontade de ligar para algumas pessoas da agenda – pensariam que eu tava doido, ou ficariam assustadas com uma ligação sem motivo aparente [deve ter sido por isso que inventaram os aniversários].
***
Acabo de elaborar um plano: quando eu tiver bem velho, e se tiver comido fígado suficiente pra não sofrer de atrofia cerebral na velhice [entenda], vou pegar um telefone e discar alguns números da agenda. As conversas já têm um começo: “E então, rapaz, como foi a vida?”.

É isso aí, pessoal. Esse foi o texto de auto-ajuda da semana.
Abraço fraterno,
Márcio N.
6 Comentários
Setembro 17, 2008 às 4:21 pm
“Senti vontade de ligar para algumas pessoas da agenda – pensariam que eu tava doido, ou ficariam assustadas com uma ligação sem motivo aparente [deve ter sido por isso que inventaram os aniversários].” <—— pode crer.
Adorei, muito bom e muito verdadeiro.
Setembro 17, 2008 às 4:39 pm
Ainda é do tempo que “soh” era uma palavra reconhecida como tendo sentindo em si mesma.
Setembro 17, 2008 às 5:42 pm
Um comentário que não cabia no texto. Em Portugal, telefone celular se chama “telemóvel”. A imagem que me vem à cabeça quando escuto isso é a desse cara ao lado do telefone de rodas.
Setembro 18, 2008 às 2:16 pm
Minha agenda é o msn. o texto tá massa.
inté!
Setembro 18, 2008 às 3:04 pm
Eu vivo mexendo nessas agendas ainda… É estranho ver um monte de gente que nem sei por onde anda, mas que naquele momento era muito importante pra mim.
Sou das antigas.. Ainda tenho uma agenda que anda sempre comigo. Acho que alguns hábitos são importantes pra não esquecer quem eu fui e sou.
bjks!
Setembro 18, 2008 às 4:32 pm
tas ficando bom nesse negócio.